A renda fixa sempre foi o terreno da previsibilidade, mas não necessariamente da inovação. Isso está mudando. Nos últimos anos, o mercado acelerou a digitalização de processos, ganhou novas plataformas, aumentou a competição na distribuição de títulos e passou a conviver com uma agenda tecnológica que saiu do laboratório e começou a chegar ao investidor.
No centro dessa transformação estão soluções digitais que usam blockchain e tokenização para registrar, transferir e liquidar ativos com novas camadas de automação e rastreabilidade.
O pano de fundo ajuda a explicar por que esse tema cresceu: a renda fixa segue como a espinha dorsal do sistema financeiro global. Estimativas da Associação da Indústria de Valores Mobiliários e Mercados Financeiros dos EUA (SIFMA) apontam que os mercados globais de renda fixa somavam cerca de US$ 145,1 trilhões em estoque em 2024.
Na mesma direção, levantamentos do Banco de Compensações Internacionais (BIS) indicam que o total de títulos de dívida em circulação superou US$ 150 trilhões ao fim de 2024, refletindo o peso do financiamento via dívida no mundo. Dentro de um oceano desse tamanho, qualquer ganho de eficiência, seja em custos, liquidação ou infraestrutura, vira um debate relevante.
No Brasil, os números mostram o potencial de crescimento do mercado. A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) estima que os investimentos das pessoas físicas chegaram a R$ 7,9 trilhões em 2025, com destaque para produtos de renda fixa e instrumentos beneficiados por incentivos.
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E do lado do mercado de capitais, 2025 também veio com números robustos: as ofertas chegaram a R$ 717,2 bilhões entre janeiro e novembro, recorde para o período na série histórica da entidade. É nesse contexto que a renda fixa digital entra em cena: ela não tenta “reinventar” o conceito de renda fixa, mas sim atualizar os trilhos por onde esses ativos circulam.
O que é renda fixa digital?
Renda fixa digital é a emissão, registro e negociação de ativos de renda fixa em infraestrutura digital, frequentemente por meio de tokenização, isto é, a representação digital de um título (e dos seus direitos econômicos) em uma rede capaz de registrar propriedade e transferências com rastreabilidade.
Em vez de depender exclusivamente de fluxos tradicionais, o ativo pode nascer e circular em sistemas baseados em tecnologias de registro distribuído (DLT), como as conhecidas blockchains, com possibilidade de integração a custodiantes, plataformas e mecanismos de liquidação automatizados.
Na prática, isso significa que o “DNA” da renda fixa permanece inalterado, como risco de crédito, prazo, indexador, regras de pagamento, mas a forma de operar pode mudar: registro mais transparente, transferência mais eficiente, automação de eventos e, em alguns modelos, maior flexibilidade para fracionamento e distribuição.
Como funciona a renda fixa digital na prática
O processo começa com a estruturação do produto por um emissor (ou veículo de securitização) e a definição das regras do título: remuneração, vencimento, condições de resgate, garantias e eventos.
Essas regras são então refletidas no ambiente digital, onde a titularidade pode ser representada por tokens, e movimentações passam a deixar rastros verificáveis no sistema.
Um sinal de amadurecimento do tema é que emissões e operações desse tipo deixaram de ficar restritas a “provas de conceito”. Em mercados internacionais, o European Investment Bank (EIB) realizou uma emissão de título digital de € 100 milhões, com vencimento em 2027, em iniciativas conectadas a experimentos de liquidação com dinheiro de banco central no atacado.
Mais recentemente, o JPMorgan estruturou um título de curto prazo para a Galaxy Digital na blockchain Solana, com Coinbase e Franklin Templeton entre os compradores, um exemplo de transação que reúne bancos tradicionais e players nativos do mundo digital.
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Olhando para o mercado local, a corretora MB | Mercado Bitcoin se destaca como uma das principais ofertantes de renda fixa digital no país, com mais de R$ 570 milhões em volume emitido e mais de 50 mil clientes expostos a esse tipo de produto.
Quais produtos podem existir na renda fixa digital
A renda fixa digital pode aparecer tanto como uma “versão tokenizada” de instrumentos já conhecidos do investidor quanto como estruturas novas, desenhadas para funcionar melhor em ambientes digitais, com fracionamento, regras automatizadas e negociação em janelas mais flexíveis.
Na prática, é comum ver ativos lastreados em cotas de consórcio já contempladas ou performadas, em que o token representa parcelas a receber e o investidor participa do fluxo financeiro com previsibilidade, além de estruturas ligadas a títulos de precatório, que nascem de dívidas do poder público reconhecidas judicialmente e costumam ter pagamento atrelado ao cronograma governamental e correções por índices de inflação, o que muda o perfil de prazo e de risco percebido.
Outra família recorrente envolve recebíveis e direitos creditórios, em que o lastro vem de fluxos de pagamento de empresas, aproximando o conceito do que o mercado tradicional já conhece em operações de antecipação e securitização, só que com representação digital e distribuição em unidades menores.
Também aparecem tokens lastreados em contratos de energia, em que o ativo representa parte de um contrato de comercialização com volume e preço predefinidos, e o investidor participa do fluxo associado àquele contrato; e, no setor real, há ofertas ligadas a setor imobiliário, lastreadas em contratos de venda e locação, com diferentes estruturas, de operações com imóveis residenciais a imóveis comerciais já entregues, como galpões logísticos.
Além desses exemplos, a renda fixa digital pode incluir dívida corporativa tokenizada (como notas comerciais ou debêntures em formato digital), operações estruturadas com garantias específicas (por exemplo, carteiras de recebíveis segmentadas por setor), e até produtos inspirados no exterior que ganharam tração nos últimos ciclos, como instrumentos lastreados em títulos públicos internacionais (caso dos “Treasuries tokenizados”) e soluções que funcionam como “caixa digital”, sempre lembrando que o rótulo tecnológico não substitui a análise clássica de crédito, estrutura, garantias, liquidez e governança do emissor.
Vantagens da renda fixa digital
A principal vantagem da renda fixa digital é a eficiência: reduzir fricções de registro, reconciliação e liquidação, além de ampliar rastreabilidade. Dependendo do desenho, a automação também entra como ganho: pagamentos de juros, amortizações e eventos podem ser programados para ocorrer conforme regras previamente definidas.
Outra vantagem que costuma aparecer é a democratização via fracionamento e distribuição mais ampla. No mundo tokenizado, a lógica de unidades digitais facilita a criação de produtos que representam ativos tradicionais em frações menores, o que pode ajudar na diversificação e no acesso, desde que os custos e a estrutura do produto façam sentido.
Riscos e desvantagens da renda fixa digital
A tecnologia não elimina o risco central desse tipo de investimento: risco de crédito. Um título digital continua sendo um título, e, se o emissor não paga, a blockchain não resolve o problema de forma sozinh. O que pode mudar é o trilho operacional e a governança do registro.
Além disso, surgem riscos específicos: risco tecnológico (falhas, bugs, ataques), risco operacional (custódia digital, chaves, acesso) e risco regulatório (normas em evolução, exigências de registro, suitability e tributação). E há um ponto prático decisivo, que é a liquidez. Um mercado secundário digital só funciona se houver participantes e profundidade, caso contrário, o investidor pode ficar preso ao prazo apesar do “visual” moderno.
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Renda fixa digital vs. renda fixa tradicional: o que muda?
Na essência, a renda fixa tradicional já opera com mecanismos robustos de custódia e liquidação, e segue sendo a base do patrimônio financeiro. A renda fixa digital tenta melhorar a infraestrutura e abrir novos modelos de distribuição e automação, mas ainda é pequena quando comparada ao mercado total.
Para colocar em perspectiva, painéis públicos que acompanham o mercado de tokenização de “ativos do mundo real” indicam números na casa de dezenas de bilhões de dólares em ativos tokenizados. É relevante e crescente, mas ainda é uma fração muito pequena perto de um mercado global de renda fixa medido em dezenas de trilhões de dólares.
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No fim, a renda fixa digital tende a fazer mais sentido quando entrega benefícios concretos, como acesso, custo, transparência, eficiência operacional, e quando o investidor entende claramente o que está comprando: quem é o emissor, qual o lastro, quais garantias existem, como funciona a custódia e qual é a liquidez real. A tecnologia pode melhorar trilhos e processos, mas a qualidade do investimento continua dependendo do básico.
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