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quinta-feira, março 12, 2026

Nara Roesler: Cinquenta Anos Depois, o Que Permanece?

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Este ano marca um tempo de retrospectiva. Exposições coletivas nas galerias de São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York trarão temas que se entrelaçam com minha trajetória de 50 anos trabalhando com arte. Mais do que celebrar uma história, trata-se de compreender o que sustenta uma construção de longo prazo em um campo tão sensível às mudanças de contexto como o mercado de arte.

DivulgaçãoFrancisco Brennand, Sem título, 1976, painel de cerâmica, 195 x 780 x 4 cm (detalhe)

A primeira exposição dessa série comemorativa abre no dia 31 de março, na galeria de São Paulo, com um recorte de artistas nordestinos com quem estabeleci forte relação — e faz sentido que seja assim. Foi em Recife que comecei a entender que trabalhar com arte não é apenas intermediar obras, mas mediar mundos. A curadoria é de Moacir dos Anjos — também pernambucano — e, entre os trabalhos, um de José Claudio, que foi quem despertou em mim o desejo de ser galerista — de me tornar, de algum modo, uma tradutora do artista.

Haverá também obras históricas de artistas com quem trabalhei no passado, como Emanoel Araújo, Francisco Brennand, Guita Charifk, Gilvan Samico e José Barbosa; e obras de artistas que hoje represento, como Jonathas de Andrade, José Patrício, Marcelo Silveira e Paulo Bruscky.

DivulgaçãoSamico, O encontro, 1978, xilogravura, ed 34/100, 85 x 60 cm

Sempre convivi com arte. Cresci em uma casa onde as conversas atravessavam literatura, política, medicina e artes visuais. Meu avô, diretor da Escola de Belas Artes, me levava aos ateliês; minha mãe colecionava; meu pai reunia amigos de diferentes áreas e visões de mundo em saraus nos finais de semana.

Tive o privilégio de aprender com mundos muito diferentes desde cedo. Minha curiosidade encontrou ali um terreno fértil. A escuta atenta sempre foi instintiva — o repertório se construiu naturalmente.

Mas formação não basta. É preciso decisão.

DivulgaçãoCapa do catálogo da exposição O desenho em Pernambuco, na Gatsby Arte, Recife, 1976

Minha trajetória foi se construindo de forma orgânica, mas sempre com muito trabalho. Aos 23 anos, quando conheci José Claudio da Silva, ele buscava alguém que representasse sua obra. Eu era sócia de uma pequena loja de design em Recife, chamada Gatsby, mas foi na minha casa que comecei a mostrar seus quadros: pendurava cinco ou seis em uma parede e convidava pessoas para ver. Não havia estratégia de marketing, mas havia convicção. Eu só sei vender aquilo em que acredito profundamente.

Naquele momento, a pintura expressionista de José Claudio não era consenso. Além do mais, ele tinha como temática o popular, o cotidiano das pessoas: negras, prostitutas, pastorinhas dançando descrachadamente; o peixeiro, a lavadeira, o moço que fazia farinha; os folguedos populares e a natureza do Nordeste. Ele pintava com um realismo apaixonante. Eu, que não vivia naquele mundo, fiquei fascinada.

DivulgaçãoJosé Cláudio da Silva, Pastoril com cavalos, 1975, tinta óleo sobre eucatex – 77 x 118 cm

Transmiti esse encantamento às pessoas, e sua obra se tornou objeto de desejo: ter um José Claudio passou a ser um símbolo de distinção — não pelo valor financeiro, mas pelo valor simbólico que carregava.

Entendi que o papel do galerista é criar pontes entre o artista e o olhar do público. Traduzir contextos. Construir desejo a partir de significado. Em 1976 inaugurei a primeira exposição na Gatsby Arte, uma coletiva chamada “O desenho em Pernambuco”; desde então não parei mais. O que permanece, para mim, é essa responsabilidade: a de ser tradutora de visões, mediadora de sensibilidades e parte da construção de trajetórias que resistem ao tempo.

[Fonte Original]

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