As eleições de outubro serão fundamentais para evitar que a economia do Brasil não estagne e entre em crise, caso os parlamentares eleitos “encontrem a coragem” para “enfrentar os interesses arraigados” que causam, entre outras coisas, aposentadorias elevadas e um sistema tributário complexo, avalia a The Economist em texto publicado nesta quarta-feira (11).
A revista acredita que apesar dos indicadores positivos de crescimento econômico, desemprego e inflação, “os pessimistas estão certos em prever problemas”, pois a trajetória atual da dívida brasileira é “insustentável’.
Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida pública bruta atingirá 99% do PIB em 2030, ante 62% em 2010. A dívida atual é 30 pontos percentuais maior que a taxa mediana entre os mercados emergentes e outros países latino-americanos. O déficit nominal é de impressionantes 8,1% do PIB, composto quase inteiramente por pagamentos de juros.
“Empresários em São Paulo culpam um generoso estado de bem-estar social e a frouxa política orçamentária de Lula. Eles têm razão”, afirma a revista. Porém, os problemas financeiros do Brasil “vão muito além do desperdício de Lula”.
“Sua economia também é prejudicada pela capacidade de grupos poderosos de obter benefícios de quem estiver no governo — muitos deles previstos diretamente na interminável Constituição do país. Se o Brasil conseguirá atingir seu potencial depende de os legisladores eleitos em outubro terem a coragem de enfrentar os interesses arraigados”, escreve a The Economist.
A revista calcula que os auxílios governamentais, frequentemente culpados pela situação fiscal do país, custam em torno de US$ 83 bilhões, o equivalente a 3,7% do PIB. Já os gastos com saúde pública e educação giram em torno de 4% do PIB cada e estão em linha com os de outros países.
Por outro lado, as aposentadorias e o código tributário complexo são questões importantes para serem avaliadas, segundo a The Economist. “Se nenhuma reforma for feita até 2050, o Brasil gastará mais com as pensões, em proporção ao PIB, do que muitos países mais ricos e com população mais idosa. Embora a proporção de jovens no Brasil seja semelhante à do Chile ou do México, seus gastos com pensões já estão no nível do Japão.”
As aposentadorias generosas do setor público, em especial do judiciário e das forças armadas, são as principais responsáveis pelos gastos elevados com pensões. Sem reformas, o déficit previdenciário deve subir para mais de 16% do PIB até 2060, calcula a revista. Ainda assim, “é extremamente difícil mudar o status quo, porque reformar a previdência exige uma mudança na Constituição”.
“Os políticos brasileiros tentaram contornar essas restrições criando regras fiscais complexas destinadas a limitar os gastos do governo, na esperança de que tais gestos conquistem a confiança do mercado. Não funcionou. A menos que a previdência seja reformada, o mercado nunca confiará na retidão fiscal brasileira. Essa desconfiança está custando ao Brasil entre meio e um ponto percentual do crescimento do PIB anualmente, até US$ 250 bilhões na próxima década, se nada mudar”.
Sistema tributário complexo
O modelo tributário do Brasil é considerado uma “bagunça” pelo The Economist e estaria prejudicando o crescimento do país, na visão da revista. “As estimativas dos custos econômicos variam, mas são da mesma ordem de grandeza da perda de crescimento devido à falta de credibilidade fiscal, o que equivale a talvez meio ponto percentual do PIB anualmente.”
A revista também aponta para a fragmentação do sistema tributário, apoiada pelo tratamento preferencial que alguns grupos recebem, o que faz com que, apesar da alíquota nominal de 34%, a alíquota efetiva de imposto de renda corporativo fique entre 16% e 18%, segundo o Instituto Pesquisa Econômica Aplicada.
“Esse é um dos números mais baixos entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)”, comenta a revista, que também destaca: “Das 16,5 milhões de empresas brasileiras, apenas 220.000 pagam a alíquota integral do imposto de renda corporativo.”
“O país gasta impressionantes 7% do PIB em isenções fiscais, um aumento em relação aos 2% de 2003, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Dos 128 regimes de isenção fiscal, 95 permanecerão em vigor até 2073”, encerra a The Economist.
Ainda assim, a revista afirma que os parlamentares estão cientes dos problemas causados pela complexidade tributária. Eles destacam uma emenda constitucional de 2021, que determina que as isenções fiscais não devem custar mais de 2% do PIB até 2029, e também falam sobre a aprovação do IVA dual, de 2023, que teria como objetivo simplificar o imposto sobre o consumo. Essa última medida poderia impulsionar o PIB em até 4,5% até sua implementação completa em 2033, de acordo com pesquisa da FGV.