É difícil exagerar a profundidade com que o presidente dos EUA, Donald Trump, remodelou o cenário internacional nos últimos 14 meses. Desde a Segunda Guerra Mundial, a política externa americana seguiu, em grande parte, uma abordagem internacionalista. Instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC) – todas elas fundadas e lideradas pelos EUA – ajudaram a manter a ordem multilateral, enquanto as relações econômicas entre a maioria dos países operavam sob o princípio da não discriminação.
Trump subverteu essa ordem, substituindo-a por uma agenda nacionalista e imperialista que coloca os “EUA em 1º lugar”, ilustrada de forma marcante por sua guerra imprudente e sem limites contra o Irã. Sua retirada de instituições internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) enfraqueceu canais de comunicação essenciais para monitorar doenças transmissíveis, coordenar rotas de voos, rastrear eventos climáticos e fomentar a cooperação global. No plano interno, ele seguiu um caminho igualmente destrutivo, atacando instituições-chave dos EUA, como os sistemas de resposta a emergências, proteções ambientais e – acima de tudo – o Estado de Direito.
Muitas dessas medidas foram tomadas com pouco ou nenhum planejamento ou reflexão. As tarifas de Trump, muitas das quais foram baseadas em cálculos duvidosos e posteriormente reduzidas ou revertidas, são um exemplo claro disso. Nem mesmo as remotas ilhas Heard e McDonald, cujos únicos habitantes conhecidos são pinguins e focas, foram poupadas.
A justificativa para as tarifas também mudou repetidamente. Em diferentes momentos elas foram tanto uma forma de eliminar déficits comerciais bilaterais, quanto punir países que supostamente tratam os EUA de forma injusta, reduzir a inflação, reforçar a segurança nacional e estimular o emprego no setor manufatureiro.
Mas as decisões de Trump frequentemente contradizem esses objetivos. Por exemplo, o superávit comercial dos EUA com o Brasil não impediu Trump de impor tarifas abrangentes sobre produtos brasileiros em retaliação à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, seu aliado político.
O Vietnã é outro exemplo da política americana errática. Em julho, o governo Trump anunciou uma tarifa de 20% sobre as importações vietnamitas, mesmo após o Vietnã concordar em eliminar suas tarifas sobre produtos dos EUA. A decisão surpreendeu as autoridades vietnamitas, que acreditavam ter garantido uma taxa menor, de 11%.
A lista de inconsistências e reviravoltas abruptas continua. Em especial, Trump tem mirado as importações canadenses, aumentando e reduzindo as tarifas sobre bens como automóveis e alumínio, apesar de ter negociado e assinado o Acordo EUA-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês) em seu primeiro mandato.
Dado seu lançamento caótico, não surpreende que a agenda tarifária de Trump não tenha conseguido atingir nenhum de seus objetivos declarados. O déficit comercial dos EUA atingiu um recorde em 2025, o emprego na indústria manufatureira caiu e a inflação permanece acima da meta de 2% do Federal Reserve (Fed). No que diz respeito à segurança nacional, poucos poderiam argumentar que as políticas de Trump tornaram os EUA mais seguros.
Dado seu lançamento caótico, não surpreende que a agenda tarifária de Trump não tenha conseguido atingir nenhum de seus objetivos. O déficit comercial dos EUA atingiu um recorde no ano passado e o emprego na indústria manufatureira caiu
Ao mesmo tempo, as tarifas de Trump e a incerteza em torno delas provocaram ondas de choque na economia mundial. A decisão recente da Suprema Corte dos EUA de rejeitar o uso por Trump da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional para implementar sua agenda tarifária, juntamente com seu anúncio posterior de que voltaria a impor uma tarifa universal de 10% com base em outro estatuto, aprofundou essa incerteza.
Como resultado, os produtores dos EUA não conseguem prever a concorrência de importação que enfrentarão ou a que preço, e as empresas que dependem de insumos importados não sabem quanto pagarão por eles. Enquanto isso, as companhias americanas voltadas para as exportações não conseguem avaliar em que medida o aumento dos custos dos insumos as colocará em desvantagem em relação aos concorrentes estrangeiros.
Tais condições inibem o investimento. Produtores que de outra forma poderiam expandir sua capacidade, podem relutar em fazer isso, já que as tarifas que os protegem hoje podem não estar mais em vigor amanhã. Os exportadores, enfrentando custos mais altos e tarifas retaliatórias de outros países, podem reduzir suas operações globais. Muitas empresas não conseguem nem mesmo determinar quais tarifas, de fato, se aplicam a elas.
Felizmente, a decisão da Suprema Corte deverá limitar a capacidade de Trump de usar tarifas discriminatórias como instrumento. Em termos práticos, os países que exportam para os EUA deixariam de correr o risco de ver um produtor concorrente receber repentinamente uma tarifa menor sobre produtos idênticos. Trump já havia usado essa tática ao ameaçar exportadores de automóveis como a Coreia do Sul e o Japão, pois até pequenas diferenças de tarifas podem transferir a vantagem competitiva de um produtor para outro.
Em resposta à decisão, Trump ameaçou recorrer a outras medidas, como taxas antidumping, para compensar a perda de suas tarifas discriminatórias. Ele também invocou um estatuto que permite ao presidente impor tarifas gerais por até 150 dias. Essas medidas, embora prejudiciais, ao menos seriam aplicadas de forma igualitária entre os países.
Outras disposições da legislação comercial dos EUA também poderiam ser usadas, como a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que mira práticas comerciais desleais, e a Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1972, que permite a imposição de tarifas por motivos de segurança nacional. Mas essas ferramentas exigem investigações longas. E mesmo que Trump tivesse sucesso, a decisão da Suprema Corte já limitou sua capacidade de usar tarifas como instrumento de política.
Tudo isso reforça a importância do princípio da nação mais favorecida da OMC, concebido para evitar esse tipo de discriminação. Trump não será presidente para sempre, mas o dano que seu governo causou ao sistema comercial global será difícil de reverter. Mas caso um sistema multilateral e aberto seja restabelecido, reverter suas tarifas arbitrárias e imprudentes será o passo inicial necessário. (Tradução de Mário Zamarian)
Anne O. Krueger, ex-primeira diretora-gerente adjunta do FMI, é professora sênior de Pesquisa em Economia Internacional na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins e pesquisadora sênior no Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade Stanford.
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