Um Colin inédito nunca seria uma coisa pequena. O mestre Flavio Colin (1930 – 2002) passou mais de quatro décadas construindo um portfólio visual sem paralelo nos quadrinhos brasileiros: uso expressivo e bem pensado de traço com densidade máxima (às vezes com aparência econômica, mas alternado com quadros com técnicas variadas), cenários de raiz nacional, e personagens simples, mas sempre bem expressivos. Por isso, quando a MMarte Editora anunciou uma publicação inédita que o quadrinista desenhara no início dos anos 1990 e que nunca chegara ao público porque a editora Dealer faliu antes de publicá-la, eu fui um dos que correram desesperados para conhecer o material. Com roteiro de Caco Xavier e participação de Luiz Gê, Vila-Velha: A Cidade da Bolha ficou décadas num acervo, com as páginas iniciais dispersas e os coautores sem identificação, até que Ivan Freitas da Costa e a equipe da MMarte fizeram uma investigação que acabou encontrando o roteirista aposentado em Florianópolis. A aplaudível edição da MMarte traz um bom texto introdutório de Márcio Paixão Jr. e um texto valioso de Caco Xavier sobre o processo de criação da HQ e de como estava o mercado na época (1991), além de algumas cartas que Flavio Colin escreveu para ele durante a produção.
A história aqui é uma mistura de muitas referências e memórias, como o próprio roteirista diz. Após um cataclismo global, uma pequena aldeia fica aprisionada numa dimensão extra-temporal (uma “bolha“), completamente isolada. Daquele que é chamado de “Mundo Antigo”, só sobram alguns volumes da enciclopédia infantojuvenil Tesouro da Juventude e a primeira página do quadrinho God is a Lily of the Valley (1973), de Luiz Gê, que os habitantes tratam como se fosse uma profecia incompleta. Caco Xavier escreve um texto cheio de experimentos linguísticos e narrativos sobre conflito geracional, possível guerra nuclear, armas químicas e os efeitos dessas ofensivas sobre uma população isolada e desinformada, que tenta reconstruir o mundo a partir de migalhas de uma civilização que mal conhece. A tese é fascinante: o conhecimento da cidade da bolha parte de enciclopédias infantis e de uma página perdida de quadrinho, levando a comunidade a uma vida baseada em memórias confusas atreladas a uma crença engessada e reforçada por exercícios coletivos de reafirmação das ameaças invisíveis que os jovens estão começando a rejeitar. Essa trama traz discussões muito boas, é verdade, mas praticamente tudo aquilo que serve como ameaça, no decorrer da história, acaba tendo um encerramento mais puxado para o simbólico (especialmente O Cão, inimigo atrelado a uma espécie de “visão” ou “alucinação“), algo que, para mim, comprometeu a parte final da trama.

Colin, contudo, faz o que Colin sempre fez, que é dar ao texto uma representação visual tão forte e uma sensação de familiaridade tão grande, que o leitor se sente preso e participante de tudo aquilo que está nas páginas. O traço inconfundível, com grandes blocos de tinta preta contra o branco da página, preenchimento estratégico dos quadros e uso de metalinguagem visual, traz expressividade máxima e cria situações impagáveis, como a viagem de novo-Gaio pelo Abismo Branco ou o resultado catastrófico da abertura da bolha. Esse rigor visual dá à aldeia de Vila-Velha uma solidez e uma brasilidade que deixa a narrativa ainda mais viva, mesmo na segunda parte do enredo. A contribuição de Luiz Gê é outro reforço metalinguístico aqui: a primeira página de God is a Lily of the Valley age, dentro da ficção, como um objeto sagrado e previsão futurista, uma crítica transformada em crença, algo que por si só daria um texto inteiro de análise. Para ser sincero, gostaria que houvesse uma exploração mais didática dessa página de Gê no contexto de Vila-Velha, exclusivamente porque é um material acoplado, pensado como significante adicional. Por ser deixado mais “solto” em relação ao seu sentido prático na história, acaba dando uma aparência de uso aleatório, ou, no mínimo, vago demais.
A bolha (cidade) e o lírio do vale (profecia) são, cada um à sua maneira, percepções que o ser humano faz questão de transformar em símbolo, principalmente depois que a verdade é revelada: a primeira, barreira invisível entre o mundo de dentro e o mundo lá fora; o segundo, flor que cresce em vales e que a tradição bíblica consagrou como imagem de humildade e presença divina, reforçando o caráter mitológico da vida isolada desses personagens. Vila-Velha: A Cidade da Bolha é, portanto, uma saga de “ficção científica social com algum conflito entre gerações, um tantinho de experimentos de linguagem e um fundo de cultura civilizatória ao mesmo tempo militarizada e mistificada“. Como as novas gerações percebem a vida com regras, nas bolhas de medo criadas pelos antigos? Estão todos preparados para enfrentar O Cão, seja ele metafórico ou real? Estão todos dispostos a ignorar as fábulas didáticas de Gentileza (uma terna e emocionante referência a José Datrino)? A cena final da HQ é triste, quase fatalista, mas que precisa ser refletida. A vida imaginada pelos jovens se mostrou um fardo. O mundo fora da bolha era gigantesco, cheio de opções inúteis, cheio de liberdades desnecessárias que colocavam toneladas de responsabilidade e ansiedade em todos apenas por existirem. Ficar dentro da bolha era condenar a memória. Sair da bolha era condenar a existência à angústia e à crise da mente, do corpo e da alma. Qual é a saída?
Vila-Velha: A Cidade da Bolha (Brasil, 2025)
Roteiro: Caco Xavier
Arte: Flavio Colin, Luiz Gê
Editora: MMarte
92 páginas