O dólar à vista hoje encerrou a sessão em desvalorização, no quarto pregão seguido de queda frente ao real. O movimento foi interpretado por operadores de câmbio como um ajuste de posição no começo do ano, em meio a um cenário externo favorável a moedas emergentes e ligadas a preços de commodities. A leitura predominante entre os traders é a de que, ainda que existam incertezas sobre o cenário eleitoral, por ora o tema deve ficar de lado, enquanto a sazonalidade de fluxo já virou assunto passado. Isso pode estar dando espaço para os investidores voltarem a fazer negociações com o real pelo “carry-trade”, a estratégia de tomar recursos emprestados em um país com juros mais baixos e aplicá-los em outro mercado com juros mais elevados, lucrando com a diferença entre as taxas.
Encerradas as negociações desta terça-feira no mercado à vista, o dólar comercial fechou negociado em queda de 0,48%, cotado a R$ 5,3794, depois de ter tocado a mínima de R$ 5,3724 e ter encostado na máxima de R$ 5,4172. Já o euro comercial caiu 0,78%, a R$ 6,2893. O real era a quinta moeda entre as 33 mais líquidas com melhor desempenho do dia frente ao dólar perto do fechamento, ao lado de pares como os pesos chileno e colombiano.
No começo do pregão, o dólar exibiu apreciação frente ao real, mas já nas primeiras horas, a moeda americana reverteu o sinal. Profissionais apontaram que tem se dissipado, neste início de ano, o estresse com o cenário eleitoral que dominou o mercado no início de dezembro, com o anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência da República. Com o noticiário político mais calmo, o atrativo diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos voltou a favorecer o real no câmbio.
“A perspectiva é de que o Banco Central mantenha a Selic em 15% na primeira reunião do ano e isso favorece o ingresso de fluxo de capital para o Brasil. É uma taxa de juros bastante atrativa. Tem a questão de que o Congresso ainda está em recesso. Menos ruído político, pensando em eleições, acaba ajudando a moeda [brasileira]”, afirma Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank.
O gestor Filipo Venditti, da Parcitas Investimentos, lembrou que o real vinha descolado dos pares, o que, na sua visão, não era justificado pelos fundamentos. “Acho que esse ‘gap’ [diferença] vem fechando. Diria que a partir de agora depende ou de notícias positivas do Brasil (econômicas ou políticas) ou de um dólar global mais fraco para o movimento continuar”, afirmou, acrescentando que a gestora manteve sua postura neutra em relação ao real, sem exposição à moeda.
Já o relatório de câmbio da Wagner Investimentos apontou que o dólar rompeu um nível considerado importante ao se manter abaixo dos R$ 5,40, o que deve indicar uma tendência baixista para a moeda americana no médio prazo. No caso, a tendência é que o real se aproxime da valorização já observada no final do ano em moedas de pares emergentes e exportadores de commodities.
“O descolamento do real começou a diminuir em meio à tendência de reversão do fluxo, de saída em dezembro, para entrada no início do ano. Com relação à política, a primeira data chave é início de abril, período para desincompatibilização de cargos. Assim, após o carnaval, a tendência é de este assunto dominar completamente as manchetes”, afirma o diretor da consultoria José Faria Júnior, em nota a clientes.