Os dois melhores tenistas brasileiros da atualidade decidiram fazer pausas em suas carreiras. Quase que simultaneamente, Joao Fonseca e Bia Haddad deram um tempo das quadras para cuidar do corpo e da mente. A citação à sátira do poeta romano Juvenal é inevitável: “Mente Sã Em Corpo Sã”.
Existem razões pessoais inegociáveis para cada decisão que devem ser respeitadas. Longe de mim querer explicar os motivos das paradas estratégicas de Fonseca e Bia. Permito-me, no entanto, analisar o nosso comportamento como torcedores, jornalistas e todo o universo que circula em volta do tênis amador e profissional no Brasil.
Há muito o tênis brasileiro se divide em dois mundos: o dos que praticam e consomem como amadores ou profissionais do negócio, e o dos que têm o tênis profissional competitivo como profissão.
O negócio tênis no Brasil é um caso de sucesso. Estima-se em 3 milhões o número de praticantes, 5 mil quadras e, segundo a Confederação Brasileira de Tênis, houve um incremento de 400% em investimentos na última década. Embora não existam números concretos, fabricantes de materiais esportivos ligados ao tênis apontam o Brasil como um dos mercados de crescimento mais vigoroso atualmente.
Este universo do tênis sempre demonstrou enorme ansiedade por ídolos que materializassem o sonho de popularidade e conquistas. Na era amadora havia a rainha Maria Esther Bueno e a fase dourada de Thomaz Koch e Edison Mandarino na Copa Davis. Veio o fenômeno Guga, mas o sonho de um tênis forte e competitivo em terreno fértil não se materializou. A realidade de vitórias e carreiras esporádicas se estabeleceu.
Fonseca e Bia são fenômenos. Romperam a barreira da mediocridade (aqui é preciso entender que medíocre é médio, mediano, comum). O negócio por trás do tênis sempre enxergou cifrões nesses fenômenos. Oportunidades de vender mais raquetes e matricular mais alunos em academias, patrocinadores que são tenistas amadores ou tentaram ser profissionais e algumas vezes misturam as bolas.
Outro aspecto é o advento das mídias sociais. Qualquer atleta vencedor no Brasil passa a responder pelas frustrações de uma massa que projeta na vitória esportiva o alívio pelos fracassos cotidianos. Quando esse atleta perde um jogo, um título, vive uma fase ruim, ele vira alvo da ira reversa.
Acontece com Fonseca e Bia. A paulista foi top ten, semifinalista de Grand Slam, ganhou de algumas das melhores. Ela tinha a “obrigação” de vencer sempre. O carioca é o garoto dourado, o futuro do tênis, o novo jeito de se jogar. É questão de tempo que seja o novo número um. Qualquer desvio na rota e vira um fracassado.
Certas mensagem que atletas de sucesso recebem em redes socias são o esgoto digital. Tive acesso a algumas e é de virar o estômago. Elevado a milhares ou milhões, isso mexe com a cabeça de qualquer pessoa. Sem contar a pressão natural de um esporte que submete o atleta ao isolamento mental dentro de quadra e a uma rotina desgastante de viagens e jogos em sequência, porque a caixa registradora não pode parar de tilintar.
Torço muito para que Fonseca e Bia reencontrem seus eixos nessas paradas. Que viagem, descansem, curtam a vida, amem, namorem, riam com os amigos, vejam filmes e séries. Eles têm o direito de fazer o que quiserem de suas vidas e carreiras.
Sem mente controlada e corpo bem treinado, nenhum atleta de elite segura o tranco. Até o Alcaraz disse que pretende fazer pausas.
Essa bobagem de atleta ser tratado como herói, esperança, salvador da Pátria, orgulho etc. cai muito na conta do meu lado do balcão, o da mídia esportiva. Em troca da emoção momentânea, se perde a objetividade necessária do pacote. Esporte não é guerra e atleta não é soldado. Nenhum atleta defende o País por convocação da Pátria. É uma profissão, um trabalho, uma atividade. Competição não é batalha. Há milhões de pessoas que gostam mais de videogame, ciência, música, cinema e não dão a mínima para o esporte.
Um pouco de razão fará bem à emoção.
João e Bia, nos vemos em 2027 e que vocês sigam fazendo seu melhor, como sempre fizeram! Vocês não devem nada a ninguém.