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segunda-feira, setembro 7, 2026

A pólvora que não explode: Por que o recorde de stablecoin parou de prever a alta do Bitcoin

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Em julho, tirei um slide de uma apresentação minha. Ele mostrava o supply de stablecoins batendo recorde histórico, com uma frase que eu já tinha repetido dezenas de vezes: dinheiro na beira da piscina, esperando a hora de pular. Tirei porque olhei os dados anteriores e a promessa não se cumpriu.

O raciocínio nasceu bom. Stablecoin é um dólar que já mora dentro do sistema de cripto. Para comprar Bitcoin com reais, você precisa de banco, corretora, câmbio e paciência. Com USDT na carteira, você está a um clique.

Se o estoque de dólar digital cresce, existe mais munição pronta para comprar risco. Em 2020 e 2021, isso descreveu bem o que aconteceu. Virou indicador, virou slide, virou manchete recorrente em todo portal do setor, o meu material incluído.

O teste mais limpo que esse indicador já teve

O supply total bateu recorde histórico em 17 de maio de 2026, chegando a US$322,4 bilhões, um volume maior que as reservas cambiais de 95 países. Pela lógica da pólvora seca, era a maior munição já apontada para o mercado.

O que veio depois: maio fechou com o Bitcoin em queda de 3,57%, junho derrubou o preço em cerca de 19%, e o ativo tocou uma mínima perto de US$58 mil, a menor em 21 meses.

Os ETFs à vista contam a mesma história pelo outro lado, com US$2,30 bilhões de saída líquida em maio e US$4,06 bilhões em junho, o maior resgate mensal desde o lançamento dos produtos.

O recorde de munição foi seguido pelo pior semestre em quase dois anos.

O estoque encolheu e o uso explodiu

Em 14 de julho, o supply tinha caído para US$ 306,5 bilhões, uma perda de US$ 11,5 bilhões em 90 dias e a primeira contração trimestral em quase três anos. No mesmo período, o volume transacionado bateu recorde: junho movimentou cerca de US$ 1,79 trilhão, alta de aproximadamente 63% sobre o mês anterior.

Menos dólar digital parado, muito mais dólar digital circulando. Economistas da Visa mediram a velocidade das stablecoins em 13,56 giros por trimestre, contra 1,65 do M1 americano.

Pense num estacionamento de shopping. Durante anos, contar os carros parados dizia alguma coisa sobre quanta gente estava lá dentro prestes a comprar. Aí o estacionamento virou ponto de táxi. As vagas ocupadas caem, o movimento na cancela dispara, e quem continua contando vaga acha que o shopping esvaziou.

Para onde o dinheiro foi

Pagamento e remessa, principalmente. Empresa que paga fornecedor no exterior, trabalhador que manda dinheiro para casa, corretora que fecha posição entre plataformas. Nesses usos o dólar digital entra e sai no mesmo dia, aparece no volume, some do estoque e nunca chega perto de um livro de ofertas de Bitcoin.

E apareceu um concorrente que paga juros. Em 10 de junho, os tesouros americanos tokenizados somavam cerca de US$ 14,8 bilhões em 82 produtos, com o BUIDL da BlackRock em torno de US$ 3 bilhões. Quem tem dólar digital hoje tem uma alternativa que rende, e dinheiro que rende tem menos pressa de virar Bitcoin.

O que olhar no lugar

O indicador quebrou porque a stablecoin deu certo. Enquanto ela servia apenas a quem operava cripto, contar o estoque fazia sentido, porque existia um destino possível para aquele dinheiro. Ela virou infraestrutura de pagamento global, ganhou dezenas de destinos concorrentes, e o estoque parou de significar intenção de compra.

Três substituições continuam de pé: o prêmio da Coinbase, que mostra quando instituições americanas estão comprando; o fluxo dos ETFs à vista, que é dinheiro comprando o ativo com nome, data e valor; e a velocidade, no lugar do estoque.

Defendi a leitura da pólvora seca por bastante tempo, em apresentação e em conversa com clientes. Ela estava certa quando o mercado tinha outra estrutura. Custa caro matar a própria tese em público, e custa muito mais caro decidir investimento com um sinal que parou de funcionar.

Sobre o autor

André Franco é CEO da casa de análises cripto Boost Research e colunista do Portal do Bitcoin. Analista de criptoativos desde 2017, Franco possui vasta experiência no mercado e já atuou como diretor de Research do MB | Mercado Bitcoin.



[Fonte Original]

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