Entre os muitos aspectos da discussão sobre a proibição das bets – se a medida é eleitoreira ou se já tinha passado da hora de tomar uma atitude diante de um problema que endivida famílias, se os contratos já assinados podem simplesmente ser rompidos pelo caráter de urgência ou se deveria ter havido uma discussão mais ampla antes do anúncio, se os milhões que clubes e empresas de comunicação vão perder justificam uma reação aos bilhões que já saíram da atividade econômica -, há um que me chama atenção por um motivo peculiar: como opinar sobre algo que nos afeta, direta ou indiretamente?
Assim como patrocinam clubes e atletas, as bets patrocinam veículos de imprensa e jornalistas – que, com a pulverização provocada pelas novas mídias, passaram a poder ser a mesma coisa. Hoje há cada vez mais canais de uma pessoa só: o repórter (que normalmente lhe dá nome) é também cinegrafista, produtor, editor, CEO, head de finanças e compliance. Um profissional como esse responde diretamente ao patrocinador. Eu, como funcionário de uma grande empresa, não tenho essa responsabilidade. Mas quem assiste ao “Redação SporTV” não deveria, só por isso, confiar mais no que eu digo e menos no que diz um colega patrocinado. Ambos devemos ser cobrados igualmente pelo exercício correto do nosso ofício.
Quando os clubes se juntam para publicar uma nota alegando que a proibição das bets vai causar a extinção do futebol brasileiro (que, não custa lembrar, já existia antes delas), estão defendendo seus interesses comerciais. Não há nada de ilegítimo nessa iniciativa, embora nem por isso seja obrigatório concordar com os argumentos apresentados – e muitos torcedores, em manifestações nas redes sociais e em resposta a pesquisas de opinião, mostraram discordar veementemente. Mas quando um jornalista entra na discussão, deve-se esperar que o faça a partir de uma posição de neutralidade – que é sempre uma busca, e não algo dado.
Há muita confusão, hoje em dia, sobre o conceito de imparcialidade jornalística. Antes do advento das redes sociais, já tinha aumentado o conteúdo opinativo nas mídias tradicionais – eu mesmo apresento o que se chama de programa de debate, mas que seria mais correto chamar de programa de opinião. Com isso, passou a ser esperado que vocês da imprensa esportiva escolham um lado, desde os assuntos mais banais (o time jogou mal?, o treinador errou na escalação?, o jogador falhou?) até temas estruturais (finanças dos clubes, estrutura dos campeonatos, violências diversas). Mas duas características ainda são inegociáveis: opinar sem informação é palpitar; e sem independência, é desinformação.
No mundo polarizado em que vivemos, desqualificar o oponente tornou-se uma ferramenta popular em qualquer debate – e a consequência de seu uso é, via de regra, empobrecê-lo. Nós da imprensa (não vou brincar com o “vocês” aqui), das mídias tradicionais ou das novas, só temos uma opção: confiar na credibilidade que construímos ao longo de nossas carreiras. Ainda assim, seremos ouvidos com desconfiança. É justo. Porque nosso papel, como me ensinou meu compadre Ledio Carmona, também é de desconfiar sempre.