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segunda-feira, abril 6, 2026

Crise do petróleo já pressiona os índices de inflação

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A crise do petróleo apareceu com força na zona do euro, onde a prévia do índice de preços de março jogou a inflação a 2,5%, para fora da meta do Banco Central Europeu (BCE). Nos Estados Unidos, o maior produtor de óleo do mundo, o galão de gasolina (3,87 litros) ultrapassou US$ 4 e o de diesel, US$ 5. Países da Ásia, em especial Japão e Índia, estão agindo para impedir maiores desvalorizações de suas moedas. Em um vislumbre do que serão as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a economia mundial após o choque causado pela guerra de EUA e Israel contra o Irã, os principais economistas da instituição apontaram que “todos os caminhos levam a preços mais altos e menor crescimento”.

Março foi o mais cruel dos meses para as cotações do petróleo, que subiram 60%. No primeiro mês da guerra, analistas calculam que deixaram de fluir diariamente 10 milhões de barris, enquanto os bombardeios de infraestrutura dos países da região retiraram do mercado, por um bom tempo, algo entre 2 milhões e 2,5 milhões de barris/dia. As cotações dançam ao sabor das declarações contraditórias do presidente Donald Trump, mas se mantêm, apesar de tudo, acima de US$ 100 o barril. Fertilizantes, enxofre, alumínio, hélio e outros produtos que necessitam de passagem pelo Estreito de Ormuz estão subindo de preço, com o risco mais grave de escassez desses produtos.

Um choque do petróleo da magnitude do atual tem vários efeitos. O mais evidente é a alta dos preços, tão mais aguda quanto mais tempo durar o conflito com o Irã. O impacto da inflação sobre o consumo é forte e a economia reduz seu crescimento ou entra em recessão. A presença de ambos modifica os preços dos ativos financeiros e commodities, não necessariamente de forma ordenada e rotineira. O otimismo nas bolsas e na economia americana, por exemplo, se baseava em grande parte nos investimentos em inteligência artificial, que pressupõe energia abundante a preços razoáveis, duas condições que deixaram de existir. Lucros cadentes das empresas retiram atratividade das bolsas, que, nos EUA, atrai recursos de 50% das famílias.

Os efeitos financeiros são variados. Países mais dependentes do petróleo podem sofrer desvalorização da moeda em relação ao dólar, emitido pelo maior produtor da commodity no mundo. É o que começou a ocorrer no Japão, onde uma intervenção para conter a perda de valor do iene pode ocorrer logo. Na Índia, para defender a rúpia, o governo limitou a US$ 100 milhões a posição dos investidores no mercado de derivativos de moedas para frear a especulação contra a moeda, ao passo que intensificou a venda de dólares.

A pressão simultânea de inflação em alta e economia em baixa (estagflação) é um enorme problema para os bancos centrais, em geral acostumados a considerar esses movimentos como excludentes (uma economia em retração em geral é menos propícia a apresentar surtos inflacionários). Agora, se a guerra continuar por mais algum tempo, terão de escolher a arma dos juros contra a inflação, sem provocar com isso a recessão. Os principais BCs do mundo enfrentam hoje esse dilema, em condições diferentes.

O BCE tinha a inflação abaixo da meta até fevereiro (1,9%). Não mais. O BCE explicitou sua reação futura ao choque de preços. O núcleo de inflação caiu de 2,4% para 2,3% em março, o que não indica ainda transmissão generalizada da alta para os demais setores da economia. Se essa alta ocorrer e for moderada, um aumento suave dos juros pode ser justificado. No caso de ameaça de forte e persistente transmissão, não hesitará em elevar os juros. A contraindicação é o pesado endividamento dos governos da zona do euro, cujos bônus soberanos estão subindo.

O Federal Reserve prefere dizer que, com os juros perto do nível neutro, pode esperar para observar o que ocorrerá com os preços na economia, segundo Jerome Powell, presidente da instituição. Os investidores não esperam novos cortes de juros no ano nos Estados Unidos, mas Powell poderá ser substituído no mês que vem por Kevin Warsh, indicado por Trump, que tende a reduzir os juros em um momento em que a inflação estará em ascensão. As expectativas de médio e longo prazos da inflação estão ancoradas e esse comportamento é relevante para que o Fed não precise de ações contundentes para enfrentar a alta dos preços, dentro de certos limites.

O Banco Central do Brasil ainda avalia o efeito do choque de preços do petróleo na economia e decidiu dar início a um ciclo de corte de juros que não deverá ser intenso ou mesmo contínuo nos próximos meses, sem descartar uma elevação da taxa Selic, como ficou claro no Relatório de Política Monetária de março. Colabora para diminuir as dificuldades do BCB a continuidade da entrada de recursos externos para portfólio e a consequente estabilização do dólar. Se o IPCA se afastar muito da meta, não haverá como reduzir muito os juros. O limite é evidente: a conta de juros em 12 meses é de pouco mais de R$ 1 trilhão, porque o governo se recusa a conter gastos e obter superávits primários, e seria importante diminuí-la o mais rapidamente possível.

[Fonte Original]

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