Tecnologias, serviços e produtos surgidos no contexto das mudanças climáticas têm se mostrado uma oportunidade para médias empresas. Para crescer nesse segmento, especialistas em negócios e sustentabilidade recomendam reforçar a governança e olhar com atenção as exigências regulatórias de cada mercado.
Marcelo Rodrigues, professor de inovação da Universidade de Brasília (UnB), observa a importância de promover uma mudança na cultura da empresa, que muitas vezes nasce como startup ou incubada em uma universidade ou instituto de pesquisa. Para Rodrigues, a transição de uma startup para empresa de médio porte exige maturidade da gestão e, nesse processo, a governança é peça-chave.
“Torna-se fundamental ter fluxo de processos de trabalho, transformar, estruturar, organizar e decodificar dados. A governança deve estar clara para apresentar as informações de forma mais transparente. Acima de tudo, as médias empresas precisam ser mais ágeis para achar lacunas que muitas empresas grandes, com produtos consolidados, não ocupam, abrindo possibilidades para elas se diferenciarem no mercado, com novidades tecnológicas e inovação”, diz Rodrigues.
Na avaliação do professor, o contexto de mudanças climáticas estimula a busca por processos e inovação, entre deep techs e aceleradoras, sobretudo no setor da construção civil e no campo. Ao mesmo tempo, no ambiente de inovação dentro das universidades, é preciso pensar em um plano de negócios estruturado desde o início, sem concentrar esforços apenas em uma nova tecnologia ou produto inovador.
“É preciso lidar com informação mais codificada e buscar o equilíbrio financeiro associado à governança. Ter um plano de negócio estruturado e planejar a estratégia é um processo importante e deve ser muito bem feito na transição da startup para a média empresa”, ressalta Rodrigues.
Para empresas que nascem no ambiente de pesquisa e buscam ingressar nesse mercado, é imprescindível encontrar um diferencial em relação a grandes companhias já estabelecidas e preencher as lacunas deixadas por elas. É nesse momento que a gestão e a liderança da empresa têm papel-chave na tomada de decisão, observa Rodrigues.
Um dos maiores desafios para as empresas de médio porte que querem acessar oportunidades geradas na esteira das mudanças climáticas é a captação de recursos. Esse processo tem exigido das empresas maior rigor no alinhamento às questões regulatórias.
Luan Santos, professor da Coppe/UFRJ e coordenador do grupo Finanças e Investimentos Sustentáveis (gFSI), chama atenção para o aumento da pressão regulatória e a necessidade de padronização de métricas. Santos observa progressos na regulação no âmbito global e no Brasil.
“Internacionalmente e no Brasil, percebemos consolidação de normas, como relatórios climáticos obrigatórios e o avanço da taxonomia verde no Brasil”, diz Santos.
Na avaliação do acadêmico, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/2024 e que estabelece o marco regulatório do mercado de carbono no Brasil, vai afetar diretamente as grandes empresas, mas também terá reflexos nas médias empresas. Um dos impactos dessa regulação nas médias empresas será percebido no acesso ao crédito.
“O acesso a recursos financeiros para investir em inovações vai demandar alinhamento com a agenda regulatória. Cada vez mais, médias empresas serão pressionadas a se alinharem a essa agenda, caso queiram se manter na cadeia de valor das grandes empresas”, ressalta Santos.
Para as empresas de médio porte que trabalham com mercados mais exigentes em regulamentação relacionada à sustentabilidade, como a União Europeia, é importante buscar atender exigências estabelecidas pelo Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira, conhecido como CBAM (do inglês Carbon Border Adjustment Mechanism). Em vigor desde o início de janeiro, trata-se de um instrumento criado pela União Europeia para taxar o carbono emitido na produção de produtos importados por países do bloco.