Juros elevados e termos de troca favorecidos pela alta dos preços do petróleo têm sustentado o real, apesar da incerteza elevada. Esse suporte, no entanto, pode se dissipar caso o risco global aumente e os mercados passem a ignorar os fundamentos. O alerta é feito pelo gestor Viktor Szabó, da Aberdeen, que, ao menos por ora, mantém posições compradas na moeda brasileira na carteira.
“O real pode continuar se destacando, desde que os mercados permaneçam, de modo geral, dispostos a diferenciar os fundamentos dos países”, observa. “O principal risco para esse cenário benigno não é específico do Brasil, mas, sim, uma mudança no regime de precificação global. Se houver uma nova alta acentuada nos preços do petróleo e os investidores passarem a operar em modo de ‘aversão total a risco’ de forma mais indiscriminada, em que as correlações aumentam e os fundamentos importam menos, então a moeda brasileira pode ter dificuldades, mesmo que o cenário doméstico brasileiro permaneça relativamente resiliente”, enfatiza. “Em outras palavras, o cenário base permite um desempenho razoável, mas o risco extremo é um ambiente de mercado desconectado dos fundamentos”.
Szabó observa que, hoje, o Brasil está menos exposto de forma direta ao choque de guerra no Irã. “É um exportador líquido de energia e possui produção doméstica relevante de petróleo. O impacto de primeira ordem do aumento dos preços do petróleo não é automaticamente negativo para as contas externas”, explica. “O risco está mais nos efeitos de segunda ordem: disponibilidade de diesel e possíveis interrupções no fornecimento de fertilizantes, que afetam os custos do agronegócio, o crescimento e a dinâmica da inflação”, alerta. “Além disso, o Brasil oferece taxas de juros reais muito altas, o que funciona como um amortecedor em períodos de incerteza global.”
Sobre o diferencial de juros, o gestor não acredita que cortes moderados na Selic, por si só, comprometam a atratividade do câmbio. “O Brasil parte de uma posição com um grande colchão de juros reais, de modo que o ‘carry’ permanece elevado mesmo com um afrouxamento gradual”, aponta. “O Banco Central tem sido cauteloso, e um ciclo de cortes lento e incremental dificilmente muda a proposta de investimento de forma abrupta. Nesse contexto, um afrouxamento gradual não deve enfraquecer significativamente a moeda, a menos que coincida com uma deterioração acentuada do cenário externo ou uma mudança mais brusca no apetite por risco ou nas expectativas de inflação.”
Por enquanto, Szabó diz acreditar que os fundamentos e o ambiente externo continuem sendo os principais direcionadores do real no curto prazo, especialmente enquanto o cenário de guerra ainda influencia o apetite global por risco e os preços de commodities. “O risco político [no Brasil, com as eleições] não é irrelevante, mas parece relativamente contido neste momento: a disputa pode ser acirrada, porém previsível (sabemos quem são os candidatos mais prováveis ao segundo turno e, em linhas gerais, o que esperar deles). À medida que nos aproximarmos da votação, a política pode ganhar mais relevância na margem, mas, por ora, o ambiente externo é o principal fator para o câmbio.”
Um risco, segundo o gestor, é o governo sentir que precisa responder aos impactos econômicos da guerra. “O desafio é o de um espaço fiscal limitado. As escolhas de política importam: se a resposta caminhar para medidas pouco ortodoxas, os mercados podem reavaliar rapidamente os prêmios de risco.”
Sobre o posicionamento do mercado na moeda brasileira, Szabó diz ver hoje uma postura majoritariamente comprada [a favor da moeda] no real, mas menos intensa do que no início do primeiro trimestre. “A volatilidade de março parece ter reduzido parcialmente essas posições”, diz.
A Aberdeen está comprada no real brasileiro, principalmente contra o dólar americano, mas também contra uma cesta de moedas asiáticas. “O ‘carry’ e o colchão de juros reais do Brasil continuam sendo favoráveis, especialmente em um ambiente em que os investidores ainda diferenciam os fundamentos entre países, enquanto algumas moedas de países importadores de energia, particularmente aquelas com juros mais baixos, estão mais expostas ao atual choque de preços de energia.”