Clarisse Escorel, autora de “O amor na sala escura” (Catarina Ribeiro/Divulgação)
“Sem que você possa se preparar, o amor aparece. Chega com ou sem convite, te arrebata, se instala, te derruba e parte.” A frase sintetiza O amor na sala escura – primeiro romance de Clarisse Escorel, lançado pela Editora Bazar do Tempo no final de fevereiro.
Ambientado entre o Rio de Janeiro dos anos 1990 e a São Paulo do início dos anos 2000, o livro acompanha a narradora que, ao reencontrar seu amor da juventude, revisita a experiência amorosa – o primeiro encontro, a dor da rejeição – que segue permeando sua vida adulta. Como definiu a autora à Cult, trata-se de uma “reflexão não apenas sobre o primeiro amor, mas acerca do tema dos grandes encontros ou desencontros amorosos”.
Formada em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Direito Internacional pela Universidade de São Paulo (USP), Clarisse passou a se dedicar integralmente à literatura a partir de 2019. A mudança de linguagem não foi um processo fácil. “Fui me desfazendo disso aos poucos, me libertando, limpando, imprimindo minha voz, deixando florescer a escrita com a qual me identificava”, conta.
Antes do romance, a autora publicou Depois da chuva (Ouro sobre Azul, 2023), coletânea de crônicas, e a plaquete Diamantes (MapaLab, 2024), que reúne três contos. Em entrevista à Cult, Clarisse Escorel fala sobre o processo de escrita, os desafios de se aventurar no romance, suas inspirações literárias, os encontros e desencontros amorosos e a presença da capital carioca em sua obra.
Depois de publicar crônicas – em Depois da chuva – e contos – na plaquete Diamantes –, você estreia, com O amor na sala escura, no romance. O que mudou, ao lidar com uma forma mais longa, em seu modo de narrar?
O modo de narrar em cada um desses gêneros, crônica, conto e romance, difere bastante. São textos concebidos de forma distinta e que, portanto, já nascem diferentes um do outro. Para que funcionem, precisam ser narrados cada um à sua maneira, em ritmos muito particulares. O romance é uma corrida de longa distância, uma maratona mesmo. Além de todo treino que antecede a “prova”, durante o processo de escrita é preciso dosar a energia, se hidratar, estar preparada para a topografia acidentada, ter fôlego para as subidas, cuidado com os joelhos nas descidas, para chegar plena à reta final e cruzar a linha de chegada. Brincadeiras à parte, no romance existe toda uma construção estratégica e delicada para que a narrativa do enredo que se deseja desenvolver seja apresentada de determinada forma. Voltando à imagem esportiva, crônica, conto e romance são modalidades irmãs, mas que requerem treino e execução distintos.
Houve desafios específicos ao sustentar, ao longo de um romance, a investigação emocional que atravessa o livro?
Os desafios foram inúmeros. Encontrar a estrutura que me parecia adequada para a narrativa que eu me propunha a escrever foi um deles. Me interessava, além de contá-la, contar de determinada maneira. Demorei um tanto para ficar satisfeita com a estrutura. A investigação emocional à qual você se refere foi desafiadora no início do processo de escrita. Eu vinha escrevendo essa história mentalmente há muitos anos. Quando ela ganhou vida através do texto, eu me vi dentro daquele redemoinho – e me senti mal em alguns momentos a ponto de precisar interromper o processo de escrita. Isso, no entanto, não durou muito tempo: à medida que ganhou ritmo e entendi que eu era a dona da história, a escrita me deu enorme prazer.
O amor na sala escura nasce a partir de uma experiência pessoal ou de um processo mais amplo de reflexão sobre o primeiro amor?
Uma mistura das duas coisas. O amor na sala escura nasce de algumas experiências pessoais que provocaram, ao longo dos anos, uma reflexão não apenas sobre o primeiro amor, mas acerca do tema dos grandes encontros ou desencontros amorosos. Eu alimentava o desejo de tratar desse tema há muito tempo, mas me sentia tolhida por uma espécie de pudor, me reprimia por achar que era um assunto meio “fora de moda”. Esse primeiro espanto diante do sentimento amoroso, as relações amorosas e as histórias de amor sempre me fascinaram. A maturidade me ajudou a assumir isso. Acho bonito estar no mundo dessa maneira. Nasci de um encontro amoroso totalmente fora da curva, tive avós – a quem fui muito ligada – que tinham uma relação admirável, fui a espectadora desses amores, cresci acreditando que aquilo era algo possível, com essa visão borrada da realidade.
Que autores ou tradições literárias inspiram a sua criação?
Tenho alguns “crushes” literários. Autores e autoras por quem me apaixono e que me inspiram. Ao longo dos anos foram muitas paixões e essas seleções são sempre sofridas e acabam sendo injustas porque deixam muita gente querida e importante de fora. Ando um tanto obcecada com autoras italianas. Entrei para um grupo de leituras italianas bárbaro no início do ano por conta disso. Alba de Céspedes, Natalia Ginzburg, Domenico Starnone, entre outros. Além deles, Lygia Fagundes Telles, Lúcia Berlim, Rachel Cusk, Elena Ferrante, Rubem Braga, Paul Auster e Siri Hustvedt, Sandro Veronesi, Alejandro Zambra, Emmanuel Carrère, Salinger, García Márquez são alguns autores que me acompanham e aos quais sempre volto, mas a lista é longa. Li recentemente Ressuscitar mamutes (Autêntica Contemporânea, 2024), da Silvana Tavano, e A Insubmissa (Bazar do Tempo, 2025), da Cristina Peri Rossi, e caí de amores por elas.
Antes de se dedicar integralmente à literatura, você atuou durante anos na área do direito, especialmente em propriedade intelectual e direitos autorais. Essa formação, de alguma maneira, atravessa o seu processo de escrita?
A minha formação jurídica me atrapalhou um pouco no início, em 2019, quando me propus escrever literatura. Percebi de cara que a minha escrita tinha sido moldada para funcionar naquele contexto jurídico e, ainda que eu tivesse uma certa consciência disso e evitasse ao máximo aquele tom formal e, a meu ver, datado, notei que tinha uma escrita viciada, permeada por termos, construções, jargões usuais no Direito. Isso me incomodava, eu não me via ali. Fui me desfazendo disso aos poucos, me libertando na verdade, limpando, imprimindo a minha voz, deixando florescer a escrita com a qual eu me identificava.
No romance, o Rio de Janeiro do início dos anos 1990 aparece quase como um personagem: seus cinemas, ruas e deslocamentos participam da construção da experiência amorosa e da própria memória da narradora. Qual é o papel da cidade no desenvolvimento da história?
Fico feliz com essa leitura de que o Rio dos anos 1990 é quase um personagem. Foi essa a minha intenção. Ele é o cenário escolhido por mim, compõe a memória afetiva da narradora. Ilustra, com a luz do outono, a exuberância da natureza, montanhas e florestas, o cheiro do mar, o encanto dessa história de amor. Ao escrever sobre esse Rio que não existe mais a não ser na lembrança, desenhado por uma memória talvez um tanto fantasiosa, me senti como os escafandristas da música “Futuros Amantes”, de Chico Buarque, explorando quartos, coisas, alma e desvãos de uma cidade submersa. O Rio dos anos 1990 ficou no passado, assim como a história contada pela narradora. Ele é central, tem uma aura romântica e o encanto (que se quebra) que a história pedia.