O dólar à vista exibiu desvalorização frente ao real na sessão desta segunda-feira, em um dia em que moedas mais sensíveis a preços de commodities valorizaram, mesmo com incertezas em torno das negociações entre Estados Unidos e Irã. Assim, hoje o real esteve entre as divisas com maior apreciação frente à divisa americana, ao lado de moedas como os dólares neozelandês, australiano e canadense.
Além do preço do petróleo em alta ter dado suporte à moeda brasileira, o diferencial de juros e a baixa volatilidade recente beneficiaram o câmbio. Nem mesmo a sinalização de que o Banco Central deverá deixar de rolar US$ 1 bilhão do estoque de swap cambial com vencimento em maio chegou a mexer com o mercado local neste pregão.
Encerradas as negociações do mercado à vista, o dólar fechou negociado em queda de 0,31%, cotado a R$ 4,9823, depois de ter encostado na mínima de R$ 4,9644 e batido na máxima de R$ 4,9832. Já o euro comercial caiu 0,29%, a R$ 5,8396. Perto das 17h10, no exterior, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, oscilava -0,04%, aos 98,492 pontos.
Desde o começo do pregão desta segunda-feira, o dólar à vista exibiu desvalorização frente ao real. Isso mesmo com um ambiente menos propício a ativos de risco no exterior, diante da alta dos preços do petróleo (+2,75% nesta sessão) e com a preocupação sobre inflação pressionando as curvas de juros. Operadores entenderam que a combinação preços de petróleo e juros mais elevados deram suporte ao real.
No caso dos juros, nesta semana o BC deve cortar a Selic mais uma vez, mas a perspectiva é que a autoridade monetária siga cautelosa, o que tende a manter o real protegido. Como lembram estrategistas do UBS Wealth Management, em nota, a inflação atual já começou a ficar acima do previsto, e as expectativas reagiram fortemente ao choque do petróleo no Brasil. “Com a possibilidade de a inflação ultrapassar o limite superior da meta neste ano, a margem para um maior afrouxamento em 2026 é menor do que o previsto anteriormente”, apontam. “Isso deve manter o real brasileiro atrativo do ponto de vista do carry nominal e real, mesmo que o Banco Central decida reduzir sua taxa básica de juros novamente.”
Na sessão desta segunda, o BC também realizou o provável último leilão de rolagem do estoque de swap cambial com vencimento no começo de maio. Foram ofertados 50 mil contratos, mas vendidos 30 mil. Com isso, é de se esperar que a autoridade já anuncie hoje a rolagem do estoque com vencimento no começo de junho, deixando 20 mil contratos (US$ 1 bilhão) para vencer de forma seca. A não rolagem do estoque pela autoridade, em tese, deve criar uma pressão de compra de dólares no mercado, mas nem essa perspectiva foi capaz de alterar a dinâmica do câmbio neste pregão.
O diretor de tesouraria do C6 Bank, Marcelo Muniz, diz que atuações do BC que não devam alterar ou tentar alterar o comportamento do mercado são bem vistas. “Concordo com o Banco Central, com essa a intervenção com cautela, é o mais adequado para o momento”, afirma. Mas o executivo diz não ver necessidade de o BC ter pressa. “Até porque para comprar dólares, é preciso ter reais. Não acho que seja uma boa prática gastar reais, com a Selic a 14,75%, para comprar uma moeda que pague menos juros.”
Sobre o atual uso de instrumentos do BC, Muniz diz não achar que o percentual atual da composição das ferramentas de derivativos e de ‘spot’ seja ruim. “Claro que, quanto mais simples [a atuação do BC], melhor. Mas sabemos que esses instrumentos não estão em funcionamento à toa. Se estão aí é porque houve demanda.”
Ainda na leitura do diretor do C6, o grande tema deste ano é a boa performance dos mercados emergentes, em especial o mercado de câmbio, e se a percepção de risco por conta da guerra aliviar, a tendência é que o movimento prossiga. “E mesmo diante da guerra, países produtores de commodities e não dependentes de petróleo, como o Brasil, são os emergentes que acabam se tornando os prediletos”, diz, acrescentando que, ainda que o real se destaque agora, no passado a moeda brasileira esteve aquém dos pares. “Essa melhora de agora compensa a piora do passado.”