Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi), em Brasília (JHONATAN CANTARELLE/AGÊNCIA SAÚDE-DF)
A problemática da inflação de diagnósticos psiquiátricos referidos à infância não é um fato recente. Nas últimas décadas, nossas emoções e comportamentos passaram a ser vistos como problemas psiquiátricos que exigem intervenção médica, com diagnósticos e terapêuticas psicofarmacológicas que permitem gerir quimicamente os conflitos. E a infância não fugiu disso. Pouco a pouco, a psiquiatrização da vida cotidiana foi naturalizada, tanto para referir-se aos sofrimentos de adultos – em particular aos mal-estares de gênero – quanto para administrar emoções e comportamentos da infância considerados problemáticos.
A linguagem médica se apropriou do discurso sobre a subjetividade a tal ponto que é comum encontrar crianças utilizando enunciados médicos para nomear sentimentos como medo, tristeza ou fadiga: “tenho depressão”, “tenho ansiedade”, “sou TDAH”. O certo é que, entre 2013 e 2023, a incidência de ansiedade e depressão na infância superou, pela primeira vez, os diagnósticos em adultos, coincidindo com aumento de exposição às telas e de isolamento social, e com uma obsessão que perpassa as famílias, as escolas e o discurso psiquiátrico, por identificar precocemente os transtornos mentais. Essa alta no número de casos de depressão e ansiedade, longe de levar a questionar os limites e as dificuldades do modelo médico hegemônico, ou a eficácia dos tratamentos, ajudou a propagar um discurso sobre a necessidade de ampliar a detecção de “casos”.
Falar em epidemia de transtornos mentais na infância é
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