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quinta-feira, janeiro 8, 2026

De Arábia Saudita da América Latina Ao Colapso: Como a Venezuela Entrou em uma das Maiores Crises Econômicas do Mundo?

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Carlos Becerra / Getty Images

Nem mesmo uma das maiores reservas de petróleo do planeta foi suficiente para impedir o colapso econômico do país

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Um país onde a riqueza parecia inesgotável e a exploração do petróleo sustentava a economia, a Venezuela já foi sinônimo de desenvolvimento e riqueza. Entre 1950 e 1970, chegou a figurar entre as cinco maiores economias do mundo e ser conhecida como a Arábia Saudita da América Latina — em referência à riqueza gerada pela commodity. Na década de 1950, a revista Wharton School da Universidade da Pensilvânia apontava que o PIB per capita da Venezuela só era menor que o dos americanos, suíços e neozelandeses. 

Durante décadas a Venezuela foi sinônimo de petróleo abundante, barato e estrategicamente relevante. Isso graças ao volume de suas reservas, à proximidade dos grandes mercados consumidores e ao papel do país na oferta global de energia. No século 21, as coisas mudaram de figura. 

As reservas do “ouro negro” venezuelano são estimadas em 300 bilhões de barris — a maior do planeta, representando 17% do total global. .Esse é um volume quase quatro vezes maior que o dos EUA, segundo órgãos internacionais do setor energético. O país também é conhecido por suas grandes reservas de minerais, como ouro e bauxita.

Os problemas econômicos começaram antes mesmo dos políticos. Nos períodos de alta do petróleo, os governos venezuelanos passaram a operar em um ciclo de expansão acelerada dos gastos públicos e aumento do endividamento — modelo que se mostrou insustentável quando os preços internacionais da commodity recuavam. Como resultado, a forte dependência da receita petrolífera ampliou a vulnerabilidade fiscal do país e limitou sua capacidade de absorver choques externos.

A dinâmica se intensificou após a chegada de Hugo Chávez, militar e líder político que governou a Venezuela entre 1999 e 2013, ao poder. Durante e após o chavismo, uma parcela das receitas do petróleo passou a ser direcionada a programas sociais de grande escala, voltados à redução da pobreza e à ampliação do acesso a serviços básicos. Ao mesmo tempo, o petróleo tornou-se um instrumento da política externa, utilizado para construir alianças regionais e ampliar a influência diplomática do país. Para Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, a má gestão, corrupção e déficits crescentes foram alguns dos principais elementos que explicam a deterioração da economia venezuelana.

“Isso é o clássico da estrutura política na América Latina: corrupção, falta de políticas públicas eficazes, alta desigualdade e uma elite econômica voltada para ganhos de curto prazo”, afirma Holzhacker.

De 2012 a 2020, já no governo de Nicolás Maduro, o PIB per capita desabou de US$ 12.607 (R$ 68.074)  para US$ 1.506 (R$ 8.131). Ou seja, em menos de uma década, a riqueza média do venezuelano encolheu quase 90%. 

Segundo a Statistical Review of World Energy, publicação anual do Instituto de Energia (EI), a produção de petróleo da Venezuela também despencou nas últimas décadas —  de 3,7 milhões de barris por dia em 1970 para 665 mil barris por dia em 2021. 

Atualmente, mais de 20 milhões de venezuelanos, de uma população de 28,8 milhões, vivem em situação de pobreza multidimensional. De acordo com a plataforma de organizações da sociedade civil Hum Venezuela, 14,2 milhões enfrentam necessidades humanitárias. Estima-se também que 8 milhões deixaram o país desde 2014, dos quais em torno de 6,5 milhões se estabeleceram em outros países da América Latina e do Caribe.

Confira como o país perdeu o seu protagonismo global.

Riqueza e prosperidade

A transição política iniciada em 1958, após o fim do regime militar de Marcos Pérez Jiménez, marcou o início de um período de prosperidade econômica na Venezuela. Entre o final dos anos 1950 e o início dos anos 1980, o país apresentou indicadores que o colocavam entre os mais estáveis da América Latina. 

De acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em 1970, os venezuelanos tinham o maior poder de compra entre os países da América Latina — chegando a ser quase três vezes superior ao do Brasil. O mercado de trabalho manteve taxas de desemprego próximas de 10%, enquanto a economia avançava a um ritmo médio anual de 4,3%. 

A solidez econômica do país refletia-se no cotidiano da população. A estabilidade do bolívar — a moeda vigente à época — garantia o elevado poder de compra e permitia que uma parcela dos venezuelanos viajasse ao exterior, principalmente aos Estados Unidos, favorecido pela proximidade geográfica entre os territórios. Para a época, viajar regularmente a Miami tornou-se, então, um símbolo de status e riqueza.

A abundância de recursos também permitiu ao Estado investir em projetos industriais e energéticos de grande escala. Com apoio das receitas petrolíferas, foram erguidas obras consideradas avançadas para os padrões da época, como a siderúrgica Sidor e uma usina hidrelétrica.

O cenário internacional também contribuiu para esse impulso, já que durante a crise do petróleo dos anos 1970, quando a Opep restringiu o fornecimento a países aliados de Israel na Guerra do Yom Kipur, a Venezuela se beneficiou da alta dos preços — nesse momento ela havia acabado de nacionalizar seu setor petrolífero.

Império ruído  

Nem mesmo uma das maiores reservas de petróleo do planeta foi suficiente para impedir o colapso econômico do país. Pelo contrário, a dependência quase total do recurso foi um dos principais fatores para a crise — o setor passou a representar mais de 90% das receitas externas. Isso expôs a economia a ciclos de alta e queda de preços no mercado internacional. 

Na prática, em períodos de valorização do barril, a Venezuela tinha expansão fiscal e aumento da arrecadação, porém quando os preços recuavam, o impacto vinha sobre as contas públicas, o câmbio e o nível de atividade econômica.

“Apesar de décadas de receitas extraordinárias geradas pelo petróleo, as escolhas políticas e econômicas adotadas ao longo do tempo não transformaram essa riqueza em uma base diversificada e sustentável de desenvolvimento econômico e social”, explica Holzhacker da ESPM. Os recursos foram em sua maioria direcionados ao consumo corrente, à ampliação do gasto público e a políticas de curto prazo, em detrimento de uma base sólida de desenvolvimento econômico e social

A professora da ESPM destaca que esse processo é conhecido na literatura econômica como “armadilha do petróleo” — fenômeno no qual países ricos em recursos naturais acabam presos a um modelo econômico concentrado, vulnerável e pouco diversificado. Em vez de atuar como alavanca para o desenvolvimento, a abundância de recursos passa a funcionar como um obstáculo.

Em 2014, a crise chegou com força. Os preços do recurso natural caíram, além de coincidir com o aumento de uma retração na produção interna, que foi de 3 milhões para 1,5 milhão de barris por dia em 2019, de acordo com dados da Opep. A inflação explodiu, com alta de cerca de 344.510%. Produtos que custavam 1 unidade monetária passaram a custar 3.400 vezes mais.  

Além disso, a professora da ESPM explica que Chávez e, posteriormente, Maduro realizaram expropriações de empresas estrangeiras e promoveram a nacionalização de diversos setores, praticamente extinguindo o capital privado no país. 

Em 1976, o governo nacionalizou a indústria petrolífera e criou a estatal PDVSA — que posteriormente passou a ser alvo de denúncias de corrupção. Investigações mostraram um esquema de lavagem de dinheiro em US$ 1,2 bilhão (R$ 6,49 bilhoes).

Segundo Holzhacker, esse quadro ampliou o déficit fiscal, elevou a inflação e agravou o desabastecimento, levando a Venezuela a uma profunda crise econômica, social e humanitária. “O país entrou em um colapso macroeconômico. Depois, as sanções norte-americanas aprofundaram ainda mais.”

O pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, Leonardo Paz, também aponta o impacto das sanções internacionais. “As medidas econômicas impostas pelos EUA afetam tanto a capacidade de vender o petróleo quanto, sobretudo, o acesso a tecnologia e equipamentos”, diz.

Outro fator que o especialista comenta é que, no passado, a PDVSA operava em condições muito diferentes. “A petroleira venezuelana era menos sucateada, tinha menos problemas de gestão e, naturalmente, era muito mais lucrativa”, explica.

De acordo com Paz, desde os anos 1990, a PDVSA passou a enfrentar dificuldades de gestão, com forte interferência política, nomeações por critérios não técnicos e limitações ao investimento. “Isso comprometeu a capacidade da empresa de manter a produção nos níveis anteriores”, afirma. Ele acrescenta que a precariedade da infraestrutura do país também pesa, como  portos e outros gargalos logísticos elevam os custos e dificultam a produção.

 



[Fonte Original]

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