A inflação de 2025 no Brasil surpreendeu consistentemente para baixo ao longo do ano, com a safra, o clima, o câmbio e a China ajudando os preços de alimentos e de bens industriais, ao mesmo tempo em que a atividade resiliente e o emprego forte contiveram alívio em ritmo similar nos preços de serviços. Com a desinflação desse setor ainda muito gradual e sem os vetores benignos para alimentos e bens na mesma magnitude, porém, a perspectiva dos economistas é que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) desacelere muito pouco, ou quase nada, de 2025 para 2026.
O IPCA, inflação oficial do Brasil, deve ter fechado 2025 em 4,3% e desacelerar para 4,1% em 2026, segundo a mediana de 73 projeções de instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor até 19 de dezembro de 2025. Os dados oficiais para 2025 serão divulgados pelo IBGE na sexta-feira, 9.
Se as projeções medianas se confirmarem, a inflação voltará a ficar dentro do teto da meta, que é de 3% com tolerância para até 4,5%. Em 2024, quando a apuração contínua da meta ainda não estava em vigor, o IPCA fechou em 4,83%, estourando o limite. Desde então, já com a apuração contínua da meta em vigor, o IPCA acumulado em 12 meses ficou acima do teto em todos os meses até novembro de 2025, quando recuou para 4,46% – e, na prévia da inflação de dezembro, fechou em 4,41%.
No início de 2025, a mediana do Focus, pesquisa do Banco Central com agentes financeiros, indicava alta de 4,99% do IPCA no ano e de 4,01% em 2026. Em seus auges, a mediana para 2025 encostou em 5,7% em março e, para 2026, superou 4,5% em maio – mas havia quem visse esses números indo a 7,51% em 2025 e a 6,95% em 2026.
“No começo de 2025, estávamos em uma situação no Brasil que parecia o pior dos mundos, com câmbio caminhando para R$ 7 por dólar, descontrole inflacionário, crise fiscal, juros subindo, tudo isso dificultando o crescimento econômico”, recorda Helcio Takeda, economista da Pezco. “No fim, as coisas caminharam para uma situação melhor. Agora, há dúvidas se é possível melhorar, como o câmbio continuar apreciando ao mesmo tempo em que se espera queda de juros e uma economia compatível com a situação. Parece haver maior risco de vermos um cenário mais pessimista ganhando força do que o contrário”, afirma.
João Savignon, economista da Kínitro Capital, diz que há uma “troca de bastão” de 2025 para 2026. “Sai o alívio em alimentos e fica a inércia de serviços, que é o ponto de mais atenção para 2026”, afirma. Ele estima IPCA de 4,3% em 2025 e prevê 4,2% em 2026. A alimentação em casa, que deve fechar 2025 “bem comportada” em 1,2%, por exemplo, acelera para 4,2%, estima Savignon.
Sai alívio em alimentos [de 2025 para 2026] e fica inércia de serviços”
— João Savignon
Para Felipe Rodrigo Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, o cenário de inflação para 2026 “tem pouco espaço para melhora”. Ele projeta IPCA de 4,3% em 2025 e em 2026. “O que vimos de desaceleração em 2025 foi muito ligado à inflação que responde ao câmbio, a parte de bens industriais e a alimentação no domicílio, que surpreendeu todo mundo”, diz. No começo de 2025, ele projetava uma inflação de alimentação em casa entre 6,5% e 7% e, agora, deve ficar perto de 2%, afirma.
Como a MAG espera queda de safra em 2026, piora no câmbio, por causa da eleição, e Oliveira diz não ver desaceleração das commodities em dólares, a melhora de 2025 nos preços de alimentos e no de bens não deve se repetir em 2026.
Sua expectativa é que a inflação dos alimentos, por exemplo, retorne a 4,5% em 2026. Ainda é um cenário otimista, já que a média histórica da alimentação no domicílio neste século é de 7%, observa Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, que projeta aceleração da categoria para 4,8% em 2026, de 1,4% em 2025.
“O ciclo da carne vai pressionar e vemos normalização dos alimentos ‘in natura’, como os tubérculos, que ajudaram muito a reduzir a inflação em 2025”, exemplifica Oliveira. Até a prévia da inflação de dezembro, só a batata-inglesa registrava deflação de quase 28% em 2025.
Ao mesmo tempo, a inflação de serviços vai desacelerar muito lentamente entre 2025 e 2026, principalmente porque o mercado de trabalho vai continuar apertado, diz Oliveira. “A taxa de desemprego deve sair das mínimas, mas vai continuar muito baixa historicamente para o Brasil”, afirma.
A divergência da Quantitas, que também projeta IPCA de 4,3% em 2026, para a mediana do mercado está, principalmente, na visão para os serviços, diz o economista João Fernandes. Para os serviços subjacentes (mais ligados ao ciclo econômico), por exemplo, ele projeta inflação de 5,2%. Na prévia da inflação, esses serviços registraram alta de 6,04% em 2025, pela série da 4intelligence.
“É um número que contempla a persistência do emprego, crescimento de salários. Vai ter desaceleração, mas muito gradual, não dá tempo de fazer com que haja uma desaceleração também de serviços. Vai gerar resiliência para o fim de 2026”, afirma Fernandes.
Já no caso da inflação de bens industriais, ele diz acreditar que ainda será possível continuar colhendo algum benefício do cenário global, como a China exportando produtos baratos para o mundo. O câmbio, porém, é um entrave, porque pode depreciar. “Nos últimos meses, estávamos só revisando para baixo a inflação de bens por causa do global. Com o câmbio pior, pode ser que, se a inflação não voltar, pelo menos novas revisões baixistas em bens serão seguradas”, afirma Fernandes.
Parcela relevante da valorização do real ante o dólar em 2025 tem a ver com a perda de força global da moeda americana diante do contexto econômico dos Estados Unidos, a postura de seu banco central e os reflexos que suas decisões geram de fortalecer ou enfraquecer o dólar pelo mundo. “De certa forma, temos observado mais recentemente alguma limitação nessa fraqueza. Não dá para negar que a economia americana surpreendeu positivamente nas últimas leituras. Há dois caminhos para o cenário nos EUA para 2026. Ou a inflação diminuirá, com uma desinflação caminhando para alguma coisa mais próxima de 2%, ou ela ficaria resiliente em 3%”, diz Takeda.
Sem a contribuição do enfraquecimento adicional do dólar, o que fica mais evidente no radar para o Brasil é a questão fiscal, que está sem solução, afirma Takeda. “Por mais que o diferencial de juros seja favorável para a moeda brasileira, com esses outros elementos, talvez, não haja um viés de apreciação tão efetivo como observado em 2025”, diz Takeda.
O processo de desinflação sobretudo nos últimos meses de 2025 até ajuda o IPCA de 2026 porque diminui a inércia, diz Leal, da G5. Para ele, a inflação mais baixa do que o inicialmente esperado em 2025 “tem nome e sobrenome: valorização do real”. A questão, destaca Leal, é que há dúvidas sobre qual será o câmbio à frente e, por isso, também diz não ver “mudança muito grande no IPCA para 2026, apesar do momento positivo da inflação”.
“Eu espero um dólar em R$ 5,50 ao fim de 2026, mas há muitas dúvidas. Creio que vamos ter um cenário com real mais desvalorizado do que isso se houver expectativa de manutenção do governo. E, provavelmente, uma cotação mais próxima de R$ 5 se tivermos uma mudança”, afirma Leal.
Apesar de reconhecer que o movimento de depreciação do câmbio no fim de 2025 pode atrapalhar o preço de bens, existe um repasse benigno do atacado já contratado para o varejo, diz Savignon, da Kínitro. “Vemos alguma volta, mas ainda super bem comportado”, afirma.
Já o setor de serviços em geral deve sair de 6,1% em 2025 para 5,2% em 2026, projeta. “Esperamos que essa tendência de desinflação continue, mas ainda resiliente, é bem gradual”, afirma, acrescentando que o ano eleitoral traz incertezas. “Há incentivos, vimos recentemente o anúncio de liberação do FGTS”, diz, em referência a uma medida provisória publicada pelo governo em 23 de dezembro de 2025 permitindo, de forma temporária, a liberação do saldo do FGTS que estava retido para trabalhadores que optaram pelo saque-aniversário. “Existe ponto de atenção para serviços mais ligados à ociosidade da economia, intensivos em trabalho”, diz Savignon.
Na avaliação de Takeda, parte importante da desinflação observada no IPCA mais recentemente reflete a desaceleração no ritmo de crescimento. “Claro que há contribuição da política monetária nesse período, mas tem uma contribuição não desprezível também do estímulo fiscal, que foi praticamente zero, até levemente negativo em 2025 e que voltará a ser positivo em 2026”, afirma.
Após a esticada na reta final de 2025, se a taxa de câmbio conseguir se manter no patamar entre R$ 5,30 e R$ 5,40 por dólar, isso ajudaria o IPCA, mesmo que haja alguma surpresa menos benigna em serviços, diz Savignon. “Mantém a inflação dentro da banda da meta, mas ainda próximo da parte superior”, afirma.
Um risco baixista para a projeção de 2026 da MAG é o preço do barril de petróleo, que tem surpreendido para baixo e pode contribuir para a Petrobras anunciar cortes de preços nas refinarias, segundo Oliveira. “Mas vale pontuar que, em janeiro de 2026, tem uma alíquota maior de ICMS, que sobe de 1,47% para 1,57%. Isso acaba impactando a gasolina para cima em janeiro e ela é 5% do IPCA e cerca de 25% dos preços administrados. Então, já tem essa confirmação de alta da gasolina na bomba, o que a gente fica esperando é se a Petrobras vai promover algum ajuste e contrabalancear isso”, afirma.
Leal, da G5, observa ainda que 2025 encerrou com bandeira tarifária amarela na conta de luz, com cobrança extra, o que não é o usual. “O mais normal é terminar em bandeira verde, com tarifa mais baixa. Então, se tudo correr como o normal, quando formos para bandeira verde [ao fim de 2026], isso vai tirar um pedaço importante da inflação de preços monitorados”, afirma. Ainda assim, os preços administrados ficariam perto de 4% em 2026, “nada ainda muito condizente com a meta”, diz Oliveira, da MAG.