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terça-feira, janeiro 20, 2026

Crítica | Torneio de Campeões (1982) – Plano Crítico

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Série limitada – ou minissérie – em quadrinhos, hoje algo tão corriqueiro, era um conceito praticamente inexistente para as duas grandes editoras americanas até o segundo semestre de 1979, quando a DC Comics publicou Mundo de Krypton. Foi um teste de conceito acanhado, claudicante, já que a preferência natural era contar histórias que poderiam ser minisséries na forma de arcos dentro de publicações mensais, incluindo aí os crossovers, com os anos 80, então, tornando-se o grande laboratório em que isso passou a ser largamente usado com efeitos enormes para a indústria, tanto positivos quanto negativos, claro. A Marvel Comics testou essas águas pela primeira vez em meados de 1982, com Torneio de Campões, minissérie em três edições no estilo “rinha de galo” que criaria um estilo, por assim dizer, e pavimentaria o caminho para a péssima Guerras Secretas dois anos depois. A presente crítica considera tanto a minissérie original, como sua continuação publicada na forma de dois anuais, um dos Vingadores da Costa Oeste e outro dos Vingadores, em 1987, mas em dois comentários separados, com avaliações também separadas.

Torneio de Campões

Originalmente concebida para ser uma celebração das Olimpíadas de 1980, em Moscou, o projeto quase finalizado teve que ser repensado quando os EUA decidiram boicotar o evento em razão da invasão do Afeganistão pela U.R.S.S., o que levou à sua suspensão e publicação apenas dois anos depois, com todas as conexões devidamente eliminadas. No fiapo de história, o Grão-Mestre e uma entidade encapuzada misteriosa cuja identidade só é revelada ao final sequestram todos os super-heróis da Terra e os levam a uma arena em órbita do planeta, selecionando 24 campeões – doze em cada equipe – que deverão lutar para encontrar quatro partes de um MacGuffin na forma de uma esfera dourada. Ganha a equipe que encontrar o maior número de partes espalhadas em regiões da Terra, com o objetivo do Grão-Mestre sendo ressuscitar seu colega Colecionador morto por Korvan na Saga de Korvac. O que começa de maneira gigantesca e ambiciosa, com todos – ou quase todos – os super-heróis realmente sendo levados para a arena, é reduzido para uma equipe de 24 que, em seguida, é reduzida ainda mais para quatro equipes de seis heróis, em uma abordagem que vai do macro ao micro muito rapidamente e, com isso, perde boa parte da graça que poderia ter.

Para reduzir a impressão de que todos os super-heróis ou são americanos ou vêm de Nova York, Bill Mantlo no roteiro e John Romita Jr. na arte criaram nada menos do que seis super-heróis novos de uma tacada só, Blitzkrieg, da Alemanha Ocidental; Multihomem (ou Homem-Coletivo), da China; Defensor, da Argentina (apesar de ele dizer que é do Brasil); Peregrino, da França; Shamrock, da Irlanda e Talismã, da Austrália. Sem surpresa alguma, esses novos personagens são escolhidos para as esquipes que são ainda compostas de outros personagens não americanos então existentes, tanto os menos conhecidos Cavaleiro das Arábias, Sabra, Vanguard e Estrela Negra, como os mais conhecidos Capitão Bretanha (ou Britânia), Solaris, Wolverine, Sasquatch, Pantera Negra e Tempestade, além dos medalhões americanos Capitão América, Demolidor, Mulher-Hulk, Coisa, Homem de Ferro, Punho de Ferro, Anjo e Mulher Invisível.

Ao quebrar a história maior que é em tese prometida pela premissa ambiciosa e pelo painel em que vemos todos os heróis na arena espacial do Grão-Mestre, painel esse que é uma obra-prima de John Romita Jr., com a primeira edição toda dedicada aos preparativos, o que restam são quatro combates que só são interessantes por promoverem o encontro de muitos personagens que nunca se viram e por Wolverine realmente tentar matar o Pantera Negra em uma daquelas raras – porque iniciais – do selvagem personagem. Tirando essas curiosidades, o que há são sequências de ação não muito originais bem no estilo da época em que tudo é explicado com balões de fala ou pensamento, sejam poderes, golpes e praticamente tudo o que vemos, mas que precisa ser também “falado” pela subestimação editorial que realmente acredita que alguém não entenderá as obviedades que acontecem. Claro que a arte de Romitinha, com arte final de Pablo Marcos e cores de Andy Yanchus e Patricia DeFalco garante o envolvimento visual necessário para manter o leitor engajado, mesmo que seja evidente que os embates não resultarão em nada mais sério do que meia dúzia de arranhões aqui e ali, um padrão que, claro, não é surpresa alguma, ainda que muitas HQs posteriores com premissas semelhantes de mega-crossovers tenham tido mais êxito em criar um mínimo de tensão.

Torneio de Campeões foi um treinamento leve para o que a Marvel Comics faria intensamente nas décadas seguintes na sucessão de sagas que passou a marca sua linha editorial com muitos acertos, mas também muitos erros. Certamente a minissérie marcou sua época e foi importante para a editora, mas a história, em si, é apenas ok, valendo pelo inusitado – na época – que foi ver tantos heróis juntos ao mesmo tempo e por um ou dois momentos mais interessantes aqui e ali como destaquei acima (e um completamente sem sentido – mas justamente por isso hilário detalhe na página dupla de título da primeira edição em que vemos o Homem de Ferro de armadura e o Visão fazendo jogging no centro de treinamento dos Vingadores). É diversão rasteira, mas simpática, certamente muito superior ao que viria não muito tempo depois em dose dupla com o Beyonder e seu Mundo Bélico.

Morte & Texas!
e
O Dia em que a Morte Morreu!

Cinco anos depois de Torneio de Campeões, usando dois anuais dos Vingadores como plataforma, a Marvel Comics promoveu uma continuação direta dos eventos da mini-saga que, porém, não deve ser confundida com Torneio dos Campeões II, de 1999, pois, apesar do nome, é uma outra história completamente desconectada. No segundo anual dos Vingadores da Costa Oeste, um jogo de beisebol entre eles e os Vingadores da outra costa dos EUA é interrompido pela chegada do Surfista Prateado e de um raio que mata a equipe do leste. O Surfista explica que chegou tarde demais para avisar que algo assim aconteceria, pois ele havia descoberto um plano do Colecionador para matar os Vingadores em troca do retorno à vida do Grão-Mestre.

Na prática, vemos a inversão da lógica de Torneio dos Campeões, mas com ainda menos tensão e urgência, pois é evidente que os heróis mortos – dentre eles Capitão América – jamais permaneceriam mortos e que tudo seria revertido. O que segue daí é um inusitado combate dos dois grupos de Vingadores na dimensão da Morte, tudo parte de outro plano do Grão-Mestre que também ainda está lá, morto. Ou seja, a inversão da lógica chega exatamente ao mesmo ponto de Torneio de Campeões, com uma divisão de equipes semelhante que não tem sequer a vantagem de introduzir novos personagens. É como ver um facsímile da mini-saga anterior, só que com ainda menos imaginação e um plano “maligno” cheio de reviravoltas sem muito sentido, com a arte de Al Milgrom não conseguindo ajudar muito na dinâmica dos personagens e dos combates.

Quando a história continua no 16º anual dos Vingadores ainda na dimensão da Morte, a situação fica um pouco mais interessante, pois os dois grupos de Vingadores, agora unidos, precisam enfrentar uma equipe conjurada pelo Grão-Mestre que é formada de super-heróis e super-vilões que, naquela época, haviam morrido, incluindo o Capitão Marvel original (que hilariamente se apresenta justamente assim, com “Capitão Marvel original” quase como parte de seu nome), Bucky Barnes (que, depois, com o genial retcon de Ed Brubaker, descobriríamos que, na verdade, jamais morrera), Drax, Espadachim, Duende Verde, Hipérion, Korvac e assim por diante. Chega a ser frustrante ver como praticamente todos esses personagens foram revividos ao longo dos anos, comprovando que morte mesmo daquelas sem volta só acontece com o coitado do Tio Ben.

Em outras palavras, esse embate entre desmortos – pois, tecnicamente, todo mundo de ambos os lados está morto – é curioso pela excentricidade da coisa, mas a novidade do conceito vai embora muito rapidamente quando tudo o que vemos é a velha e cansada pancadaria padrão já completamente desgastada na década de 80. A segunda edição também conta com duplas artísticas diferentes para cada embate separado, o que dá um gostinho um pouco mais especial para o que estamos vendo, mas a repetição é mortal e cansativa, com o desinteresse surgindo muito rapidamente mesmo que seja curios ver o Doutor Druida enfrentando Drácula ou, claro, o Capitão lutando contra seu antigo parceiro da Segunda Guerra. Os esforços combinados de Steve Englehart e Tom DeFalco, nos roteiros, não resultaram no tipo de frescor que uma continuação de Torneio dos Campões poderia ter tido, infelizmente.

Torneiro de Campeões (Marvel Super Hero Contest of Champions – EUA, 1982 e 1987)
Contendo: Marvel Super Hero Contest of Champions #1 a 3, West Coast Avengers Annual (1986) #2 e Avengers Annual # 16 (1987)
Roteiro: Bill Mantlo (baseado em história de Mark Gruenwald, Bill Mantlo, Steven Grant) (Torneio), Steve Englehart (Vingadores da Costa Oeste); Tom DeFalco (Vingadores)
Arte: John Romita Jr. (Torneio); Al Milgrom (Vingadores da Costa Oeste); Bob Hall, Marshall Rogers, Jackson ‘Butch’ Guice, Keith Pollard, Ron Frenz, Bob Hall (Vingadores)
Arte-final: Pablo Marcos (Torneio); Tom Palmer, Kevin Nowlan, Bill Sienkiewicz, Bob Layton, Al Williamson (Vingadores)
Cores: Andy Yanchus e Patricia DeFalco (Torneio); Gregory Wright (Vingadores da Costa Oeste), Max Scheele (Vingadores)
Letras: Joe Rosen (Torneio), Tom Orzechowski (Vingadores da Costa Oeste), Ken Lopez (Vingadores)
Arte adicional: Bob Layton (Torneio)
Editoria: Mark Gruenwald, Tom DeFalco, Jim Shooter
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: junho a agosto de 1982 (Torneio), setembro de 1987 (West Coast Avengers); outubro de 1987 (Vingadores)
Editora no Brasil: Editora Panini
Data de publicação no Brasil: outubro de 2017 (Coleção Histórica Marvel: Torneio de Campeões)
Páginas: 164



[Fonte Original]

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