Stargate SG-1, longeva série de ficção científica derivada do filme Stargate – A Chave para o Futuro da Humanidade, de 1994, dirigido por Roland Emmerich e estrelado por Kurt Russell e James Spader, é meu maior guilty pleasure tanto em tamanho – a série teve 214 episódios ao longo de 10 temporadas e dois telefilmes, além de ter gerado duas séries spin-off – quanto em significado pessoal, por ela ter sido meu “lugar de conforto” para aonde eu corria, via Netflix raiz pelo correio, quando eu queria fugir de maiores complexidades quando eu passei um ano sozinho estudando nos EUA entre 2003 e 2004, deixando minha esposa e filha recém-nascida no Brasil. Não a considero ruim ou mesmo uma obra “tão ruim que é boa”, mas sim uma criação de Brad Wright and Jonathan Glassner que se segura por seus próprios méritos, especialmente durante as primeiras temporadas, mesmo que o formato de 20 e tantos episódios por temporada e a estrutura de “caso da semana” não sejam particularmente de meu agrado e que seus diversos problemas não passem despercebidos de forma alguma.
A produção só realmente funciona porque ela acerta de imediato em dois aspectos fundamentais: elenco e história.
A escalação de Richard Dean Anderson e Michael Shanks para os papeis do Coronel Jonathan “Jack” O’Neill e do arqueólogo Daniel Jackson que foram respectivamente de Kurt Russell e James Spader foi inspiradíssima, com a nova dupla não só conseguindo criar a mesma dinâmica da original, como trazendo aquilo que é essencial para uma série dessas que não costuma prezar por atores de alta qualidade, ou seja, o carisma. Anderson, o eterno MacGyver, é a encarnação do cinismo sarcástico com doses generosas de bom coração por baixo da farda militar e Shanks, quase totalmente desconhecido na época, é a mistura perfeita de inocência, delicadeza e inteligência, com pitadas de humor muitas vezes inadvertido. Mas os personagens exclusivos da série, a astrofísica e capitã da Força Aérea Samantha “Sam” Carter e o alienígena Teal’c também tiveram escalações de qualidade na forma de Amanda Tapping e Christopher Judge, a primeira imediatamente fornecendo o ar intelectual e científico necessário para a série e, o segundo, com sua incrível capacidade de, sem alterar a única expressão facial que é capaz de fazer, transmitir raiva, alegria, dor, prazer, nervosismo, calma etc., funcionando como uma espécie de símbolo para toda a empreitada.
No lado da história, houve inteligência em se pegar um “circuito fechado” que era o filme original e expandi-lo sem esforço e sem parecer forçado, em uma retificação de continuidade que esclarece que o portal que levava a Abidos também é capaz de transportar qualquer coisa e qualquer um a qualquer planeta em que também haja um portal na outra ponta, o que faz do objeto circular aposentado há um ano no subterrâneo de uma base militar americana no Colorado uma fascinante ferramenta de exploração espacial e, também, de aquisição de tecnologia. E tudo isso é feito no episódio duplo de abre a temporada – Os Filhos dos Deuses (1X01 e 1X02) -, que funciona como um telefilme que reorganiza as ideias, apresenta novos rostos para personagens conhecidos e introduz personagens inteiramente inéditos como Carter e Teal’c, além do General George Hammond (Don S. Davis divertindo-se demais no papel do durão com coração de ouro), que comanda a operação dividida em diversas equipes que saem por aí explorando o universo, tendo a SG-1 formada por O’Neill, Jackson, Carter e Teal’C (este último trai seus “amos”, ajuda os terráqueos a escaparem e se junta à luta) como o grupo principal que tenta estabelecer contatos com outras civilizações e, claro, luta contra os famigerados Goa’uld – vermes que se hospedam e controlam humanos escolhidos – liderados por Apófis (Peter Williams).
É importante não confundir meus elogios à expansão da narrativa original com a qualidade dos roteiros. O filme de 1994 era pobre nesse quesito e a primeira temporada da série não é lá muito melhor no agregado, considerando todos os seu 22 episódios, o que significa dizer, obviamente, que há altos e baixos sempre marcados por um grau razoável de texto expositivo, especialmente sobre a ciência e pseudociência usados. Por exemplo, se o episódio duplo de abertura representa um começo mais do que promissor, com o eficiente episódio seguinte, Carregando o Inimigo (1X03), fechando uma trilogia que estabelece todo o novo status quo, o quarto, Emancipação, é uma bobagem estereotipada em que os viajantes chegam a um vilarejo de aparência mongol em que as mulheres são meros objetos, o que resulta em Sam sendo negociada como mercadoria. Mas, verdade seja dita, para cada Emancipação da vida, há um O Replicador (1X06) que emociona ao examinar o trauma de O’Neill quando uma cópia dele retorna pelo portal que passa a tentar entender o buraco na vida do coronel deixado pela morte acidental de seu filho pequeno com sua própria arma ou Singularidade (1X15) em que uma menina insidiosamente usada como arma de destruição em massa cria angústia e ansiedade no espectador. E, claro, bem no estilo Arquivo X, que fez escola ao inaugurar essa tendência, os “casos da semana” mais soltos e descompromissados são intercalados por episódios que, vistos em retrospecto, lidam com a narrativa central, algo que a primeira temporada comanda muito bem, já pavimentando o caminho para as vindouras temporadas.
Os valores de produção, especialmente nesse começo, são baixos em termos de efeitos práticos e do pouco de CGI usado. Há muita criatividade à la Star Trek: A Série Original na forma como os povos alienígenas são trazidos à vida, sem dúvida alguma, mas a execução é na base de “isopor e fita Durex”, revelando um orçamento acanhado, mas que, no final das contas, é bem utilizado se o espectador estiver disposto a compreender a natureza da série e aceitar os atalhos que tiveram que ser tomados para ela existir. Ao contrário das produções atuais que usam o CGI exagerado como bengala, Stargate SG-1 é um dos exemplares das séries que surgiram na transição entre a velha guarda e a modernidade, o que exigiu que os magos por trás das câmeras literalmente encarnassem o MacGyver para resolver tudo com o pouco que era possível ter. Mesmo que alguns episódios evidenciem com força as limitações de orçamento, não há nada exatamente terrível, que efetivamente deponha contra a temporada de maneira veemente. Sem dúvida que há momentos que podem causar aquele sentimento de “vergonha alheia” aos mais puristas ou aos mal acostumados que só assistem obras audiovisuais feitas ontem, mas, na maioria das vezes, o conjunto do que é oferecido ao espectador mais do que compensa esses incômodos.
Meu grande guilty pleasure, mesmo reexaminado duas décadas depois da primeira vez que o encarei em minhas noites solitárias em Los Angeles, deixou-me com a mesma impressão que tive naquela já longínqua época, ou seja, a de assistir uma obra com toneladas de limitações de toda ordem, mas que é feita com tanto coração que ela se torna irresistível e à prova do tempo como tantas outras por aí. Agora é partir para a segunda temporada dessa jornada que promete ser longa, mas, mais uma vez, muito proveitosa.
Stargate SG-1 – 1ª Temporada (EUA, de 27 de julho de 1997 a 06 de março de 1998)
Criação: Brad Wright and Jonathan Glassner
Direção: Mario Azzopardi, Dennis Berry, Jeff Woolnough, William Gereghty, Dennis Berry, Kenneth J. Girotti, Charles Correll, Mario Azzopardi, Brad Turner, Jonathan Glassner, Allan Eastman, Martin Wood, Jimmy Kaufman, David Warry-Smith
Roteiro: Jonathan Glassner, Brad Wright, Katharyn Powers, Robert C. Cooper, Jeff F. King, Hart Hanson, Tom J. Astle
Elenco principal: Richard Dean Anderson, Michael Shanks, Amanda Tapping, Christopher Judge, Don S. Davis, Teryl Rothery, Gary Jones
Elenco recorrente: Jay Acovone, Dan Shea, Tom McBeath, Ronny Cox, Elizabeth Hoffman, Alexis Cruz, Vaitiare Bandera, Peter Williams, Tony Amendola
Duração: 981 min. (22 episódios)