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quarta-feira, abril 15, 2026

Mercado acionário da Indonésia busca recuperar confiança de investidores

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O mercado acionário da Indonésia, que tem ficado atrás de seus pares regionais neste ano, enfrenta um teste de credibilidade. Diante desse cenário, a Autoridade de Serviços Financeiros do país (OJK, na sigla em inglês) apresentou quatro medidas para reforçar a transparência na maior economia do Sudeste Asiático.

Analistas afirmam que as propostas respondem às preocupações levantadas pelos provedores globais de índices MSCI e FTSE Russell. No entanto, a implementação deve levar tempo, o que limita o potencial de impulso imediato para as ações indonésias.

“O sentimento dos investidores globais não muda da noite para o dia”, disse Liza Camelia Suryanata, chefe de pesquisa da Kiwoom Sekuritas Indonesia. “Eles observam não apenas anúncios de políticas, mas também a consistência na execução e se as melhorias se refletem na liquidez do mercado.”

As preocupações se intensificaram em janeiro, quando a MSCI anunciou a suspensão temporária da inclusão de ações indonésias em seus índices de mercados emergentes, citando falta de transparência e níveis insuficientes de ações em livre circulação (free float). Após o anúncio, o índice de referência Jakarta Composite chegou a cair quase 9%.

A FTSE Russell já havia colocado a Indonésia sob monitoramento especial para avaliar avanços em integridade, transparência e governança do mercado de capitais, além de adiar sua mais recente revisão das ações do país no mês passado. Nesta semana, contudo, reafirmou a classificação da Indonésia em seu sistema de categorização de mercados, indicando que o país atende aos requisitos mínimos de acessibilidade e estabilidade para investidores globais.

Ainda assim, em meio à volatilidade provocada pela guerra envolvendo o Irã, o chefe de supervisão do mercado de capitais da OJK, Hasan Fawzi, afirmou que as iniciativas buscam ampliar a transparência e restaurar a confiança dos investidores.

A primeira medida reduz de 5% para 1% o limite mínimo de participação acionária que exige divulgação da identidade dos acionistas. Segundo as autoridades, o novo patamar é mais avançado do que o adotado em alguns mercados desenvolvidos. A expectativa é que a mudança melhore a liquidez e a formação de preços. “Esperamos fortalecer a confiança dos investidores e aumentar a atratividade do mercado indonésio”, disse Fawzi.

A segunda iniciativa eleva o percentual mínimo de ações em circulação no mercado para 15%, ante os atuais 7,5%. A Bolsa de Valores da Indonésia (IDX) concedeu às empresas listadas um prazo de até três anos para cumprir a exigência. Dados da bolsa mostram que 267 companhias ainda estão abaixo do novo patamar, sendo que 49 delas representam cerca de 90% da capitalização total do mercado. A prioridade é que as empresas de grande porte se adequem primeiro.

Apesar disso, participantes do mercado alertam para os custos da adaptação. Katharine Grace, presidente da Associação Indonésia de Secretários Corporativos, estima que o aumento do free float possa custar entre 1 trilhão e 8 trilhões de rúpias por empresa.

A regra está entre as preocupações apontadas pela MSCI, que mencionou dúvidas de investidores internacionais sobre a confiabilidade dos dados do depositário central do país, o KSEI. A instituição também citou problemas estruturais de investibilidade decorrentes de estruturas acionárias opacas e possíveis negociações coordenadas que comprometem a formação adequada de preços.

“Essa é uma forma diplomática de dizer que as ações indonésias estão vulneráveis à manipulação por investidores não identificados”, escreveu Chris Leahy, da Asian Corporate Governance Association.

A terceira reforma trata da classificação dos investidores, com o objetivo de ampliar a transparência. Atualmente, eles são divididos de forma ampla entre pessoas físicas e instituições. O novo modelo prevê a inclusão de categorias mais detalhadas, como partidos políticos e fundos soberanos.

Segundo participantes do mercado, a mudança pode ajudar a esclarecer estruturas de propriedade pouco transparentes. Aji Martono, presidente da Associação dos Profissionais do Mercado de Ações da Indonésia, afirmou que a identificação dos beneficiários finais continua sendo uma questão central para os investidores. “Essa prática, especialmente em casos de propriedade em camadas, pode induzir o mercado ao erro”, disse.

Ele também defendeu uma atuação mais proativa dos reguladores e da bolsa na detecção de negociações irregulares, especialmente oscilações bruscas de preços que possam indicar manipulação. “Com os avanços em inteligência artificial e análise de dados, essas atividades deveriam ser detectadas automaticamente”, afirmou.

A quarta medida prevê a divulgação de uma lista de empresas com alta concentração acionária, identificando companhias com participação dominante de poucos acionistas e eventuais vínculos entre eles.

O diretor-presidente interino da IDX, Jeffrey Hendrik, afirmou que a iniciativa complementará os mecanismos de monitoramento existentes. Dados preliminares ilustram a dimensão do desafio: uma lista divulgada em 2 de abril mostrou nove empresas com mais de 95% do capital concentrado em poucos acionistas.

Embora as medidas tenham sido bem recebidas por analistas, a exigência de maior free float gerou preocupações sobre possíveis efeitos colaterais. Algumas empresas avaliam fechar o capital devido aos custos de adequação. Uma delas estima que a adaptação possa chegar a 21 trilhões de rúpias.

“Um dos desafios dessa política é garantir que o mercado absorva a oferta adicional de ações sem provocar pressão excessiva sobre os preços”, disse Suryanata.

A preocupação ganhou força após a Solusi Tunas Pratama, empresa de infraestrutura de telecomunicações, anunciar planos de fechar o capital após revisar sua estrutura operacional e societária. A companhia é controlada em 99,99% pela Sarana Menara Nusantara, afiliada ao Djarum Group.

Autoridades da bolsa reconhecem o risco de fechamento de capital durante a transição. Hendrik afirmou que esse pode ser um custo inevitável para elevar a qualidade do mercado. “No longo prazo, isso fortalecerá nosso mercado”, disse I Gede Nyoman Yetna, diretor de avaliação da IDX.

As reformas, porém, ocorrem em meio a pressões econômicas e geopolíticas mais amplas. Apesar de um cessar-fogo temporário no Oriente Médio, a incerteza global continua a pesar sobre o sentimento dos investidores.

No cenário doméstico, os riscos fiscais e a credibilidade das políticas públicas seguem sob escrutínio. O déficit fiscal atingiu 2,92% do PIB no ano passado, próximo ao teto legal de 3%. Agências de classificação de risco também demonstraram preocupação: Moody’s e Fitch revisaram a perspectiva do país para negativa, citando desafios de governança e imprevisibilidade das políticas.

A atividade do mercado ainda não se recuperou plenamente. Treze empresas se preparam para abrir capital neste ano, metade das 26 registradas no ano passado. Na sexta-feira, a IDX registrou a primeira listagem de 2026, com a BSA Logistics Indonesia captando 302 bilhões de rúpias.

Yetna reiterou o foco da bolsa em melhorar a qualidade do mercado. “Esperamos que essa transparência fortaleça a confiança dos investidores”, afirmou. “Mas isso não será alcançado no curto prazo.”

Apesar dos sinais iniciais de recuperação, analistas alertam para os desafios crescentes diante das tensões no Oriente Médio e da desaceleração econômica doméstica.

“Diante da persistente incerteza global e do enfraquecimento do crescimento”, disse Marolop Alfred Nainggolan, chefe de pesquisa da Praus Capital, “as exigências da agenda de reformas tornam-se cada vez mais desafiadoras, especialmente para empresas emissoras e candidatas à abertura de capital.”

[Fonte Original]

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