Por que o nome de nascimento de pessoas trans deve obrigatoriamente ser tratado como um “nome morto”, causa de sofrimento e vergonha, mas o de pessoas cis não?
Minha formação travesti não nasceu na universidade nem em espaços de militância, mas nas calçadas, onde a musa barbariza o gênero de forma cotidiana e, ouso dizer, até natural. Não achem que, nesse lugar, não sabemos da possibilidade de nos reivindicarmos mulheres. A travesti do pistão vai além dos padrões que confortam a mulheridade cis, bugando a sociedade por, às vezes, não revelarem incômodo com seu nome de batismo, e ser comum não se verem como uma identidade 100% feminina.
Reconheço a importância do direito ao nome na história do movimento T no Brasil, mas não podemos exigir que todas nós, para legitimarmos nossas identidades trans, termos que odiar o nome que herdamos ao nascer.
“Tenho um irmão straight machão, meu maior amigo, que um dia, ligando pra mim, falou: ‘mas Rogéria’… eu tive um ataque, digo: ‘meu irmão, pelo amor de Deus, eu não quero perder a minha identidade, você é a única pessoa que me chama de Tolfo, por favor’. ‘Mas todo mundo te chama de Rogéria, não virou Rogéria?’ Eu digo: ‘Mas você é a minha referência de quem eu sou’” (entrevista de Rogéria para o programa De Frente Com Gabi [1998]).
“Pra mim não existe essa coisa: Rá! Travesti não é homem e nem mulher, é o contrário, meu amor, eu sou homem e sou mulher, sabe? Eu sou os dois, é um casal que vive em paz, que não brigam nunca […]. Eu não nasci como mulher, porque não sou mulher, porque eu não tinha que ter nascido mulher, eu nasci com o sexo masculino, mas depois, na minha adolescência, eu fui escolhendo a minha identidade” (depoimento de Cláudia Wonder no documentário Meu Amigo Cláudia [2009]).
Rogéria é uma figura emblemática dos palcos e da TV brasileira, mas, a despeito do seu pioneirismo e importância, por muitos anos foi odiada pela comunidade trans. O motivo? Parecia absurdo ela se referir a si mesma como Astolfo ou rechaçar qualquer possibilidade de ser tratada como “mulher”, mesmo que fosse assim que ela se entendesse.
Cláudia Wonder é outra que nos tira da nossa zona de conforto, pois, ao longo de toda a sua trajetória como artista e ativista, sempre fez questão de borrar os contornos do gênero travesti, em vez de tratá-lo como uma identidade puramente feminina. Dois ícones que retornam agora como referências nas minhas pesquisas.
Mas, quando a Rogéria fala da memória com o irmão, quando eu falo das histórias com a minha avó, ou Cláudia Wonder fala sobre se imaginar um combo de gêneros, vejo um debate mais profundo atrás de tudo isso, um debate que está se perdendo à medida que a travestilidade sofre pressões para se converter numa subcategoria de “mulher”.
O nome civil é, sim, um sistema de controle do Estado, mas o seu papel subjetivo não é idêntico à função institucional. Ou seja: o que foi criado, em larga medida, para nos controlar e oprimir pode acabar se convertendo em território de memória e afeto. Por isso, não faria sentido quererem impor o nome de batismo como uma parte ultrajante de todas as pessoas trans.
Somos capazes de dizer que genital não define gênero, não diz o que precisamos ser, mas aí, na página seguinte, queremos inventar regra de que o nome que recebemos ao nascer é, necessariamente, uma violência contra nós?
Tentei, de todas as formas, execrar o nome que minha mãe me deu, dava desculpas quando perguntavam se eu era retificada, mas a verdade é que eu não queria abandoná-lo. Esse nome também me contempla, soava bonito na boca de uma das mulheres que mais amei, a minha avó, dona Didi.
Na escola, em meio a tantas inseguranças com meu corpo, eu sentia que meu nome era a única coisa bonita que eu tinha.
Quando eu trabalhava na rua, as meninas falavam abertamente seus nomes civis e, quando alguma ameaça surgia nas ruas e elas passavam a ser perseguidas, trocavam, sem pestanejar, os seus nomes sociais e se repaginavam completamente: loiras viravam morenas, ou ruivas, ou vice-versa; aí mudavam o estilo, a maquiagem, passavam a dizer que vieram de outro lugar e, para coroar, trocavam os nomes com que se apresentavam. Zero apego com isso que chamamos de “identidade”.
Eu quero ser como elas, porque é de lá que eu vim.
Gostaria que um dia o “pistão” fosse reconhecido como espaço formativo, pois temos a tecnologia de deslocar os espaços dos saberes de acordo com as nossas constantes e contraditórias transmutações.
A rua não é apenas um “não-lugar”, mas sim um espaço de resistência e aprendizagem, mas também de cultura. Há toda uma pesquisa e experimentação sobre identidades acontecendo ali e poderíamos nos beneficiar muito, se nos dispuséssemos a conhecê-las melhor.
Nomes, na rua, não são apenas para serem reconhecidos em documentos ou em listas de aprovados; nomes são ferramentas de luta, podendo ser reinventados de acordo com o que as necessidades exigirem.
Gosto da ideia de brincar com essa ideia normativa de gênero que nos empurram goela abaixo. Gosto de acreditar que nós, travestis, não fizemos tudo o que fizemos só para entrar nessas caixinhas quadradas que não dão conta da diversidade humana.
Talvez seja hora não de ensinarmos travestis a se comportarem de maneira aceitável, mas sim de aprendermos com elas estratégias para resistir a esse engessamento.
Certa vez perguntei para uma amiga por que ela também não se sentia como mulher, e a resposta dela foi: “Mulher? Eu, viado? Nem nascendo de novo, isso eu deixo pra elas!”
Falta Cláudia Wonder nos debates atuais sobre nome, identidade e gênero.
Nos meus bordejos pela vida, conheci uma mana chamada João Victor. Perguntei mais de uma vez o nome dela, achando que eu tinha entendido errado. A gente se acostuma com o “certo”, mas os errados, às vezes, deixam as coisas mais bonitas.
Importante destacar que nem Rogéria, Claudia Wonder ou a João Victor citadas nesse texto são representantes dessa travestilidade da rua, mas as trago como referência para esse texto por ver em suas falas e ações a manutenção desse espírito anárquico que minhas iguais me ensinaram.
Observem:
Marília: Então, ainda que você não admita conscientemente, tinha aí uma parte sua querendo, um dia, ser mesmo respeitada como mulher?
Rogéria: Não, pra você eu não posso mentir, não! Porque Astolfo é maravilhoso. Eu amo o Astolfo e a Rogéria e sei lidar com os dois. Se a tábua tiver arriada, eu sento; se tiver em pé, eu faço em pé.
Todas as vezes que tentaram arrancar da Rogéria a reivindicação de uma identidade feminina, ela sempre saía pela tangente e criava um caos no assunto.
Suas respostas para Marília Gabriela (De Frente com Gabi [2015]) nos fazem refletir sobre o que éramos antes desse novo nome que nos damos, antes de nos tornarmos propriamente travestis.
O mais comum é fingirem que não existe esse antes… e, quando não conseguem apagá-lo, tentam se/nos convencer de que a história desse antes registra apenas sofrimento.
Isabella me contempla hoje, mas já fui — e sou — Juliana, Milena, Micky e também Matheus. Todos esses nomes dizem um pouquinho de mim e me mostram que há sempre espaço para eu me reinventar.
Meu nome civil, portanto, não está nada morto.
Sei que isso incomoda, tanto pessoas cis quanto trans.
Digo isso porque não há um jeito único de ser travesti, ainda que muita gente se esforce para nos vender uma versão mais limpinha dessa identidade.
Resumindo: meu nome de ocó não é uó, é bens!
Axé.