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- Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.
Uma das coisas mais bacanas da temporada inaugural de Mulheres de Azul, primeira produção mexicana do Apple TV, é que o showrunner Fernando Rovzar abraça a década de 70 em que a história se passa não só tematicamente, mas estruturalmente, tendo a coragem de fazer da série uma verdadeira “novela mexicana” carregada de elementos da abordagem escolhida, da construção arquetípica das personagens às críticas políticas e sociais repletas de didatismo, passando pela paleta de cores pasteis e pela fotografia enevoada típicas da época. Quando notei que a segunda temporada havia se materializado no serviço de streaming, algo que aconteceu, pelo menos para mim, completamente na surdina, fiquei ao mesmo tempo feliz pela renovação em si e temeroso pela possibilidade dessa pegada novelesca ser suavizada ou até eliminada para aproximar a obra de gostos mais… digamos… modernos.
Felizmente, porém, Rovzar manteve-se fiel à sua criação e trouxe de volta tudo aquilo que destacou a série, mas naturalmente elevando as linhas narrativas a um novo patamar lógico, agora que María de la Torre (Bárbara Mori), Valentina Camacho (Natalia Téllez), Gabina Herrera (Amorita Rasgado) e Ángeles Cruz (Ximena Sariñana) estão sedimentadas como policiais de respeito na Cidade do México. Claro que isso não quer dizer que os problemas pelas quais as mulheres – mexicanas ou não – passavam (uso o passado apenas por conveniência) ao assumirem cargos que os homens acham que são de sua exclusividade desapareceram, mas sim que, agora, elas precisam continuar caminhando em frente com todo o vigor para não perderem o que conquistaram. Se o orgulho de Octavio Romandía (Miguel Rodarte), líder da equipe feminina, é evidente e o respeito de Gerardo Herrera (Horacio García Rojas), irmão de Gabina e capitão das investigações é palpável e crescente, os dramas profissionais e pessoais da quadra central continuam presentes, seja María tendo que lidar com a pressão que sofre de seu marido e da diretora da escola de sua filha por escolher separação e trabalho no lugar de casamento e filhos, Valentina sofrendo pelo trauma de seu sequestro na temporada anterior e seu passado revoltoso ou Gabina e Ángeles, de maneiras diferentes, tendo que lidar com a intolerância machista do Comandante Herrera (Mario Zaragoza).
E a história, que inicialmente envolve o assassinato de estudantes que participaram de um protesto antigoverno anos antes, mas que se desenvolve para algo bem mais complexo e interessante, redobra os esforços de lidar com a corrupção do governo mexicano em geral e da força policial em particular, o que traz Gabina e sua família para o foco das discussões em meio a um misterioso sequestrador e assassino de policiais. Sem precisarem investigar tudo em segredo, as policiais, agora, tem mais liberdade e mais acesso às informações e à infraestrutura da delegacia, com suas vitórias, agora, funcionando de maneira mais orgânica dentro do conjunto da temporada. Isso abre espaço para uma aproximação maior entre María e Octavio, culminando em um momento que é eficientemente novelesco como deveria mesmo ser, mas que ganha uma solução adulta, que foge dos clichês do gênero, e para as dúvidas de Gabina sobre seu pai e seus irmãos aflorarem. Há até espaço para pistas falsas, mudanças de rumo na história e algumas surpresinhas aqui e ali, de modo a criar um bom suspense que põe em pratos limpos aquilo que o país enfrentou nos anos 70 e que, em muitos aspectos, enfrenta até hoje, com ecos infelizmente familiares no Brasil e uma série de outros países do mundo.
Com dois episódios a menos nesse segundo ano, o passo é um pouco mais apertado, mas ainda confortável, sem correrias ou pulos lógicos muito grandes, com a direção dando tempo para as atrizes principais novamente encantarem o espectador com ótimas performances no conjunto, valendo especial destaque, claro, para Bárbara Mori, que representa com mais vigor e abrangência as agruras das mulheres que precisam equilibrar as vidas doméstica, romântica e profissional em meio a um ambiente completamente patriarcal. O charme de Mulheres de Azul repousa no uso generoso e sem vergonha de ser feliz de clichês do gênero para construir histórias micro e macro engajantes que conversam e entretêm o espectador atual, educando-o no processo. Tomara que as Azules retornem para mais!
Mulheres de Azul – 2ª Temporada (Las Azules – México, de 12 de agosto a 30 de setembro de 2026)
Criação: Fernando Rovzar
Direção: Fernando Rovzar, Humberto Hinojosa O, Sara Seligman
Roteiro: Fernando Rovzar, Pablo Aramendi, Lisa Carrión, Silvia Jiménez
Elenco: Bárbara Mori, Ximena Sariñana, Natalia Téllez, Amorita Rasgado, Miguel Rodarte, Leonardo Sbaraglia, Christian Tappan, Horacio García Rojas, Bruno Bichir, Mario Zaragoza
Duração: 445 min. (oito episódios)