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Tentando dar uma nova vida editorial para o Gavião Negro nos anos 2000, a DC Comics autorizou uma publicação que tivesse como principal objetivo sobrepor as muitas versões do herói ao longo das décadas, desde as suas aventuras solo da Era de Ouro até a integração, em diferentes fases, à Sociedade da Justiça. Quem pegou a bucha para resolver foi a dupla Geoff Johns e James Robinson, que não só precisava seguir com roteiros que fizessem sentido para o novo momento do herói e de sua companheira, a Moça-Gavião, como também ajustar a linha do tempo do personagem, fazendo referência às encarnações (com nomes e histórias) que apareceram em outros títulos e explicando por que todas essas facetas referiam-se a uma única pessoa, a um único herói.
Para ser muito sincero, eu achei a primeira parte desse arco um porre. Sim, ele começa demarcando o território do pássaro enfezado (encarnado, aqui, como Carter Hall), fala de sua atuação como arqueólogo na atualidade, explora sua conexão com o passado e com o fato de ter mantido as memórias de outras encarnações, o que nunca havia acontecido. Como contraste, a Moça-Gavião (Kendra Saunders, sobrinha-neta de Shiera Sanders Hall, a primeira Moça-Gavião) não tem essas memórias e, ao menos num primeiro momento, atua como uma pseudo-antagonista do Gavião Negro, rejeitando suas investidas amorosas. Aos poucos, porém, cai no papinho de sua alma gêmea, situação que ela, de certa forma, nega, mas entende que ele não está mentindo: faz parte de um laço que existe há milêncios entre os dois. Se fosse só isso, ou seja, uma revisão e uns ajustes de toda uma trajetória dos personagens, a trama teria outra cara.
O problema é que os autores fazem uma junção estranha com a Índia e os elementos da mitologia hindu (parte dessa história envolve a busca de um artefato valioso e raro para salvar o museu da cidade de St. Roch), dispersando demais o leitor logo na introdução da saga, focando em algo que poderia ter sido conseguido mais organicamente. Acho a arte de Rags Morales muito boa, mas penso que estaria muito melhor se aplicada a um enredo menos espalhafatoso. A diferença de abordagem é tão gritante que, passado o momento internacional, a história volta a ficar atrativa; primeiro porque passa a brincar com a aproximação entre os gaviões; segundo porque a presença do Arqueiro Verde, cujo temperamento explosivo choca-se com o do pássaro, nos presenteia com quadros que são pura tensão misturada com ação e honestidade entre os dois. No todo, este é um bom começo para um projeto que pretende explicar o passado e seguir com o Gavião Negro fora da SJA; mas o desvio que o texto fez ainda na primeira parte tirou muito do que De Volta aos Céus poderia ter sido.
Gavião Negro: De Volta aos Céus (Hawkman: Endless Flight) — EUA, maio a outubro de 2002
Contendo: Hawkman Vol.4 (#1 a 5) + Hawkman Secret Files And Origins (2002) n°1
Roteiro: Geoff Johns, James Robinson
Arte: Rags Morales, Patrick Gleason
Arte-final: Michael Bair, Christian Alamy
Cores: John Kalisz, Heroic Age, Digital Chameleon
Letras: Bill Oakley
Capas: Andrew Robinson
Editoria: Peter Tomasi, Morgan Dontanville
No Brasil: DC Comics – Coleção de Graphic Novels n°80 (Eaglemoss, dezembro de 2018)
Tradução: Eduardo Tanaka, Mario Luiz C. Barroso, Carlos Henrique Rutz
196 páginas