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quinta-feira, janeiro 8, 2026

Ambiente morno exige eficiência das médias empresas

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A economia brasileira surpreendeu positivamente no último biênio, mas em 2026 tende a avançar pouco acima de 2% e enfrentar o teste mais difícil: transformar resiliência em trajetória sustentável de crescimento, segundo o relatório “Cenário Macroeconômico Global e Brasil 2026”, da Fundação Dom Cabral (FDC).

“Para o empresário de médio porte, a economia brasileira parece andar, mas em círculos, não avançando. Se 2026 for, como tudo indica, um ano de transição, sem grandes rupturas, mas também sem aceleração relevante, as médias empresas não ganharão espaço se tentarem crescer apostando em uma virada macroeconômica”, diz Eduardo Menicucci, professor associado da fundação.

O relatório foi elaborado considerando informações de 3.500 médias empresas no Brasil que fazem parte da base da instituição de ensino e traça um panorama do que o empresário de média pode ter pela frente este ano. “No geral, ele costuma ser muito otimista, está sempre disposto a acreditar, e muito, em seu negócio”, diz Áurea Ribeiro, professora e pesquisadora da fundação, que assina o estudo. “Quando vê a expectativa futura, é positivo, se propõe a investir; depois, ao longo dos meses, lá pelo meio do ano, chega a uma posição mais comedida.”

Os autores do relatório analisam abaixo cinco pontos fundamentais do cenário macroeconômico para as médias empresas em 2026:

Temperatura para negócios

É esse cenário “morno”, mas realista, que as médias companhias devem enfrentar em 2026, segundo Menicucci, que ressalta que o país está com inflação contida, desemprego em queda e sistema financeiro seguindo estável, mesmo com os sustos recentes, como a taxação dos Estados Unidos sobre os produtos provenientes de outros países.

“Em momentos assim, as médias empresas que vencem são as que ‘crescem por dentro’, com melhora na produtividade e precificação, redução de capital empatado e execução com menos desperdício”, diz o professor.

O relatório afirma que esse ambiente é fértil e desafiador ao mesmo tempo: há consumo crescente, mas crédito restrito; demanda global por commodities, mas geopolítica volátil; expectativa de juros menores, mas só “amanhã”.

A queda do desemprego, por exemplo, é um fator que reforça essa ambiguidade, segundo o estudo. De um lado, sustenta o consumo e reduz o risco de retração abrupta. De outro, pressiona salários, aumenta a rotatividade e encarece a estrutura das empresas. Para a média empresa, isso raramente vira estímulo a investir, mas incentivo a racionalizar, automatizar e conter o crescimento intensivo em mão de obra, analisa a FDC. “Há uma pressão pela eficiência. Com custos subindo e consumo mais lento, empresas vão precisar ganhar produtividade, automatizar processos e buscar novas margens”, diz Menicucci.

O Brasil teve desempenho relevante, registrando crescimento do PIB de 1,3% no primeiro trimestre de 2025 e 0,4% no segundo, com agropecuária forte e recuperação moderada nos serviços e na indústria. Mas o consumo perdeu ritmo: subiu 1% no primeiro trimestre e apenas 0,5% no segundo, impactado pelo endividamento das famílias.

O pano de fundo internacional, mesmo após a queda da maior parte da taxação americana aos produtos do Brasil, não deve ajudar, de acordo com o estudo. A economia mundial deve crescer cerca de 3% em 2026, ainda pressionada por conflitos na Europa, no Oriente Médio e pela escalada nas disputas comerciais entre os Estados Unidos e a China. Washington revisa tarifas, Pequim reage, a Europa tenta amortecer — e o mundo todo recalcula rotas, somando na virada do ano a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, país que detém a maior reserva de petróleo do mundo, com 303 bilhões de barris do combustível (17,5% das reservas globais), segundo a Energy Information Administration (EIA), órgão do Departamento de Energia dos EUA.

“Potencialmente, a abertura da Venezuela [ao mercado externo] pode ser uma oportunidade para médias brasileiras que porventura estejam ligadas ao setor de óleo e gás e que possam ajudar na reconstrução do sistema de produção”, diz o professor Paulo Vicente, da FDC. Se houver retomada da atividade econômica no país, ele acredita que a exportação de produtos de consumo, material de construção e alimentos pode entrar nesse rol de possibilidades de negócios com a Venezuela.

Para o restante do mundo, o relatório afirma que a reconfiguração das cadeias globais abre portas para setores brasileiros ligados a alimentos, energia renovável e manufaturas leves.

Investimentos, inflação e crédito

No que se refere a investimentos, o relatório enfatiza que um avanço em 2026 dependerá diretamente da regulamentação clara da reforma tributária e do andamento da reforma administrativa. “94% do orçamento federal é composto por despesas obrigatórias, reduzindo a capacidade de investimento público, um gargalo que respinga em toda a cadeia produtiva”, diz Ribeiro.

A inflação mostra trajetória de desaceleração em praticamente todos os grupos do IPCA. Ainda assim, o Banco Central decidiu manter a taxa Selic em 15%, decisão que, segundo relatório da FDC, reflete preocupações com expectativas desancoradas e com a atividade ainda resiliente.

O mercado projeta Selic a 12,25% ao fim de 2026. Até lá, o crédito seguirá seletivo: concessões diminuíram, spreads seguem altos e a inadimplência aumentou após ajustes contábeis. Para médias empresas, isso significa planejamento financeiro rigoroso e execução cuidadosa — cada decisão de investimento vira cálculo milimétrico.

A inteligência artificial tende a reforçar esse movimento de produção meticulosa, não como vitrine de inovação, mas como ferramenta silenciosa de eficiência, segundo o relatório. IA aplicada à cobrança, ao orçamento, à previsão de demanda ou à análise de risco não mudaria o discurso da empresa, mas mudaria o resultado.

O mesmo vale para a governança. Mesmo com o enfraquecimento do discurso ESG globalmente, o relatório não vê o Brasil caminhando para um ambiente efetivamente desregulado. Um mínimo de governança segue sendo requisito de acesso a crédito, cadeias produtivas e grandes clientes.

“No fim, a economia brasileira atual impõe um aprendizado simples e pouco glamouroso: não é um ambiente para correr, mas para errar menos. E, para a média empresa, isso costuma fazer toda a diferença”, afirma Menicucci.

[Fonte Original]

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