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segunda-feira, abril 6, 2026

Infância e feminismo – Revista Cult

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Sou a irmã mais velha dos quatro filhos do primeiro casamento de meus pais. Minha mãe me adorava, talvez até mais do que aos meninos – por eu ser a primeira filha e por ser mulher. Brincava muito (e brigava também) com o Duto, apelido do irmão que nasceu quando eu tinha pouco mais de um ano. A partir de meus 5 ou 6 anos, senti ciúmes dele. Brigávamos em pé de igualdade, mas também continuamos a brincar muito. Recordo uma brincadeira meio bruta: um de nós deixava o outro montar “de cavalinho” nas costas dele/dela; o que fazia papel do cavalo devia corcovear até conseguir derrubar o “cavaleiro”. Adorava essa brincadeira, que talvez não fosse ideal para uma futura mocinha.

Meu pai me escolheu, entre seus quatro filhos, para fazer provocações e desafios. Talvez tenha percebido, desde cedo, que meus valores seriam, digamos, “de esquerda” (à época, eu nem sabia o que era isso).

Uma vez, fiz uma campanha na escola (devia ter 10 ou 11 anos) para arrecadar dinheiro e comprar cobertores para os moradores de rua. Algumas colegas contribuíram com parte do dinheiro do lanche. Mas a freira, não tão cristã quanto deveria, me passou um sabão – obrigando-me a devolver o dinheiro arrecadado. Acho que Jesus não faria o que ela fez…

O que esse episódio tem a ver com o feminismo? Posso começar sugerindo que, na época, não era comum que uma menina tomasse aquele tipo de iniciativa – que os meninos, aliás, não tomariam nunca.

Não sou uma feminista radical, longe disso. Meu traço mais interessante, desde a infância, era sonhar com uma vida de “aventuras” – às vezes, me arriscava em algumas dessas. Por exemplo: inventei uma brincadeira chamada “caminhar no escuro”. Apagava as luzes do jardim da casa e ia andar pelo quintal, tentando não sentir medo. Sentia medo, claro, mas ficava exultante de enfrentá-lo até dar a volta completa na casa. O que esse singelo desafio infantil teria a ver com o feminismo? Na época, acho que nem sabia o significado dessa palavra, mas sabia que não queria sacrificar minha inclinação por pequenas aventuras apenas para corresponder ao estereótipo (que hoje mudou muito) feminino. Não fazia minhas estrepolias em nome de uma “causa” maior: elas simplesmente me emancipavam.

As suffragettes lutaram em vários países do mundo pelo voto feminino. Lutaram também, com enorme repercussão, para colocar um basta no feminicídio. Leitoras e leitoras mais ou menos da minha idade devem se lembrar da campanha “quem ama não mata”; o disparador dessa campanha foi o assassinato de Ângela Diniz por seu então namorado, Doca Street. Se não me engano, (pasmem, jovens feministas!) até então era legítimo que um homem assassinasse a mulher adúltera, “em legítima defesa da honra”. Depois daquele crime, o argumento da defesa da honra deixou de valer para legitimar feminicídios.

Penso que nós, mulheres, mudamos mais (em comparação com as gerações de nossas mães e avós) do que os homens. Me parece que os homens pensavam, como na canção de Gilberto Gil, que “o mundo masculino tudo lhes daria”.

Tivemos, no Brasil, uma única presidenta (ela insistia no caráter feminino da palavra): Dilma Roussef. Foi a única mandatária, no país, que criou uma Comissão da Verdade para investigar os crimes de lesa-humanidade cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura de 1964-1985. Estou convencida de que o impeachment sofrido por ela a pretexto de punir “pedaladas fiscais” (o equivalente a “rolar a dívida” – qual gestor nunca precisou fazer isso?) teve mais a ver com o incômodo gerado pelo trabalho da Comissão Nacional da Verdade. Não sei se um presidente (homem) teria sido destituído do poder sob pretextos tão mixurucas.

Uma ressalva, de minha parte: sou feminista – no sentido de não admitir nenhuma superioridade masculina baseada no gênero: tal prerrogativa me parece antediluviana. Algumas mulheres, as vezes, me parecem quase puritanas quando dizem a um homem que tentasse puxar conversa: “eu não te autorizei a falar comigo”. O argumento é ridículo, uma vez que, para pedir tal autorização, o homem teria que falar com ela…

Paro por aqui, na torcida para que este artigo não desperte a raiva de algumas feministas muito radicais.



[Fonte Original]

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