Depois de uma primeira fase em que bancos passaram a testar a oferta de compra e venda de Bitcoin e outras criptomoedas, o mercado institucional já começa a mirar um passo além: a construção de uma infraestrutura de dinheiro digital que inclua custódia, stablecoins, depósitos tokenizados e novos trilhos para pagamentos e liquidação financeira.
Executivos participantes do painel “A Visão Institucional para 2026: Direção do Mercado e Expectativas” no Merge São Paulo, defenderam que a próxima onda de adoção não deve se limitar à exposição a criptoativos como investimento, mas avançar sobre a própria modernização da engrenagem financeira. A mudança, segundo eles, vem sendo acelerada pelo avanço regulatório em diferentes mercados.
Coty de Monteverde, chefe de cripto do Santander, resumiu esse movimento dizendo que “a grande mudança nos últimos 12 meses foi o progresso da regulação global”, citando o MiCA na Europa, os avanços nos Estados Unidos e as novas regras brasileiras como fatores que deram aos bancos a segurança necessária para entrar no setor.
No caso do Santander na Europa, ela disse que o grupo já começou a oferecer compra e venda de criptomoedas a clientes na Espanha e na Alemanha e que o processo tem sido gradual, com produtos mais simples no início, antes da expansão para novas funcionalidades.
Mas, para Monteverde, o ponto mais relevante agora está além da oferta de cripto como produto de investimento. “Há um grande foco agora em dinheiro digital”, afirmou. Segundo ela, esse universo inclui não apenas stablecoins, mas também depósitos tokenizados e outras formas digitais de representação de valor.
“Nós precisamos do cash leg para alcançar ativos tokenizados, então esse é o primeiro passo”, disse ela, acrescentando que grandes bancos já estão olhando para depósitos tokenizados, enquanto outras instituições avançam em stablecoins e em iniciativas de interoperabilidade para permitir que sistemas hoje isolados consigam conversar entre si. Na visão da executiva, sem padrões comuns, os depósitos tokenizados correm o risco de ficar restritos ao ambiente fechado de cada instituição.
Jonathan Levin, CEO e co-fundador da Chainalysis, concorda com essa visão. Para ele, a institucionalização do setor ainda está na fase de construção de base, mas os sinais de direção já são claros. “Se você olhar para os maiores gestores de ativos do mundo, para as maiores empresas de pagamento do mundo, para os maiores bancos do mundo, todos eles disseram muito claramente que o futuro existe na blockchain, o futuro existe com a tokenização de ativos reais”, afirmou.
Levin também projetou que muitas das maiores instituições financeiras globais devem ampliar a oferta de serviços de custódia, o que tende a mudar a dinâmica do mercado e aprofundar a adoção institucional.
Stablecoins ganham espaço como trilho de pagamentos
Embora o Bitcoin siga sendo a porta de entrada mais conhecida para muitos bancos, o painel mostrou que as stablecoins aparecem hoje como um dos casos de uso mais concretos dentro dessa nova fase. Monteverde disse que, no próximo ano, espera ver “mais bancos e instituições usando stablecoins como trilhos de pagamento”, ao mesmo tempo em que cresce o interesse por depósitos tokenizados.
Peter Pugh-Jones, vice-presidente da Bullish, por sua vez, reforçou essa leitura ao afirmar que o movimento não está mais restrito ao sistema financeiro. Segundo ele, empresas de setores tradicionais já estão recorrendo a stablecoins para liquidar pagamentos e recebíveis, incluindo negócios de leasing de jatos privados, equipamentos médicos e até fazendas.
Levin também destacou que as stablecoins continuam crescendo tanto no uso financeiro quanto no comércio real. Segundo ele, o mercado já mostra um duplo movimento: de um lado, ativos como USDC sendo usados em instrumentos financeiros e aplicações em DeFi; de outro, stablecoins menores ganhando espaço em salários internacionais, pagamentos transfronteiriços e remessas.
No caso brasileiro, ele afirmou que o país foi um dos primeiros a registrar adoção orgânica de stablecoins para exportação e importação, com uso concreto desses ativos em transações comerciais.
Moedas não atreladas ao dólar e câmbio tokenizado
Outra frente que apareceu como tendência no painel foi a expansão das stablecoins para além do dólar. Pugh-Jones afirmou que o mercado de dólar digital já parece mais saturado, enquanto outras moedas ainda oferecem espaço relevante de crescimento. “A única coisa que eu ouço as pessoas falando é o mercado de FX tokenizado”, disse.
Em seguida, o executivo foi mais direto ao tratar do avanço de stablecoins fora do eixo do dólar: “Eu vejo isso como uma tendência massiva” e acrescentou que, nas conversas comerciais de sua empresa, cerca de 75% já envolvem stablecoins não atreladas à moeda americana.
Já Andrew Forson, presidente de tecnologia DeFi da DeFi Technologies, ajudou a reforçar a visão de que a infraestrutura cripto está se tornando cada vez mais integrada ao sistema financeiro tradicional, especialmente à medida que soluções de DeFi passam a dialogar com demandas institucionais por eficiência, liquidação e novos modelos de operação.
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