São iniciativas importantes, mas que apontam sobretudo na direção de Lisboa e do Atlântico de língua portuguesa, e menos para os vizinhos da América do Sul ou para os grandes mercados emergentes da Ásia e outros contextos africanos onde a literatura brasileira também é lida e estudada.
Esse desequilíbrio começa a ser questionado. Um novo mapa global está se desenhando, com experiências concretas apontando para os novos territórios estratégicos para a difusão de nossa produção literária. Da inserção perene de Roger Mello no contexto chinês às traduções pioneiras de Gladhys Elliona na Indonésia, passando pelo interesse crescente pela literatura brasileira no Senegal e no Egito, surgem rotas alternativas que merecem atenção e, quem sabe, políticas culturais atualizadas.
Enquanto o mercado editorial brasileiro mira quase sempre a Feira de Frankfurt quando o assunto é internacionalização, o premiado autor de literatura infantil Roger Mello acumula experiências que revelam uma entusiasmada recepção na Ásia e colaborações sólidas. Vencedor do Prêmio Hans Christian Andersen (considerado o Nobel da literatura infantil), o escritor e ilustrador esteve 24 vezes na Coreia do Sul e 21 na China, construindo uma trajetória que oferece pistas sobre como a literatura brasileira pode circular efetivamente em contextos não europeus.
“A verdade é que a literatura infantil e juvenil sustenta o mercado, ela faz com que o mercado exista. E a falta de visibilidade na mídia para o que acontece no campo do livro infantil é totalmente incompatível com a realidade de como os nossos livros circulam pelo mundo”, diz Mello.
Quando se discute internacionalização no Brasil, o foco recai quase exclusivamente sobre o romance de ficção adulta, ignorando um segmento que tem conseguido, de forma efetiva, estabelecer pontes duradouras com mercados cada vez mais determinantes.
A dimensão do mercado chinês certamente impressiona. Mello afirma que seu parceiro, o escritor chinês Cao Wenxuan, também vencedor do Hans Christian Andersen e diretor da cátedra de filosofia e literatura da Universidade de Pequim, vendeu 1 bilhão de livros. “A gente não tem ideia, não tem noção.”
O livro conjunto que Mello desenvolveu com Cao Wenxuan, “A pena”, nasceu de um convite mediado pelo seu agente chinês, Mingzhou Zhang, e por Redza bin Ahmad Khairuddin, que já presidiram o Conselho Internacional de Livros para Jovens, conhecido como IBBY.
“A pena” ganhou o Prêmio Chen Bochui de livro mais bonito da China, desencadeando uma série de convites para projetos culturais no país. Entre eles, Mello destaca o projeto sobre sítios arqueológicos Sanxingdui e Liangzhu, além de um convite para lecionar por três anos na China Academy of Art de Hangzhou, uma das mais prestigiosas universidades de artes visuais do país.
Com isso, Mello passou a ter presença sistemática no país, que já conhece como poucos brasileiros. “Já visitei quase todas as províncias chinesas, o que não é pouca coisa! O trabalho lá é intenso. Se você não se cuidar, trabalha 20 horas por dia”, diz, rindo. Mello tem feito eventos de lançamento e oficinas em diversas escolas-modelo, shoppings, parques e espaços culturais por todo o país.
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Esse tipo de circulação não acontece apenas na Ásia. A editora independente Círculo Abierto, dirigida por Vicky García Toloza, publica Mello e Mariana Massarani em Barranquilla, na Colômbia. “O trabalho próximo com ambos nos permitiu compreender com maior profundidade o que nos aproxima do Brasil: uma relação intensa entre palavra e imagem, uma liberdade formal no livro-álbum e um interesse pela memória, o território e a infância como espaços de experimentação estética”, diz García.
Ela identifica afinidades culturais profundas, “especialmente desde o Caribe colombiano: o jogo de palavras, a vitalidade gráfica, a mistura entre tradição e contemporaneidade”.
Essas e outras afinidades poéticas ainda não mobilizaram o Brasil a criar um grande prêmio ou festa de literatura infantil ou adulta no eixo latino-americano. Vale lembrar que o Mercosul não é culturalmente vazio: criou uma reunião de ministros da Cultura, reconheceu 12 bens como Patrimônio Cultural do bloco, realizou festivais regionais e instituiu um Prêmio Mercosul Cultural de Artes Visuais. A Bienal do Mercosul, sediada em Porto Alegre desde 1997, é a iniciativa de maior fôlego. São quase 30 anos reunindo artistas de toda a região.
Mas no campo da literatura o vazio é notável: não existe um prêmio literário do Mercosul, nem mecanismo sistemático de apoio à tradução entre português e espanhol no interior do bloco. Criar esse instrumento seria não apenas um gesto de política cultural coerente, mas um sinal de que a América do Sul também é prioridade na agenda externa brasileira.
Enquanto Mello constrói pontes por meio do livro-álbum, uma jovem tradutora indonésia trabalha para levar os clássicos modernos da literatura brasileira à quarta maior população do mundo. Gladhys Elliona é atualmente a única tradutora de literatura brasileira diretamente do português para o bahasa indonésio. Aprendeu português de forma autodidata com aplicativos e ouvindo música brasileira no Spotify, de Baco Exu do Blues a Gloria Groove.
Elliona já traduziu “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, e “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto (“porque eu sou javanesa”, conta rindo), e está trabalhando em “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, além de textos de Ailton Krenak.
![“Nas livrarias de Dakar, raramente se encontra obras [brasileiras] recentes”, diz Oumar Diallo — Foto: Divulgação](https://s2-valor.glbimg.com/JgiXlfjNKozEJw9oXpLhy4HfhjM=/0x0:829x563/984x0/smart/filters:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/B/A/USl8laRYKhcIiF6AS4IA/foto20cul-104-mapa-d1.jpg)
Em 2025, Elliona conquistou o 9º lugar entre 100 destinatários do programa de apoio à tradução da Fundação Biblioteca Nacional. “Penso que esse maravilhoso resultado reflete tanto a relevância de traduzir Machado diretamente do português brasileiro quanto o fortalecimento das relações entre Brasil e Indonésia com a entrada da Indonésia no Brics.”
O reconhecimento oficial, porém, contrasta com a realidade da falta de diversidade e acesso aos livros brasileiros. “Os indonésios conhecem o Brasil principalmente através do futebol e de esportes tipo jiu-jitsu e surfe”, afirma Elliona. “Paulo Coelho tem muitos fãs porque seus livros são publicados pela maior editora do país, mas a literatura brasileira em geral chega à Indonésia traduzida do inglês.”
Um fato recente pode melhorar esse cenário: no encontro do presidente indonésio Prabowo Subianto com Lula, ficou acertado que a Indonésia incluirá a língua portuguesa nos currículos nacionais. Elliona foi convidada pelo Ministério da Educação a ajudar a formular o novo currículo de português para o ensino médio. “Temos muitas coisas em comum, na vitalidade da vida social, festas, comida, rituais, mas se a gente se conecta só através do inglês, as nuances da nossa semelhança desaparecem rápido”, diz.
Mais perto do Brasil, do outro lado do Atlântico, o professor Oumar Diallo, da Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar (Ucad), dedica-se ao ensino de literaturas de língua portuguesa, que tem raízes na história da independência do Senegal.
“O interesse pela língua portuguesa e pela literatura brasileira no Senegal está intimamente ligado à figura de Léopold Sédar Senghor”, afirma Diallo. “Intelectual de formação clássica, poeta e homem de cultura, Senghor manifestou um interesse especial por Portugal e pelo Brasil.”
Além da proximidade de Cabo Verde e vizinhança com Guiné-Bissau, o Brasil e o português despertam muito interesse entre a comunidade de estudantes e professores da Ucad. Muitos deles, mesmo sem trabalhar diretamente nessa área, arranham um bom português.
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Atualmente, mais de 40 mil alunos matriculados nas escolas do Senegal têm contato com a língua portuguesa. Na Ucad, a Seção de Português acolhe quase 2 mil estudantes, da licenciatura ao doutoramento, lendo Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Milton Hatoum e Conceição Evaristo. Mas a circulação dos livros é ainda muito limitada.
“Nas livrarias de Dakar, raramente se encontra obras recentes”, afirma Diallo, que relata a impossibilidade de encontrar exemplares de “Gótico nordestino”, de Cristhiano Aguiar, escolhido para uso em sala de aula neste ano. A difusão, segundo relata, depende inteiramente da boa vontade e do empenho individual dos professores e suas redes de amizade.
Nesse contexto, os leitorados promovidos pelo Instituto Guimarães Rosa desempenham um papel crucial, ainda que longe de aproveitar todo o seu potencial. Postos mantidos pelo governo brasileiro em universidades estrangeiras (onde um professor brasileiro ministra aulas de língua portuguesa e literatura, atua como mediador cultural e fortalece os laços entre o Brasil e o país anfitrião), os leitorados são hoje apenas seis em todo o continente africano, número modesto diante da demanda.
A percepção sobre a necessidade de ir além ressoa na experiência de Kaio Carmona, escritor e poeta brasileiro que atuou como leitor na Universidade Agostinho Neto e no Instituto Guimarães Rosa em Luanda, Angola. “A presença do Brasil em África passa muito pela língua, mas não pode se resumir a ela. Quando se cria um espaço de encontro literário real, algo se transforma na relação entre os países”, diz Carmona.
Para ele, projetos de mediação como o “Puxa Palavra”, que promoveu encontros virtuais entre escritores angolanos e brasileiros, revelaram que a demanda por diálogo existia dos dois lados, mas faltava infraestrutura institucional para sustentá-la. “O leitorado é um ponto de apoio essencial, mas precisa ser entendido como plataforma de política cultural, não apenas como posto de ensino de língua”, acrescenta.
Diallo também reconhece a importância e limitação dos atuais leitorados. “Na Ucad temos um ótimo leitorado, mas um é pouco para a demanda. Não falta interesse. O que falta é uma estrutura mais completa e dinâmica e que ajude a fortalecer os acervos da biblioteca e o acesso aos livros.”
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Uma boa notícia vem do vice-reitor, Yankhoba Seydi, que trabalha junto à equipe da reitoria na criação de uma plataforma África-Ásia-América Latina e Caribe para fortalecer e dinamizar a colaboração Sul-Sul, incluindo o Brasil como importante parceiro natural nessas articulações. Segundo Seydi, a plataforma tem previsão de ser formalizada ainda neste ano e poderá se tornar um importante ponto de encontro e trocas acadêmicas e culturais.
“Vivemos numa época em que o humanismo está agonizando e devemos reagir a isso”, afirma Milton Hatoum, escritor amazonense de ascendência libanesa e um dos autores brasileiros com maior presença internacional. Ele defende essa perspectiva citando Goethe: “No começo do século XIX, Goethe criou o conceito de ‘Literatura do mundo’ (Weltliteratur). Ele foi um leitor do Corão, da poesia árabe e da obra do poeta persa Hafiz. No belíssimo livro ‘Divã ocidento-oriental’, Goethe fala como poeta de dois mundos, ou de duas culturas entrelaçadas e sem hierarquia de valores. Mas, de um modo geral, o Ocidente ignorou essa visão humanista”.
É no mundo árabe e nos países levantinos com os quais o Brasil também possui laços históricos (contexto geralmente invisibilizado nos debates sobre internacionalização) que Hatoum identifica movimentos promissores. “Vários livros da literatura brasileira, clássicos e contemporâneos, foram e estão sendo traduzidos para o árabe.”
A professora Safa Jubran, da USP, já traduziu obras de Clarice Lispector, Machado de Assis e “Dois irmãos”, de Hatoum. “Há um interesse crescente de editoras egípcias e libanesas pela nossa literatura. Editoras brasileiras têm participado mais de feiras de livros em países árabes, incluindo a importante feira de Sharjah, nos Emirados.”
Hatoum aponta o Brics como oportunidade estratégica subutilizada e defende que “é preciso estreitar também os laços culturais com o México e com países asiáticos e africanos”. Sobre nosso contato com a América Latina, observa: “A imensa maioria de escritores brasileiros leem textos em espanhol. Há muitas traduções de autores hispano-americanos”. Ele cita Ricardo Piglia, Beatriz Sarlo, Sylvia Molloy e Lezama Lima. Porém, “os mecanismos de integração da América do Sul são basicamente focados no comércio. Além disso, governos de extrema direita não estão interessados em implementar intercâmbios culturais com o Brasil”.
É precisamente no eixo latino-americano que a experiência colombiana ganha relevância. A Colômbia desenvolveu, a partir de políticas públicas sustentadas em leitura e bibliotecas, um ecossistema editorial profissional e um tecido editorial independente que projetou internacionalmente sua literatura infantil.
Quando se cria um espaço de encontro literário real, algo se transforma na relação entre os países”
— Kaio Carmona
“Mais do que um modelo a replicar, o que poderia fortalecer-se nos dois países é uma estratégia regional coordenada de visibilidade: fundos bilaterais de tradução, alianças entre editoras independentes, presença conjunta em feiras internacionais e narrativas compartilhadas sobre a potência da literatura infantil latino-americana”, afirma Vicky García Toloza, da Círculo Abierto.
Para Mello, “a Colômbia tem feito alguns dos livros infantis mais belos do mundo, e lá as editoras são mais colaborativas entre si”.
Não é só a literatura que explora pouco seu potencial exportador. A percepção intuitiva é de que a música seria o maior soft power brasileiro, afinal, bossa nova, samba e MPB são reconhecidos mundo afora. Marisa Gandelman, advogada especializada em direitos autorais na indústria musical, questiona essa ideia: “Poderia ser verdadeiramente um grande ativo na construção do soft power se houvesse uma política de governo de investimento e suporte da criação e difusão da música brasileira como tal”, pois a música exportada é mainstream: a diversidade e a nossa riqueza musical não são visíveis no contexto internacional.
Além disso, o mercado musical enfrenta hoje desafios próprios, sobretudo na era das plataformas digitais, que são “extremamente concentradoras, massacram o indivíduo e funcionam com a lógica do market share”. Os músicos voltam a depender cada vez mais de shows ao vivo para sua receita, o que torna a internacionalização ainda mais dependente de redes locais, apoio estruturado e infraestrutura de produção no exterior.
Em termos de mercados que escutam nossa música, os Estados Unidos lideram a receita no exterior, seguidos pelo Japão. “Como ‘exportador’ de música, o México supera o Brasil, talvez porque tenha adotado uma política mais firme nesse sentido”, afirma Gandelman. E a busca pela internacionalização passa invariavelmente pela gravação em espanhol. “Desde Roberto Carlos, os artistas que têm alcance massivo investem na expansão gravando em espanhol. Anitta fez isso recentemente”, diz.
Para construir presença em novos mercados, assim como García, Gandelman fala da necessidade de construir um ecossistema local, o que no caso da música significa investir em “redes de distribuição, agentes de booking e editoras musicais para compor com compositores dos outros países”.
Diante da nova realidade global, com seus desafios e oportunidades, Roger Mello teve a ideia de criar uma organização internacional chamada Os Impossíveis, um coletivo de criadores do livro infantil e juvenil de todas as partes do mundo.
“A ideia é ir aos lugares, nunca para catequizar, mas para podermos pensar juntos, como criadores, o poder de conexão do livro infantil. E também pode ajudar a resolver lacunas, por exemplo, quando em alguns países africanos onde o mercado editorial de livro infantil é ainda muito pequeno, existem artistas que não encontram meios de publicar. Como fazer para que seja viável que esses autores tenham seu trabalho conhecido e publicado?” O grupo já conseguiu um espaço na Feira de Bolonha para levar adiante essa discussão.
Hatoum sugere “uma ação combinada que envolva editores, agentes literários, CBL [Câmara Brasileira do Livro] e instituições como o MinC e a Biblioteca Nacional”. O Instituto Guimarães Rosa, com suas 25 unidades no exterior, poderia articular essas estratégias, mas precisa de recursos e de uma visão ampliada do que significa “internacional” no século XXI.
“A única maneira de um ódio ancestral se desfazer é através da personagem dentro de um contexto da literatura”, diz Mello, citando a fundadora do IBBY, Jella Lepman.
Se a literatura pode ser instrumento de diplomacia e de diálogo entre culturas, o Brasil já tem leitores esperando em Dakar, Jacarta e Bogotá. A questão que se coloca é se seremos capazes de criar um novo mapa de legitimação que reconheça esses públicos emergentes não como destinos periféricos, mas como interlocutores reais de uma literatura que já chegou até eles, muitas vezes à revelia das políticas culturais que deveriam tê-la levado.
Laura Erber é escritora, editora e coordenadora de Parcerias Globais no International Institute for Asian Studies – IIAS, Universidade de Leiden, Países Baixos