Banho compartilhado: como lidar com esse pedido entre pré-adolescentes

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Dúvidas da semana 🤷‍♀️🤷

“É comum e saudável que meninas de 10 anos que são amigas peçam para tomar banho juntas? Há alguma orientação sobre como conduzir essa situação com respeito à privacidade e aos limites apropriados para a idade?”

Quando começamos esta newsletter, confesso que tive receio de que as perguntas dos leitores se esgotassem. Afinal, quantas dúvidas podem surgir sobre a criação dos filhos?

Mas, a cada edição, eu me surpreendo com as questões que chegam e descubro que muitas perguntas que parecem tão particulares também são inquietações de outros pais e mães.

Uma das reflexões mais importantes das especialistas que ouvimos sobre a dúvida desta semana é sobre a observação. Antes de reagir, vale olhar com muita atenção para a situação, não só para entender os sentimentos das crianças envolvidas, mas também o desconforto que pode surgir nos adultos.

👩‍🏫👨‍🏫 Palavra dos especialistas 

Psicóloga Clínica com orientação psicanalítica, pós-graduada em Psicopedagogia e pós-graduanda em Psicologia Clínica com Crianças

🛁 O banho compartilhado pode representar a curiosidade sobre o próprio corpo e sobre as semelhanças ou diferenças contidas no corpo do outro. Também podemos interpretar o pedido como tradução do desejo de conhecer mais sobre a amiga, compartilhar momentos de intimidade e, a partir disso, buscar maior proximidade. Ou até mesmo a simples vontade de passar a maior quantidade de tempo junto de quem se gosta tanto. Todas as possibilidades podem coexistir.

🤝 Um aspecto que deve ser considerado com cautela é a consensualidade. Perguntas que podem orientar a nossa observação são:

  • Ambas as amigas sentem-se confortáveis com tal proposta?
  • Há insistência de alguma das partes?
  • Há espaço para mudar de ideia?

👀 Tais perguntas não necessariamente devem ser feitas a elas, mas podem direcionar o olhar do adulto responsável diante da relação das meninas.

💭 O pedido do banho não parece estar resumido em si mesmo, pode representar ou ilustrar outros elementos da relação entre amigas. O que a relação mobiliza?

🔎 Para pensarmos sobre o que mobiliza uma criança a fazer tal pedido vou recorrer a um conceito da psicanalista Melanie Klein, o “impulso epistemofílico”: o desejo de conhecer, de investigar ou de descobrir . Para a autora, a capacidade de aprendizado estaria vinculada ao ímpeto de descoberta que surge no bebê desde os seus primeiros momentos de vida. A criança não conhece o mundo de maneira puramente intelectual, suas pesquisas também se voltam para as relações afetivas e para o funcionamento do seu próprio corpo. Os leitores devem reconhecer cenas de bebês que se interessam em colocar a mão dentro da boca dos seus cuidadores ou de crianças cheias de perguntas sobre os mais diversos assuntos, como, por exemplo, de onde vêm os bebês. Esses exemplos traduzem tais investigações.

👧 Se inicialmente o bebê tem seus cuidadores e a si mesmo como objetos de pesquisa, aos 9 ou 10 anos o mundo começa a se expandir para novas referências. As amizades passam a ocupar um lugar central no processo de transição da criança para o adolescente, é a partir delas que as identificações serão feitas. Se antes a criança buscava seus adultos de referência para balizar suas decisões, agora as amizades serão a maior fonte de admiração e também de busca de aprovação.

❤️ A busca por aprovação merece um olhar atento e cauteloso. É essencial que a criança encontre nas amizades a identificação que busca para se constituir nessa nova fase – repleta de desafios e lutos —, mas devemos nos atentar para situações de coerção, chantagem emocional e desconforto.

🏠 Entretanto, o “impulso epistemofílico” não precisa estar ligado apenas ao exemplo do banho, pode traduzir-se em conversas íntimas ou na vontade de saber tudo sobre a amiga.

🪞 É preciso reconhecer no próprio cuidador o quanto tal pedido pode deixá-lo desconfortável. Cada família se relaciona com a privacidade e nudez de maneiras diferentes. Devemos nos perguntar em quais culturas familiares essas crianças estão inseridas e através de quais lentes os adultos enxergam esse comportamento.

⚖️ As respostas podem ser múltiplas e, mesmo assim, estarem dentro da “normalidade”, o que não anula a existência de balizadores sociais em comum para comportamentos que podem estar de fato à margem da “normalidade” quando o assunto é invasão, abuso e assédio.

💬 O cuidador deve se perguntar o quanto ele se sente confortável com tais pedidos. Se o desconforto for muito grande, é possível sugerir às meninas que busquem outras maneiras para sentirem-se íntimas. Indico que, em todo caso, os adultos possam traduzir o que tal pedido manifesta: busca por intimidade, curiosidade pelo outro ou vontade de estar perto a todo tempo.

🎨 Além da tradução do que mobiliza tal pedido, o cuidador pode oferecer recursos e ideias para atingir o objetivo: quais outros momentos íntimos as amigas podem compartilhar?

Pesquisadora em enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes, autora de “Pipo e Fifi – Ensinando proteção contra violência sexual”

💬 Sim, pode acontecer de duas meninas de 9 ou 10 anos, especialmente amigas muito próximas, quererem tomar banho juntas depois da piscina ou durante uma noite do pijama. O pedido, por si só, não indica que exista alguma coisa errada ou sexual acontecendo. Crianças podem ter curiosidade sobre corpos, comparar diferenças corporais ou simplesmente encarar o banho como continuação da brincadeira.

⚖️ Mas uma coisa é compreender que determinado comportamento pode aparecer no desenvolvimento infantil; outra é concluir que os adultos precisam permitir tudo aquilo que as crianças propõem.

🌱 Por volta dos 9 ou 10 anos, muitas meninas já estão entrando na puberdade. Algumas desenvolvem mamas, pelos e outras mudanças corporais, algumas já menstruam, enquanto outras ainda não apresentam essas transformações. É justamente uma fase muito importante para consolidarmos privacidade, intimidade e limites corporais.

🚿 Por isso, eu orientaria os adultos a começarem a estabelecer o banho individual, especialmente quando se trata de crianças de famílias diferentes. Não porque exista algo vergonhoso no corpo ou porque devamos atribuir uma intenção sexual às meninas, mas porque educação sexual também significa ensinar que determinadas situações pertencem à esfera da intimidade.

💬 É possível dizer com muita naturalidade: “Vocês podem brincar juntas, nadar juntas e depois cada uma toma seu banho. Conforme a gente cresce, algumas coisas relacionadas ao nosso corpo vão ficando mais privadas.”

❤️ Isso não precisa ser acompanhado de bronca, constrangimento ou perguntas como “por que vocês querem tomar banho juntas?”. Uma reação excessivamente alarmada pode produzir justamente vergonha e malícia onde talvez houvesse apenas espontaneidade.

🤝 Também é uma ótima oportunidade para ensinar que ninguém é obrigado a mostrar o corpo para outra pessoa, mesmo para uma grande amiga. Se uma quer trocar de roupa na frente da outra e a outra prefere privacidade, o limite de quem não quer deve prevalecer. Não se insiste, não se ridiculariza e não se exige uma justificativa.

👧 Da mesma forma, não é interessante incentivar comparações: quem já tem seios, quem tem mais pelos, quem menstruou primeiro, quem é “mais desenvolvida”. Os corpos entram na puberdade em ritmos diferentes, e isso não torna nenhuma menina melhor, pior, mais infantil ou mais adulta.

📚 E existe um princípio importante para os responsáveis: não devemos esperar que uma situação desconfortável aconteça para então ensinar limites. A educação sexual deve ser proativa. Antes das noites na casa de amigas, dos vestiários, das primeiras menstruações e das mudanças mais evidentes da puberdade, crianças já podem aprender sobre intimidade, consentimento, respeito e privacidade.

🌿 Portanto, o desejo de tomar banho juntas pode estar perfeitamente dentro das possibilidades do desenvolvimento infantil. O papel do adulto não é sexualizar o pedido nem simplesmente liberar tudo em nome da naturalidade. É compreender o comportamento e, ao mesmo tempo, educar.

🚿 Aos 9 ou 10 anos, estabelecer que cada criança tome seu banho separadamente é um limite simples, respeitoso e coerente com a autonomia corporal que queremos que elas desenvolvam.

💗 A mensagem não é “seu corpo precisa ser escondido porque é vergonhoso”. É exatamente o contrário: “Seu corpo é importante, pertence a você, e você está crescendo e aprendendo a cuidar também da sua intimidade.”

NO RADAR 👀 – 2 livros e 1 série para adultos que ilustram amizades femininas de profunda intimidade

Indicados pela psicóloga Carolina Carvalho

  • “A amiga genial”, tetralogia de livros da autora Elena Ferrante

A história de duas amigas – Lila e Lenu – que participam intensamente da construção da identidade uma da outra. As comparações e a rivalidade convivem com uma imensa admiração e imitação. A intensidade do vínculo revela a capacidade de coabitação entre o amor e o ódio.

  • “A amiga maldita”, livro da autora Beatrice Salvioni

O encantamento de Francesca por Maddalena se deve a alteridade que representa, isto é, a radical diferença entre elas. Outras possibilidades de se comportar e de existir passam a ser vislumbradas a partir da observação da amiga. Francesca pode imaginar ser outra pessoa a partir da convivência com Maddalena.

  • “My Brilliant Friend”, série disponível na HBO Max

Inspirada na tetralogia “A amiga genial”, de Elena Ferrante, em quatro temporadas.

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[Fonte Original]

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