Crítica | Já Fomos a Liga da Justiça – Plano Crítico

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Quero começar dizendo que faço parte do time que simplesmente ama a Liga da Justiça cômica de Keith Giffen e J.M. DeMatteis. Quando eles assumiram o grupo, no fim dos anos 1980, boa parte dos quadrinhos de super-heróis ainda tentava imitar o tom sombrio de Watchmen e de Batman: O Cavaleiro das Trevas. A dupla tomou o caminho contrário e montou uma equipe de heróis de segundo escalão, vaidosos, briguentos e quase sempre atrapalhados, que discutiam dinheiro, perdiam a paciência uns com os outros e, ainda assim, resolviam crises cósmicas (ou quase isso). Kevin Maguire completou o time com seus desenhos expressivos, e essa fase da Liga Internacional tornou-se a grande referência de comédia nas HQs de heróis. Voltando a essa abordagem em 2003, os três assinaram a minissérie Já Fomos a Liga da Justiça, uma história que sabe zombar de si mesma, explorar diferentes dinâmicas entre heróis (com destaque para o Besouro Azul e o Gladiador Dourado) e lembrar de certos enredos com nostalgia e pitadas de novidade. O roteiro contorna a armadilha de se apoiar no que já deu certo e não repete fórmulas: os autores passam as seis edições construindo e desconstruindo as relações, as possíveis (ou reais) brigas com vilões e o quanto tudo o que esse grupo faz pode dar muito errado. Existem momentos genuinamente engraçados aqui, da seleção improvável que Max Lord faz no início, auxiliado pelo robô L-Ron, até o desfecho, com os Superamiguinhos (paródia sem-vergonha dos Superamigos) em apuros e a chegada da verdadeira Liga da Justiça para resolver o impasse de vez.

O roteiro dá a devida atenção a cada personagem em cena, respeitando o tempo que passaram separados e sem ignorar a essência de cada um. O pavio curto da brasileira Fogo (Beatriz da Costa), o fofuchismo de Mary Marvel e o patetismo charmoso do Homem Elástico (junto com sua esposa Sue) aparecem bem definidos tanto no texto quanto no desenho, já que Maguire (com a arte-final simples e eficiente de Joe Rubinstein) desenha a melhor reação facial para todo o elenco do quadro, completando a piada textual com louvor. Minha surpresa foi a presença do Capitão Átomo, pois achei que o texto ficaria desequilibrado com ele na equipe, considerando os outros personagens em volta, mas eu estava totalmente enganado. O roteiro faz um uso muito bom dele, até mesmo utilizando uma luta do tipo “gladiadores no Coliseu” para fazer Mary Marvel ter um complexo de culpa engraçadíssimo. Ao colocar a garota, sob controle mental, para surrar o colega mais poderoso do grupo na arena de apostas da vilã Roulette, os autores tiram do Capitão a vantagem que poderia sufocar a equipe e ainda criam para Mary um drama de consciência cujo exagero rende algumas das melhores cenas da HQ.

Justamente nessa sequência, o Gladiador Dourado recupera um pouco da dignidade ao salvar o Capitão no último instante, mas não é uma “recuperação de dignidade” que o salve das cantadas e das indicações muitíssimo sexuais que ele faz para Mary Marvel, uma garota de 16 anos. É possível entender que a personalidade machista e galanteadora do herói faça com que siga de cantada em cantada frente a outras mulheres, o que sempre termina com um fora ou um tapão na cara, ou seja, entra na dinâmica de adultos resolvendo seus problemas, por mais escrotos que sejam em sua fonte. A própria Fogo participa desse jogo, quando, durante a fuga, refere-se à velha piada atribuída a Mae West sobre o volume no bolso de um homem. O humor é sacana, mas circula entre iguais, e quem é alvo dele tem condição de responder à altura. Com Mary Marvel, é outra história. Pela idade, ela nunca está em posição de devolver o fora ou o tapão que os próprios autores usam para frear as investidas do Gladiador sobre as mulheres adultas, e a piada fica sem nenhum contraponto possível. No caso da sexualização de uma garota de 16 anos… simplesmente não dá nem para contextualizar o momento ou o herói. É incômodo e nojento.

Depois da arena, os autores aumentam a escala da ameaça, e a troca de vilão muda também o tipo de humor. Quando percebi que Manga Khan de fato entraria em cena, vi que teríamos muitos diálogos, muitas frases propositalmente sem sentido (todas hilárias, por sinal) e um enredo que mergulharia sem dó na conhecida “tempestade em copo d’água”, e sim, tudo isso se confirmou. O comerciante intergaláctico, velho conhecido da Liga Internacional e antigo dono de L-Ron, chega à Terra cheio de discursos teatrais, e basta um esbarrão de Besouro Azul e Gladiador Dourado em seus robôs para a visita virar uma ameaça interplanetária. Mantendo aquilo que esperávamos desse contexto cósmico da velha Liga, os autores conseguiram trazer uma história bem fechadinha, cheia de excelentes referências e participações especiais (o Lanterna G’Nort entre elas), e ainda deixaram uma lembrança de que o humor, a falta de senso e a leveza — além de diálogos bem escritos, cheios de duplos e triplos sentidos — são uma receita perfeita de uma história para ficar na memória por muito tempo. Pensando mais adiante, a minissérie ganha um gosto amargo, dado os futuros de alguns desses personagens que a DC executaria em Crise de Identidade e em Contagem Regressiva para a Crise Infinita, apagando com sangue a turma que aqui só queria abrir uma lojinha de superamiguinhos num bairro qualquer.

Já Fomos a Liga da Justiça (Formerly Known as the Justice League) — EUA, de setembro de 2003 a fevereiro de 2004
Roteiro: Keith Giffen, J.M. DeMatteis
Arte: Kevin Maguire
Arte-final: Joe Rubinstein
Cores: Lee Loughridge
Letras: Bob Lappan
Editoria: Dan Raspler, Stephen Wacker
Capas: Kevin Maguire, Joe Rubinstein, Lee Loughridge
No Brasil: DC Comics – Coleção de Graphic Novels n°111 (Eaglemoss, maio de 2020)
Tradução: Mario Luiz C. Barroso, Carlos Henrique Rutz
176 páginas



[Fonte Original]

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