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- Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas e de todo o nosso material da franquia.
Agora eu finalmente posso dizer que Reacher serve para alguma coisa, pois tornou possível um spin-off focado em Frances Neagley que é uma série boa de verdade e não apenas a versão estendida, mas tão aguada que dá dó, dos filmes de brucutu dos anos 80. Não que Neagley: Detetive Particular (para que esse subtítulo nacional, hein?) seja o suprassumo das séries de ação, mas ela é sem dúvida uma obra bem estruturada, com uma história engajante, personagens interessantes que vão um pouco além da unidimensionalidade padrão e cenas de ação que não são apenas variadas, como conseguem reunir com aparente facilidade o espírito “porradeiro” que se espera sem ser algo que descambe facilmente para a mais pura bobagem. É, para todos os efeitos, uma espécie de bem-vinda evolução do trabalho de Nick Santora, agora ao lado de Nicholas Wooton.
Com um começo bem amarrado que ao mesmo tempo lembra o espectador que a série é derivada de Reacher ao contar com uma participação especial de Alan Ritchson – que retorna depois somente no final, sem em momento algum interferir na história, uma escolha mais do que sensata da produção – e que estabelece o gatilho que faz Neagley (Maria Sten), ex-militar e agora detetive particular em Chicago, investigar a morte suspeita de seu amigo de infância, a temporada não perde tempo em colocar a narrativa em movimento, reunindo a equipe improvisada da protagonista formada pelo detetive de polícia Hudson Riley (Greyston Holt), que quer apagar o estigma que paira sobre ele em razão de sua família criminosa, Renee Birdwhistle (Adeline Rudolph), assistente do chefe de Neagley que inicialmente sente inveja da detetive e quer aprender tudo que ela sabe e Keno (Jasper Jones), um jovem criminoso de rua. Essa reunião providencial de personagens, porém, não é feita como em um passe de mágica e a conexão entre eles vai aos poucos evoluindo, a ponto de o espectador muito facilmente se importar por cada um a cada novo episódio.
Curiosamente, tanto o estopim narrativo quanto o pano de fundo do mistério são muito semelhantes à quarta temporada de Reacher cujo último episódio foi ao ar no dia em que os oito de Neagley foram disponibilizados: tudo começa com a morte do amigo de Frances no metrô a céu aberto, não subterrâneo, e a razão por trás envolve uma fórmula química que não é uma arma de destruição em massa, mas sim um psicotrópico sendo ilegalmente testado em humanos por executivos e corporações gananciosas. Mas as coincidências param por aí, pois o spin-off faz uso de um culto à la Jim Jones comandado por Lawrence Cole (Damon Herriman) que serve de fornecedor de jovens inocentes para os testes mortais em um misterioso silo na fazenda em que a lavagem cerebral acontece. Para além disso, o melhor que a série faz em termos narrativos é evitar a mania insuportável dos “momentos surpreendentes” e das “reviravoltas”, que se tornaram epidêmicos no audiovisual. Muito ao contrário, tudo funciona às claras, com os pontos mais importantes da conspiração sendo trabalhados dentro da história desde o começo, o que não quer dizer que inexistem surpresas, mas sim que elas parecem muito mais orgânicas à trama.
Os roteiros, porém, caem em algumas armadilhas do gênero. Em uma delas, o poder de observação de Neagley é quase um “sentido de aranha” do Amigão da Vizinhança, pois ela consegue detectar não um, mas dois momentos (que são aliás iguais) em que ela está em perigo iminente. Em outra, Keno torna-se o mais altruísta e valente dos pequenos criminosos arregimentados para uma boa causa, com Renee, mais próximo do final, revelando-se com uma exímia faz tudo, o que inclui falar francês, lutar e matar sem dificuldade e agir como uma super treinada soldada. E, claro, a inevitável e interminável pancadaria final não só faz dos vilões meras buchas de canhão, como é fácil demais e acaba esvaziando um pouco toda a investigação feita anteriormente. Ajuda muito a compensar esses tropeços a forma como os traumas do passado de Neagley e Riley, a primeira tentando entender a origem de sua afefobia e o segundo lutando para ser reconhecido por seu próprio valor, são trabalhados nas respectivas subtramas que, mesmo um pouco convergentes demais para o meu gosto, funcionam para dar mais profundidade aos dois.
Maria Sten merecidamente ganha sua série própria que já nasce superior à de seu colega grandalhão, mostrando que séries de ação não precisam ser monotemáticas ou repletas de pancadaria o tempo todo. Tomara que Neagley alcance pelo menos parte do enorme sucesso de Reacher para garantir seu retorno para mais, de preferência na base de um episódio por semana que, como se sabe, é a única maneira civilizada de se assistir séries.
P.s.: Quantas séries cujos títulos são nomes e/ou sobrenomes de personagens o Prime Video tem, hein?
Neagley: Detetive Particular – 1ª Temporada (Neagley – EUA, 16 de setembro de 2026)
Desenvolvimento: Nick Santora, Nicholas Wootton (baseado em personagens criados por Lee Child)
Direção: Sam Hill, Gary Fleder, Phil Abraham, MJ Bassett
Roteiro: Nick Santora, Nicholas Wootton, Adam Higgs, Kyle Long, Lacey Herbert
Elenco: Maria Sten, Zion Hutson, Greyston Holt, Adeline Rudolph, Jasper Jones, Matthew Del Negro, Damon Herriman, Tyrone Benskin, Eric Miracle, Rebecca Liddiard, Joel Keller, Brian Hamman, L. Dean Ifill, Jeff Kassel, John Bregar, Peter Outerbridge, James Downing, Mal Dassin, Jessica Clement, Michael Hough, Jhaleil Swaby, Frank Cox-O’Connell, Ian Tracey, Alan Ritchson
Duração: 395 min. (oito episódios)