Crítica | Meia-Noite: Homem-Aranha #1 – Plano Crítico

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O universo Midnight (ou Meia-Noite, como vai ser lançado na Panini em novembro) da Marvel foi anunciado e logo foi comparado com o universo Absolute da DC Comics. Ambos universos propõem revisões dos super-heróis com aspectos do gênero terror, ou propostas novas de origem, para abordar problemas sociais de maneira mais orgânica em relação aos mitos dos personagens. Há aí uma boa briga editorial pelo público, e a tentativa de tornar os personagens mais relacionáveis com a geração Z e Alpha. Tanto que os ilustradores abordam os personagens com sombras mais fortes nos traços e deformam corpos e proporções em busca de um novo significado do tema. Porém, embora a resposta da Marvel à DC seja evidente, por meio de entrevistas dos editores, será que Absolute não era uma resposta à linha Ultimate reiniciada em 2024?

A briga é boa nessa pergunta, em que o roteirista Scott Snyder negou que havia uma cópia da proposta de Jonathan Hickman de soltar as amarras editoriais para fazer o Universo Ultimate em 2023. As provas podem ajudar, mas o que vale mesmo são as vendas. Enquanto o Absolute mantém vendas, apesar de desgostos com os novos visuais do Batman, Midnight é a tentativa de compensar tanto o fim do Ultimate como concorrer de frente com a DC. A abordagem de propaganda da Marvel é algo para maiores de dezoito anos, com os personagens adentrando no universo como um Annual do Halloween, ou uma tentativa de exercitar um What If em homenagem a algum diretor de cinema do terror. Mas, quando se lê a HQ da mensal do aracnídeo, encontra-se algo um pouco diferente da capa mais impactante de uma aranha presa ao peitoral de Peter Parker.

Essa primeira edição, escrita pelo roteirista Phillip Kennedy Johnson, segue bem a linha do Absolute de reformular conceitos básicos do personagem. Enquanto Jonathan Hickman trouxe o desejo do fã de ver o Aranha como adulto de verdade, com dilemas paternos e matrimoniais, Johnson retoma o Peter adolescente – assim como Brian Michael Bendis fez em 2000 – carregado de consciência social e body horror. Peter está prestes a completar dezoito anos e tomar decisões difíceis para seu futuro, vivendo com seu tio Ben, um trabalhador com bastante consciência de classe, e que explica o perigo das grandes corporações ao sobrinho, especialmente após a morte dos pais de Peter, em que a empresa Oscorp está envolvida. Assim, a história caminha com algumas poucas influências temáticas e visuais de Cronenberg e o seu terror da tecnologia e da ciência, mas com uma veia dramática mais próxima de um “mangá marvelizado”.

A presença do desenhista ScieTronc traduz bem o tom desse Homem-Aranha mais “sombrio”. Em verdade, o trabalho com Neeraj Menon parece até amenizar o contexto, trazendo os desenhos adolescentes de ScieTronc para mais próximo de algo como Scott Pilgrim. Ou seja: a propaganda das capas, ou até mesmo na comparação com X-Men, envolvendo vampiros, esse começo do Aranha parece ser uma mistura um pouco forçada de tornar uma HQ adolescente em algo mais pesado, com um gato morto, um aranha mais assustadora, e corpos explodindo em sangue, tudo num grafismo bem ameno, se comparado com HQs da Image Comics. Chew, The Walking Dead, Manifest Destiny, todos com traços pouco realistas, assim como de ScieTronc, mas extremamente pesados em suas cores. Para uma proposta cronemberguiana, parece haver um equívoco na ilustração.

No entanto, quando se repensa no texto de Johnson, sobre “Grandes Poderes serem Grandes Monstruosidades”, e todo o dilema de Peter tentar ser um revolucionário de redes sociais de artigos (como no Substack), tudo combina tematicamente. A proposta de recriar o personagem para tentar provar que os poderes podem ser responsáveis, como é o lema clássico do tio Ben, há uma proposta bem relacionada com os tempos obscuros da atualidade para um leitor novo. Tratar a transformação do Homem-Aranha como algo assustador não é novo, mas desenvolvê-la como uma origem, dinamizando-a com a crítica às grandes corporações poderosas e a metáfora de ter poderes heroicos, parece uma boa sacada contemporânea.

Para comentar essa nova origem, é importante comentar sobre a criação do personagem. Steve Ditko, quando criou o personagem com Stan Lee, seguia influências do Objetivismo. Essa ideologia dizia que seus desejos individuais eram mais valiosos que os dos outros. Logo, você ser altruísta iria lhe fazer mal, pois sua felicidade sempre seria colocada em tempo secundário. A grande certeza de que toda história de Peter chegava ao fim com um drama era exatamente porque ele sempre escolhia ser altruísta, então tanto os estudos, trabalho e romance, seus maiores desejos, não davam certo. O diretor Sam Raimi entendeu isso perfeitamente na trilogia do cinema no começo dos anos 2000, numa sociedade cada vez mais individualista pós-Guerra Fria e com mais identitarismo pop. Será que Johnson vai inverter o objetivismo que Peter carrega em sua origem, que acabou sendo negado pelo seu intenso altruísmo? Nessa primeira edição, o altruísmo torna-se uma cegueira pelo poder, disfarçada de consciência de classe.

Essa narrativa não é nova. Faz parte das grandes histórias de antagonistas famosos, como os que aparecem em obras como 1984, Star Wars ou Attack on Titan. São essas histórias que chamam mais atenção dessa nova geração, por mostrar personagens ambíguos. Peter sempre foi um personagem realista, embora sempre muito heroico. Agora é ver se Meia-Noite: Homem-Aranha vai conseguir fazer um dos personagens mais icônicos, pelo seu altruísmo em sua origem, ter esse caráter como uma busca durante sua história, numa espécie de redenção.

Ps.: talvez a primeira edição só quis mostrar seu tema e sua tentativa de ser “aterrorizante” e excitante para adolescentes, e siga a história de altruísmo de sempre. Johnson, ao fazer a Gata Negra como introdutora de Peter nesse mundo corporativo da ciência, no seu aniversário, traduz bem a visão Midnight. A personagem que sempre trouxe Peter para decisões polêmicas é a porta de entrada para os novos leitores também.

Meia-Noite: Homem-Aranha #1 (Midnight Spider-Man – EUA, 2026)
Roteiro: Phillip Kennedy Johnson
Arte: ScieTronc
Cores: Neeraj Menon
Letras: VC’s Joe Caramagna
Editoria: Jordan D. White
Editora: Marvel Comics
Data original de publicação: 07 de outubro de 2026
Páginas: 40



[Fonte Original]

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