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quarta-feira, março 25, 2026

Conservadora, ata do Copom deixa em dúvida novos cortes

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O Comitê de Política Monetária ainda desenha um ciclo de queda de juros, mas ele não será linear e pode ser interrompido logo. A ata da reunião da semana passada não destoa do tom geral dos principais bancos centrais: as incertezas não permitem enxergar nem mesmo o dia de amanhã e os compromissos passados estão em suspenso. O BC cortou a taxa Selic em 0,25 ponto percentual e mesmo redução modesta como esta não está assegurada na próxima “calibração” que a autoridade monetária fará no encontro de abril. Tudo dependerá dos próximos dados econômicos, um mantra que deixou de ser neutro após a eclosão da guerra contra o Irã e que poderá abrigar as piores notícias.

Foi principalmente o cenário externo que desmanchou os planos de afrouxamento monetário. Na ata de janeiro, o Copom via um “arrefecimento” das incertezas, com os preços das commodities contidos e as condições financeiras mais favoráveis. Tudo mudou: ambos se tornaram presas da grande volatilidade, além de a política monetária americana estar cercada de inquietações, com a possibilidade de que o Federal Reserve não só deixe de cortar, mas aumente os juros.

O Banco Central manteve o tom bastante conservador na ata, ao apontar também para a importância de fatores domésticos que ainda ameaçam a meta de inflação. Estão na mesma sequência lógica a “retomada” da atividade econômica no primeiro trimestre de 2026 e o aquecimento do mercado de trabalho, com crescimento da ocupação e dos salários reais, o que coloca o BC em alerta e de olho nos “padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia”. Ao lado da política fiscal, predominantemente expansionista no governo Lula, ainda persiste o temor de uma economia mais aquecida do que deveria.

A ata do Copom avança pouco no cenário prospectivo, algo até justificável pelo nível de incertezas. A maior crise no fornecimento do petróleo permite vislumbrar, no entanto, que a inflação subirá no curto prazo, mesmo que a guerra termine logo, e que seu efeito sobre a demanda será contracionista. A alta dos preços do petróleo e de todas as mercadorias que dele dependem, direta ou indiretamente, diminui a renda da sociedade brasileira. Os investimentos domésticos tendem a cair ainda mais com isso e com a persistência ou redução pequena de uma taxa de juros altíssima.

Apesar de o Brasil ser um grande produtor de petróleo, não está imune aos aumentos de preços da commodity e suas consequências. Há boa probabilidade de que o filme que os países desenvolvidos já estão assistindo chegue em breve ao Brasil. Os índices compostos dos gerentes de compras (PMI) nos países da zona do euro mostraram queda importante na indústria e nos serviços, aproximando-se do nível de contração das atividades. “O PMI da zona do euro está soando o alarme de estagflação, à medida que a guerra no Oriente Médio impulsiona fortemente os preços enquanto sufoca o crescimento”, disse Chris Williamson, economista-chefe de negócios da S&P Global Market Intelligence. Nos EUA, o índice foi o menor em 11 meses em março, números que levaram a S&P a prever um crescimento de 1,3% anualizado no primeiro trimestre do ano e um aumento da inflação para 4%.

A consequência previsível do choque do petróleo é estagflação. É esperado que os setores que impulsionam o PIB brasileiro percam força. A agropecuária terá de lidar com fretes bem mais caros em plena colheita e alta dos fertilizantes no plantio. As exportações se depararão com problemas logísticos importantes, além de encarecimento geral dos transportes e recuo da demanda em vários mercados. O Brasil, além disso, enfrenta barreiras tarifárias importantes colocadas por Trump no mercado americano.

A chance de reaquecimento da economia brasileira pode ter ficado para trás, mas há a possibilidade de gastos públicos maiores. As receitas do petróleo aumentarão as receitas da União e, em modo eleitoral, o presidente Lula cogita auxiliar de alguma maneira os exportadores, por exemplo. Os eventos recentes, segundo a ata, não impediram a “materialização” do corte de juros, e de sua “calibração”, um termo que implica ajustes tanto para cima como para baixo.

A mudança nos termos do Copom indica doses extras de cautela e serenidade. No documento anterior, o BC destacou que “a magnitude e a duração do ciclo de distensão monetária” dependeriam dos novos dados. Na ata atual, sai a distensão e entra a “calibração”, um compromisso mais ambíguo sobre os próximos passos da política monetária. De qualquer forma, é justificável a cautela em uma situação turbulenta como a de agora. A inflação não está domada, não por falta de juros altos, mas pelos estímulos federais à expansão da economia. Eles levaram o BC a ser o vice-campeão dos juros altos no mundo, ao mesmo tempo que pode condená-lo a promover uma redução muito mais modesta do custo do dinheiro.

[Fonte Original]

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