Fruto nativo da Amazônia, o cacau ganhou o mundo, mas sua variedade de várzea continua sendo cultivada por comunidades ribeirinhas e indígenas em áreas alagadiças, amparada no saber tradicional. Quarta geração de uma família de produtores de cacau de Mocajuba, na região do baixo Tocantins, no Pará, a advogada e administradora Noanny Maia percebeu que resgatar essa cultura e criar um negócio a partir dela era a virada de chave que ela precisava para superar a perda do pai, que faleceu de covid-19 na pandemia. Nascia ali a Cacauaré, marca dedicada à produção de cacau para fins cerimoniais, utilizados em rituais de cura e autoconhecimento.
De início, Maia havia empreendido com a ideia de fornecer barras de cacau para a fabricação de chocolates finos e outros produtos baseados em receitas tradicionais de sua avó – doces, licores, geleias. Mas um episódio difícil mudou a rota: um potencial comprador fez um pedido inicial de cinco toneladas de amêndoas de cacau, mas só apareceu para buscar duas toneladas. Sem um contrato firmado por escrito, a empreendedora se viu com três toneladas de cacau para vender. Com 100 barras de cacau de 1 kg na bagagem, ela pegou um avião rumo a São Paulo e lá, visitou chefs de cozinha e ateliês de chocolatiers. Até que se deparou com a demanda de centros holísticos e de medicinas alternativas, que utilizam o cacau em rituais para fins terapêuticos. “Vimos que o perfil do cacau de várzea da Amazônia era perfeito para essa finalidade. Havia um oceano azul a ser explorado, com a vantagem de que o mercado de cerimônia é de maior valor agregado do que o do cacau gourmet”, diz Maia, que envolveu o restante da família – mãe e irmãs na empresa.
Com ajuda do Sebrae-Pará e do Lab de Impacto, aceleradora de negócios amazônicos, recebeu um apoio de R$ 30 mil em 2023 e reposicionou o negócio como uma marca de bioeconomia da floresta e conexão espiritual – foi como uma reapropriação cultural, pois os rituais com cacau são ligados à ancestralidade amazônica. Estruturou a operação da Cacauaré com vendas B2B e B2C, por meio de e-commerce próprio e marketplaces e agora se prepara para entrar no mercado de bem-estar, mirando spas e clínicas de estética. E o mais importante: gera impacto direto nas comunidades de sua região, que cultivam e fornecem o cacau para a empresa. “Conseguimos impactar diretamente 30 famílias ribeirinhas, com foco nas mulheres, com geração de renda, inclusão social e uma escuta ativa no território”, ressalta Maia.
O DNA amazônida também está presente no negócio da Hilary Gin, marca de bebidas criada em Manaus em 2022 por três empreendedoras – Raquel Omena, Alice Muller e Cristiane Lima. Em comum, elas tinham negócios em outras frentes e uma paixão por degustar bons drinques. Após pesquisa de mercado, decidiram apostar no gim – o destilado tem origem europeia, mas uma relação estreita com ingredientes da botânica. Assim, surgiu a ideia de criar as primeiras formulações utilizando insumos da bioeconomia amazônica. Procuraram uma destilaria parceira, que acertou na segunda receita, utilizando cinco especiarias amazônicas: puxuri, cumaru, jambu, camu-camu e cupuaçu. A primeira produção, de 250 garrafas, foi rapidamente vendida e deu ânimo para as empresárias seguirem com o negócio, que recebeu apoio de R$ 60 mil do Sinapse Bio, programa de inovação que impulsiona a criação de negócios que ajudam na conservação da biodiversidade. “O propósito era levar um produto genuinamente amazônico para o mundo e criar um negócio que impactasse a região em cada garrafa vendida”, diz Raquel Omena, diretora de marca da Hilary Gin.
A empresa começou de forma enxuta, com produção terceirizada e busca crescer aos poucos, gerando impacto positivo para as comunidades fornecedoras. Atualmente, está presente em sete pontos de venda nos Estados do Amazonas, Roraima, Goiás e Distrito Federal, com o plano de fechar o ano com 20 PDVs e chegar também à região Nordeste. O sonho das empreendedoras é estruturar uma fábrica própria em Manaus, investir em rastreabilidade para fortalecer a relação com as comunidades extrativistas que fornecem os insumos e iniciar a internacionalização. “Estamos construindo uma marca que acredita na inovação, na força feminina e no potencial da Amazônia para conquistar o mundo com autenticidade”, afirma Omena.
As mulheres desempenham um papel essencial nos negócios ligados à sociobioeconomia da Amazônia, estando presentes em diferentes etapas, do extrativismo e produção agrícola à comercialização de matérias primas da floresta, e vem se organizando em cooperativas e associações. “A bioeconomia é feminina. São as mulheres que estão na linha de frente desses negócios e também na formulação de políticas publicas”, afirma Camille Bemerguy, secretária de bioeconomia do Pará. Entre 2020 e 2023, ela coordenou a elaboração do plano de bioeconomia, que envolveu 19 secretarias e faz parte do Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA) do governo do Estado, que estabeleceu uma agenda estratégica nas frentes de descarbonização, restauração ambiental e economia da floresta em pé.
As ações de fomento aos negócios nesse campo já alcançaram 400 mil pessoas, viabilizando investimentos de R$ 1 bilhão. Segundo Bemerguy, a bioeconomia responde por 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do Pará e deve crescer ainda mais, amparado pelo Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), que será lançado no final de março pelo governo federal.