Um terremoto ocorrido na Europa há exatos 117 anos mudou a compreensão científica sobre a estrutura interna da Terra ao revelar a existência de uma fronteira oculta sob nossos pés.
Explorar as profundezas do nosso planeta é um enorme desafio para a ciência. Enquanto espaçonaves já cruzaram as fronteiras do Sistema Solar, a perfuração mais profunda feita pelo homem atingiu apenas pouco mais de 12 km de profundidade na crosta.
Como não é possível alcançar diretamente as regiões mais profundas, grande parte do conhecimento sobre o interior da Terra depende de métodos indiretos. Entre eles, a análise das ondas sísmicas permite investigar estruturas localizadas a dezenas, centenas e até milhares de quilômetros abaixo da superfície.
O interior do planeta pode ser comparado à estrutura de um ovo cozido. A casca fina representa a crosta, a clara equivale ao denso manto e a gema corresponde ao núcleo, localizado a mais de seis mil quilômetros da superfície.
Análise do terremoto revelou diferença de densidade entre crosta e manto
Ao estudar um terremoto ocorrido em 8 de outubro de 1909 na região do vale do rio Kupa, nos Bálcãs, próximo à atual Croácia, o cientista croata Andrija Mohorovičić notou algo curioso. As ondas provocadas pelo tremor aceleravam de forma repentina ao atingirem uma determinada profundidade no subsolo.
Essa aceleração inesperada marcou a descoberta da fronteira entre a crosta terrestre e o manto. A camada divisória foi batizada como Descontinuidade de Mohorovičić, embora seja mundialmente chamada pelos cientistas apenas pela sigla Moho.
Para o físico, astrofísico e especialista em fenômenos naturais Thiago Maia, embaixador da Declaração Climática Mundial no Brasil, o achado revolucionou a geofísica ao demonstrar que os tremores podiam funcionar como uma ferramenta de sondagem indireta do subsolo. “A descoberta da Moho mostrou que a Terra possui camadas internas com propriedades diferentes, especialmente uma mudança entre a crosta e o manto. Isso revolucionou a geofísica e demonstrou que os terremotos poderiam ser usados para investigar o interior do planeta sem precisar perfurá-lo”.
Maia ressalta que, após mais de 100 anos da descoberta, essa fronteira continua essencial para a compreensão da Terra. “Mais de um século depois, a Moho continua sendo uma das principais referências para compreender a estrutura interna do planeta. E a história também revela algo extraordinário: embora os seres humanos nunca tenham perfurado até o manto em seu ambiente natural, conseguimos estudar regiões localizadas a dezenas, centenas e até milhares de quilômetros de profundidade usando as ondas produzidas pelos terremotos.”
Segundo o especialista, a profundidade dessa camada varia conforme a região do planeta. Sob os oceanos, a Moho fica a cerca de seis quilômetros de distância, enquanto sob as massas continentais essa espessura chega a trinta e cinco quilômetros, embora esses valores sofram variações locais.
A maioria dos pesquisadores associa essa mudança de velocidade à transição entre diferentes tipos de rocha. Na transição entre a crosta e o manto, as formações passam a apresentar composição e características diferentes, com o manto sendo frequentemente associado a rochas como o peridotito, mais densas e ricas em minerais.
Maia, no entanto, faz uma ressalva importante: “A Moho não deve ser entendida simplesmente como uma parede física perfeitamente definida. Ela é, antes de tudo, uma descontinuidade identificada pelo comportamento das ondas sísmicas. O aumento da velocidade sísmica é geralmente interpretado como resultado de uma mudança significativa nas propriedades e na composição das rochas”, explicou o físico em entrevista ao Olhar Digital, acrescentando que a transição marca a passagem de rochas crustais para formações do manto frequentemente ricas em minerais como olivina e piroxênios.
Método indireto impõe limites ao mapeamento das estruturas profundas
A análise dessas vibrações geológicas tornou-se uma das principais ferramentas para mapear as entranhas da Terra. Ao examinar a velocidade, a direção, os fenômenos de reflexão e a refração das ondas sísmicas, os cientistas conseguem mapear os limites entre as camadas planetárias e deduzir propriedades cruciais do subsolo, como profundidade, composição, rigidez, temperatura e o estado físico dos materiais.
Esse método, porém, apresenta limitações importantes que impedem uma visão perfeita do centro do planeta. Por se tratar de uma técnica indireta, os sinais captados não geram um retrato exato e imediato das estruturas profundas, uma vez que formações geológicas totalmente distintas podem produzir padrões de sinais semelhantes.
Além disso, a precisão das análises varia dependendo da localização dos epicentros e da distribuição das estações sismográficas pelo globo. Diante disso, os pesquisadores são obrigados a cruzar os dados da sismologia com estudos de rochas, medições de gravidade e simulações em laboratório.
Para confirmar as teorias e superar as limitações das medições indiretas, geólogos tentam perfurar a crosta até atingir o manto superior. A obtenção de uma amostra direta do manto seria um marco científico divisor de águas. “Uma amostra direta permitiria verificar, na prática, a composição e as propriedades das rochas do manto. Poderíamos descobrir mais sobre seus minerais, temperatura, pressão, presença de água e outros elementos, além de entender melhor como o manto se movimenta e influencia o vulcanismo e a evolução da Terra”, destaca Maia.

Perfuração do manto enfrenta barreiras técnicas e calor extremo
Embora a ideia de perfurar até o manto pareça simples, a execução prática enfrenta barreiras técnicas gigantescas, principalmente quando realizada no meio do oceano. As regiões próximas a cadeias vulcânicas submersas possuem crostas mais finas e atraentes para perfuração. No entanto, o calor extremo gerado pelo magma pode derreter e danificar as ferramentas de perfuração antes que atinjam o objetivo esperado.
A primeira tentativa de perfuração oceânica ocorreu em 1961, na costa do México, mas alcançou pouca profundidade. Décadas depois, os poços mais profundos no fundo do mar mal conseguiram ultrapassar a barreira de dois quilômetros.

Uma nova esperança surgiu com a entrada em operação do navio de pesquisa japonês Chikyu. A embarcação integra um programa internacional dedicado a coletar amostras do subsolo marinho e foi projetada especificamente para superar os limites anteriores de profundidade. Três regiões no Oceano Pacífico chegaram a ser pré-selecionadas para o projeto: áreas na costa do México, da Nicarágua e ao norte do Havaí.
Apesar do planejamento, a travessia até o manto permanece inédita devido aos custos elevados e às barreiras técnicas de operar em alto-mar. A comunidade científica, no entanto, continua desenvolvendo novas tecnologias para que, no futuro, seja possível atravessar a Moho e desvendar os mistérios do interior da Terra.
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