O alívio do ciclo de corte de juros deve demorar a aparecer no balanço das empresas brasileiras. O Ebitda agregado das empresas brasileiras deve cair 3,3% em 2027, segundo relatório da Moody’s Ratings sobre as condições de crédito no país. A agência projeta que o indicador, que mede o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, ficará em US$ 144,5 bilhões. Para 2026, a estimativa é de US$ 149,4 bilhões.
A redução prevista equivale a US$ 4,9 bilhões e ocorre em um ambiente de crédito caro, consumo mais contido e pressão sobre os custos. A análise abrange empresas não financeiras e de infraestrutura e aponta que a combinação de juros elevados e desaceleração econômica continuará a limitar a capacidade das companhias de gerar caixa e administrar suas dívidas. Moody’s Ratings_Condições mais …
Os sinais de deterioração já aparecem nas avaliações da agência. Entre janeiro e setembro deste ano, a Moody’s registrou 20 ações negativas de rating envolvendo empresas brasileiras. Esse número não corresponde necessariamente a 20 rebaixamentos, pois ações negativas também podem envolver outras mudanças na avaliação de crédito.
Em 15 de setembro, cerca de 23% das empresas não financeiras avaliadas pela agência no país tinham perspectiva negativa para suas notas. A indicação sinaliza risco de piora da classificação, embora não determine um rebaixamento.
“As elevadas despesas com juros continuam a limitar o lucro líquido e a geração de caixa das empresas, resultando em uma geração mais contida de fluxo de caixa livre”, afirma o relatório.
Quase um terço da dívida está exposto a juros flutuantes
Quase um terço da dívida corporativa com rating no Brasil está atrelado a taxas flutuantes, segundo a Moody’s. Essa característica mantém uma parcela relevante dos compromissos financeiros sensível ao nível dos juros.
A exposição se distribui por setores como varejo, distribuição de combustíveis, agronegócio, locação de veículos, transporte, energia e saneamento. Empresas que entraram no ciclo de aperto monetário com endividamento elevado e concentração de vencimentos no curto prazo estão entre as mais vulneráveis.
O relatório considera a 13,75% ao ano e cita um consenso de mercado de redução para 12% ao fim de 2027. Mesmo com essa queda, a avaliação é que o custo do dinheiro continuará a restringir o espaço para refinanciar dívidas e financiar a expansão dos negócios.
A agência prevê que a redução do endividamento dependerá, em muitos casos, de vendas de ativos e reestruturações. A melhora da geração de caixa, por si só, não deve ser suficiente para sustentar esse movimento.
Entre as companhias citadas, a Cosan detinha cerca de R$ 28 bilhões em dívida indexada a taxas flutuantes em fevereiro deste ano. Segundo a Moody’s, a empresa depende da monetização de ativos para continuar a reduzir o endividamento e fortalecer sua estrutura de capital.
Para empresas com vencimentos relevantes até 2028, a agência aponta empréstimos negociados diretamente com bancos e captações no mercado doméstico como alternativas para atender às necessidades de refinanciamento. O risco aumenta quando aquisições e investimentos de grande porte são financiados com recursos de curto prazo, sem reservas de caixa ou linhas de crédito previamente asseguradas.
Investimentos mantêm pressão sobre o caixa
No setor de infraestrutura, os compromissos de expansão continuam elevados apesar do custo do financiamento. O relatório cita um plano de investimentos de R$ 54 bilhões da Axia até 2030. Também menciona programas de R$ 44 bilhões da Cemig e de R$ 31 bilhões da CPFL.
Segundo a Moody’s, esses desembolsos exigirão acesso contínuo a recursos externos e poderão manter o fluxo de caixa livre negativo por períodos prolongados. Isso significa que, após os investimentos, as companhias poderão precisar de financiamento adicional para cobrir suas necessidades.
A agência também aponta dependência de financiamento externo na Aegea, além de dividendos das subsidiárias e apoio dos acionistas. Na avaliação do relatório, uma recente injeção de capital e o uso de linhas de crédito comprometidas aliviam as necessidades de curto prazo, mas não as solucionam.
Aço importado e commodities pressionam margens
A concorrência internacional acrescenta pressão sobre a indústria. Segundo dados do Instituto Aço Brasil citados no relatório, as vendas domésticas de aço devem cair 1,7% em 2026. O consumo aparente, medida que considera a produção destinada ao mercado interno e as importações, deve crescer 1%.
Nos primeiros sete meses do ano, as importações de aço somaram 3,3 milhões de toneladas. O volume correspondeu a 22% do consumo aparente brasileiro.
Para a Moody’s, a concorrência dos produtos importados, especialmente os chineses, continuará a pressionar a rentabilidade das siderúrgicas até 2027. A agência não identifica condições que sustentem aumentos dos preços domésticos no próximo ano, cenário que afeta as operações brasileiras de CSN, Usiminas e Gerdau.
No minério de ferro, a projeção é de preços entre US$ 90 e US$ 100 por tonelada até o fim de 2026. A demanda chinesa mais fraca limita a possibilidade de valorização, embora a agência considere que a liquidez e os indicadores de crédito da Vale ofereçam proteção à companhia.
Na celulose, o relatório cita preços próximos de US$ 600 por tonelada para a fibra curta de eucalipto, abaixo dos níveis considerados de equilíbrio do ciclo. Novas capacidades de produção e estoques elevados devem continuar a pressionar o setor. A Suzano, segundo a análise, conta com custos baixos e volumes robustos para sustentar seu desempenho operacional.
Clima amplia os riscos para energia e alimentos
O risco climático é outra fonte de pressão. Segundo o relatório, alimentos e energia elétrica residencial representam, juntos, cerca de 23% da cesta do IPCA. Uma combinação de perdas agrícolas e aumento do custo da eletricidade poderia, portanto, prolongar as pressões inflacionárias.
A intensidade e o momento de ocorrência do El Niño serão determinantes para os efeitos sobre a produção. A Moody’s aponta riscos de perdas em culturas como soja, milho, trigo, café e cana-de-açúcar, além de impactos sobre a pecuária e o transporte de cargas.
Uma oferta menor de milho e soja elevaria os custos de ração para produtores de proteína animal, com efeitos sobre empresas como JBS e MBRF. No setor elétrico, alterações no nível dos reservatórios poderiam aumentar a necessidade de geração termelétrica e elevar os custos do sistema.
Essas pressões chegam em um momento em que as empresas também devem encontrar mais dificuldade para repassar aumentos de custos. Após se beneficiar da resistência do mercado de trabalho e do crescimento dos salários reais, o setor de serviços deverá enfrentar consumidores mais cautelosos em 2027, segundo a agência