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quinta-feira, abril 16, 2026

Investidores olham com cautela para o setor sucroalcooleiro

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O cenário de crédito de curto e médio prazo para o setor sucroalcooleiro é marcado por uma confluência de choques externos e vulnerabilidades estruturais. A incerteza sobre a duração do conflito no Oriente Médio projeta incógnitas sobre a inflação e a curva futura de juros, o que pode manter elevado o custo de capital para as usinas brasileiras. Já o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, protocolado em março, deixa o setor sob lupa de analistas e investidores. A companhia, uma joint venture entre Cosan e Shell, busca renegociar R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras.

“A recuperação extrajudicial traz aumento do risco de confiança, os investidores e financiadores passam a olhar o setor com mais cautela e analisar como está a alavancagem da indústria. Isso se combina a um cenário maior que tem recuperações de empresas de outros setores e dúvidas sobre a queda da taxa de juros no Brasil”, afirma José Guilherme Nogueira, presidente da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana).

A pressão maior será sobre empresas com a relação entre dívida líquida e geração de caixa superior a três vezes. O receio é que a reestruturação financeira resulte em seletividade de crédito e cautela nos contratos de longo prazo, justamente quando os custos de insumos, como fertilizantes nitrogenados e diesel, sofrem pressão direta da instabilidade geopolítica no Irã e no Golfo Pérsico.

Dados recentes divulgados pela Serasa Experian apontam que 2,5 mil empresas chegaram a processos de recuperação judicial em 2025. Os setores agrícola e de serviços concentraram a maioria dos CNPJs em recuperação. O agro – que contempla exclusivamente pessoas jurídicas e é segmentado pelas classificações de agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura – representou 30,1% dos CNPJs que buscaram pela recuperação judicial ano passado, um aumento de 4 pontos percentuais do segmento em relação à pesquisa do ano passado.

O custo do dinheiro mais elevado muda a forma como os investimentos são priorizados”

— José G. Nogueira

De acordo com a Serasa Experian, o agronegócio foi influenciado ano passado por choques de preços de commodities, insumos dolarizados, como fertilizantes e defensivos, exposição cambial e um ciclo financeiro mais longo de safra-entressafra, que amplificou a volatilidade de receita e caixa. Em cenários adversos, esses fatores comprimiram margens e capacidade de pagamento ao longo de toda a cadeia, do produtor à armazenagem, logística, agroindústria e tradings, elevando a necessidade de renegociação de passivos e tornando a recuperação judicial um instrumento para preservar operações e empregos.

Isso se soma ao cenário interno, cujo panorama ganhou novos contornos com a guerra no Oriente Médio. Em março, o Banco Central realizou a primeira redução da taxa básica de juros desde maio de 2024, com um corte de 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano. Incertezas sobre a duração da guerra e impactos sobre os preços da energia e de alimentos têm feito analistas revisarem projeções.

No início de abril, a expectativa de inflação era de 4,36% neste ano, enquanto na primeira semana de março a previsão era de 3,91%. Isso pode levar a uma redução da Selic menor que os 12,5% previstos para até o fim de 2026. “O custo do dinheiro mais elevado muda a forma como os investimentos são priorizados”, afirma Nogueira.

Para Luiz Carlos Corrêa Carvalho, diretor da consultoria Canaplan, o cenário de crédito mais restrito se combina às oportunidades criadas com a guerra no Oriente Médio, que valoriza o etanol no mundo. Países da Ásia já começam a buscar aumentar mandatos de uso de biocombustíveis e diversificar suas matrizes de energia. Cerca de 80% do gás e óleo que passam pelo Estreito de Ormuz é direcionado para os países asiáticos.

Nesse cenário em que o etanol pode ganhar espaço no mundo, investidores internacionais podem analisar ativos no Brasil. seria um movimento parecido ao que o setor sucroalcooleiro assistiu nos anos 2000, quando investimentos externos chegaram a responder por 25% dos ativos no setor.

“Podemos ver essa tendência de novo. A crise atual tem feito alguns investidores de fora nos consultarem e reforçar o sobrevoo sobre o Brasil”, avalia Carvalho, da Canaplan. Ele analisa que pode haver espaço para operações de fusões e aquisições ou atração de sócios estratégicos em moeda estrangeira. Se de um lado o custo de capital é um problema, de outro a guerra valoriza o etanol e pode aumentar também os preços do açúcar, o que eleva a receita do setor.

[Fonte Original]

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