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segunda-feira, abril 6, 2026

Minha avó se chamava Maria Camilo. – Revista Cult

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Eu era ainda menina, naquele momento estranho entre o fim da infância e o começo da adolescência, quando ela morreu. Lembro de algumas histórias que ela contava, dessas lembranças meio soltas que a gente guarda sem saber muito bem por quê. Mas uma frase nunca saiu da minha cabeça. Uma vez, com uma naturalidade, ela disse: “eu só fui feliz depois que seu avô morreu.”

Na época eu não entendi. Também não perguntei. A gente cresce ouvindo certas frases das mulheres da família sem perceber o peso que elas carregam.

Muitos anos depois, após uma entrevista que dei à GloboNews, fui conversar com minha mãe sobre a minha avó. Era uma dessas conversas que começam de forma despretensiosa e acabam abrindo portas para histórias que estavam guardadas há décadas.

Foi quando minha mãe me contou de um diálogo que teve com minha tia Sônia.

Nesse papo, minha tia disse que achava bonito me ver tão envolvida no enfrentamento à violência contra as mulheres. Bonito — e simbólico. Porque, como ela disse no áudio que mandou para minha mãe: “a nossa mãe sofreu muito na mão do nosso pai.”

Minha tia então começou a lembrar de coisas da infância. Memórias de quando tinha cerca de seis anos. Lembrou do meu avô, Geraldo, tentando atacar minha avó com uma foice. Lembrou também que minha avó não tinha mais os dentes naturais porque havia perdido muitos deles em meio às agressões. Socos na boca ao longo de anos de brigas.

No áudio, minha tia desabafa: “Mamãe vivia com o rosto cor de berinjela de tanto soco que levava.”

Eu escutava aquilo imaginando aquela mulher que eu conheci já idosa, contando histórias com calma, andando pela casa, vivendo uma vida aparentemente tranquila, ouvindo seu programa preferido na rádio, com sua coleção de vinis do Roberto Carlos. E pensando que por trás daquela frase — “eu só fui feliz depois que seu avô morreu” — havia cerca de trinta anos de violência.

Trinta anos.

No final do áudio, minha tia disse algo que ficou ecoando em mim.

Ela falou: “As mulheres de hoje não são iguais à mamãe que aguentou trinta anos debaixo de coro. As mulheres hoje não toleram isso. Não tem mais Amélia! E os homens vão ficando cada dia mais furiosos pelo crescimento das mulheres.”

Depois disso, ela concluiu com uma frase que me atravessou profundamente: “Eu rezo pela Bruna, porque ela tem compromisso com o que escolheu, estudou muito, e que Deus a proteja.”

Eu pensei muito nessa conversa.

A vida das mulheres sempre me importou — no movimento feminista, na vida acadêmica, no cotidiano, na política, nos espaços públicos onde o debate sobre violência de gênero insiste em aparecer como se fosse novidade, quando na verdade atravessa gerações.

Mas essa história me fez perceber algo de maneira muito concreta: as lutas nunca começam do zero. Mesmo sem saber das atrocidades que minha avó viveu, mesmo sem conhecer todas as histórias que minhas tias mais velhas presenciaram dentro daquela casa. Mesmo sem entender aquela frase que minha avó me disse quando eu era menina.

Ainda assim, de alguma forma, a luta já estava ali.

Talvez nas perguntas que eu fazia. Talvez na indignação diante de violências naturalizadas. Talvez na violência que eu já sofri e que vai me atravessar para sempre. Talvez na insistência em estudar, pesquisar, falar e denunciar aquilo que durante muito tempo foi tratado como “a culpa é dela”, “problema de casal”, “briga de marido e mulher”, “assunto de família”.

Hoje percebo que eu estava apenas seguindo um caminho que já estava marcado por muitas mulheres antes de mim. Não é sobre amar todas as mulheres — nós não precisamos nos amar para reconhecer o direito básico de existir com dignidade. É sobre garantir que mulheres possam viver suas vidas em segurança, sem medo, sem violência, sem ter que esperar a morte de alguém para finalmente dizer que foram felizes.

Mas quando penso na minha avó Maria, também penso em algo que muitas vezes esquecemos quando falamos da violência: a capacidade de resistência das mulheres. Durante muito tempo, as histórias das mulheres foram narradas apenas a partir do sofrimento. Como se elas fossem apenas vítimas de um sistema violento. E embora a violência exista — e seja brutal — ela nunca conta a história inteira.

As mulheres sempre resistiram. Mesmo quando não havia leis que as protegessem. Mesmo quando não havia delegacias especializadas, políticas públicas, ou movimentos organizados que pudessem nomear o que elas viviam. Resistiram criando estratégias silenciosas de sobrevivência. Resistiram protegendo seus filhos, sustentando casas inteiras, formando redes de apoio com outras mulheres, irmãs, vizinhas, amigas. Resistiram encontrando pequenos espaços de liberdade dentro de estruturas profundamente opressivas.

Muitas vezes, essa resistência não aparece como grandes gestos heroicos. Ela aparece em coisas aparentemente pequenas: na decisão de continuar vivendo, na escolha de proteger outra mulher, na coragem de contar uma história que durante anos ficou escondida.

Quando olho para a história da minha avó, percebo que sua frase — “eu só fui feliz depois que seu avô morreu” — também carrega um outro significado. Ela revela não apenas a violência que sofreu, mas também a sobrevivência.

Isso também é resistência.

A luta das mulheres nunca começa do zero porque cada geração carrega consigo as marcas — e a força — das que vieram antes. Mesmo quando suas histórias não foram escritas nos livros, elas permanecem vivas nas memórias familiares, nas conversas de cozinha, nos relatos que passam de mãe para filha, de tia para sobrinha.

O que hoje chamamos de luta feminista foi, durante muito tempo, apenas a tentativa cotidiana de sobreviver em um mundo que insistia em negar às mulheres a possibilidade de viver plenamente.

As que vieram antes de nós lutaram muito. Lutaram para que pudéssemos estudar. Lutaram para que pudéssemos trabalhar. Lutaram para que pudéssemos sair de relações violentas. Lutaram para que pudéssemos falar. Muitas vezes, lutaram sem sequer chamar isso de luta.

Por isso, quando falamos em avanço das mulheres, não estamos falando apenas do presente. Estamos falando de um processo longo, construído ao longo de gerações. Cada direito conquistado, cada espaço ocupado, cada violência denunciada carrega um pouco da coragem de mulheres que viveram antes de nós.

Quando penso na minha avó Maria, penso em quantas histórias como a dela atravessam silenciosamente a história do Brasil. Histórias que raramente aparecem nos livros, mas que vivem na memória das famílias, nas conversas entre irmãs, nos áudios de WhatsApp que chegam décadas depois.

Escrevo esta coluna pensando nela.

Pela vó Maria. E por tantas outras Marias que viveram, resistiram e, muitas vezes, sofreram em silêncio. Pelas que ainda sofrem ou que não compreendem as violências que vivem. E pelas que seguem lutando hoje — porque nenhuma de nós começou do zero.



[Fonte Original]

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