Crítica | Reacher – 4ª Temporada – Plano Crítico

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  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas e de todo o nosso material da franquia.

Apesar da particularmente enorme quantidade de produções causada pela proliferação dos canais de streaming nas últimas duas décadas, o receituário de uma Hollywood sedenta por agradar de uma vez só o maior número possível de pessoas é bastante limitado se formos parar para pensar e observar com calma. São alguns poucos ingredientes misturados de maneiras e em quantidades diferentes e pronto, não mais do que isso. No entanto, todos nós provavelmente já tivemos a oportunidade de saborear os mesmos pratos simples e básicos que são radicalmente diferentes dependendo de quem os preparou, uns absolutamente intragáveis, outros inacreditavelmente deliciosos, com uma miríade de outras possibilidades entre esses dois extremos. Reacher, série de Nick Santora com base nos romances de Lee Child, é o típico feijão com arroz audiovisual que pega a receita dos filmes de brucutu dos anos 80 e joga um tempero novo daqueles comprados prontos em supermercados comuns para adaptá-lo ao paladar moderno, o que não é problema algum, mas també de forma alguma é desculpa para temporadas que vinham em franca queda de qualidade a partir do apenas bom primeiro ano.

Seguindo o padrão de sempre, Jack Reacher, o marombado para-raios de conspirações vivido pelo simpático suposto ator Alan Ritchson, tenta ajudar uma senhora visivelmente perturbada em um vagão de metrô, somente para ela se suicidar na sua frente, começando uma espiral investigativa que envolve dois outros policiais e um jornalista paranoico que se tornam parte de sua equipe informal e uma série de acontecimentos cada vez mais pseudo-complexos que invariavelmente giram em torno de um pen drive que supostamente a suicida teria entregue a Reacher. Apesar de a trama se passar entre a Filadélfia e Washington D.C. e não em uma cidade do interior, a estrutura da nova história, ainda bem, lembra muito a da primeira temporada, mais dinâmica, mais autocontida e mais brutal, o que ajuda o novo ano a voltar ao básico razoavelmente bem feito, sem muita água no fejião e também sem deixar o arroz ficar empapado, quase como se Santora tivesse percebido que ele não precisa de muito para fazer uma montanha de músculos porradeira e de rosto impassível agradar no quesito “quebre o pescoço antes, pergunte depois”.

Entre os constrangedores momentos Sherlock Holmes de Jack Reacher, as infinitas vezes em que os personagens são salvos no último segundo, quase um capítulo inteiro para explicar tudo tintim por tintim ao espectador que estava distraído no celular e um episódio final que é só pancadaria do tipo “vou usar uma faquinha de manteiga porque atirar no brucutu invencível vai contra meus princípios” ou, ao reverso, “vou esperar os vilões armados chegarem bem perto para usar os punhos no lugar de arrumar um pé de cadeira para empalá-los vivos”, com direito ao que me pareceram horas de epílogos, a nova temporada tem o coração no seu lugar, seja a generosidade contagiante de Reacher, os momentos WTF com o gatinho branco, a história pregressa da detetive Tamara Green (Sydelle Noel) que dá alguma substância a alguém na temporada e a tragédia e a tristeza do policial Jacob Merrick (Christopher Marquette), irmão da mulher que começa tudo no metrô. E vale também mencionar os ótimos alívios cômicos da temporada, o detetive Shaun Docherty (Kevin Corrigan), o inútil parceiro de Tamara que hilariamente batiza Reacher de Hobocop (eu tive que pausar o episódio até parar de rir) e o agente da CIA Foster (Dean Armstrong), que se torna o saco de pancadas favorito do protagonista em sequências incrementalmente mais violentas e, consequentemente, mais cômicas.

O restante da temporada é protocolar, incluindo os despistes, as reviravoltas e as grandes revelações que os roteiros vendem como grandes momentos, mas que, na verdade, não passam da xepa da feira do audiovisual. Ok, dou alguns pontos extras por algumas coreografias de luta que, na comparação com as decepções nas duas temporadas anteriores, melhoraram substancialmente aqui, mesmo que tudo seja no estilo padrão que a série exige, ou seja, com cada momento fortemente galgado na invencibilidade de Reacher em todas as circunstâncias, seja se jogando do telhado, atravessando explosões, se pendurando no elevador ou enfrentando os milhares de cortes das tais faquinhas de manteiga no final. De toda maneira, cada vez mais me convenço que oito episódios de duração regulamentar para contar essas historinhas mequetrefes que só servem de desculpa para pura pancadaria talvez resultem em quatro vezes mais minutos do que os realmente necessários e transformar Reacher em uma série de filmes e não de temporadas faria um bem enorme à franquia.

O quarto ano de Reacher obviamente não tem o sabor do feijão com arroz da sua querida vozinha, pois a produção nem faz o mínimo esforço nessa direção, mas, dessa vez, pelo menos o prato está aceitável, cozido no ponto certo e apresentado com um mínimo de cuidado. Não é uma dieta que eu particularmente sugira a alguém, mas, como uma refeição rápida, rasteira e pouco nutritiva, daquelas feitas para enganar a fome, ela até que serve.

Reacher – 4ª Temporada (EUA, 12 de agosto a 16 de setembro de 2026)
Desenvolvimento: Nick Santora (baseado em série de romances de Lee Child)
Direção: Sam Hill, Gary Fleder
Roteiro: Nick Santora, Scott Sullivan, Seth Cohen, Amy Pocha, Penny Cox, Cait Duffy, Mick Betancourt
Elenco: Alan Ritchson, Sydelle Noel, Agnez Mo, Anggun, Christopher Marquette, Kevin Corrigan, Dean Armstrong, Jason Diaz, Kerby Darius, Michael Gaty, Chris Owens, Kevin Weisman, Marc Blucas, Kathleen Robertson, Aaron Poole, Karen Kwong-Chip, Denis Wong
Duração: 373 min. (oito episódios)



[Fonte Original]

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