Apesar da taxa de desemprego estar nas mínimas históricas e a renda real efetiva mostrar crescimento forte há pelo menos quatro anos, o poder de compra do brasileiro médio segue abaixo dos patamares pré-pandemia, o que ajuda a explicar o descontentamento do eleitor com o atual governo. É o que sugere um estudo da gestora Kinitro.
O trabalho tenta explicar a desconexão entre os indicadores econômicos e a baixa avaliação do governo Lula 3. Esse descompasso seria o “Paradoxo da carestia“, “fenômeno no qual a melhora dos principais dados econômicos é neutralizada por um elevado custo de vida que asfixia o orçamento doméstico”, dizem os autores.
O trabalho propõe um índice de custo de vida – alimentos (ICV-Alimentos), que foca na capacidade de compra real e tem como referência a evolução do custo da cesta básica no país. Esse custo de vida medido a partir da cesta básica teve um salto no pós-pandemia, algo visto também no exterior, mas no Brasil essa dinâmica se agrava por causa do elevado comprometimento de renda com o pagamento de dívidas ― que renovou máximas históricas no início de 2026, segundo dados do Banco Central.
“O eleitor não julga o governo apenas pelo crescimento do PIB, nível da taxa de desemprego ou inflação, dando mais importância à percepção de seu próprio custo de vida. Quando o ICV-Alimentos piora, a avaliação do governo se deteriora: é a economia do cotidiano ditando os rumos da política nacional.”
Entre 2010 e 2015, a média móvel do ICV-Alimentos permaneceu perto de 2,8x ― ou seja, o brasileiro médio conseguia comprar quase 3 cestas básicas com sua renda líquida. Houve um tombo em 2016 e uma parcial recuperação até 2019, quando o indicador caiu para perto de 2x. Desde então, houve uma recuperação, mas sem retomar a média anterior à pandemia. Pior: a velocidade dessa retomada diminuiu consideravelmente a partir de 2024.
O trabalho faz recortes e mostra piora em todos os eles. Para o trabalhador que vive apenas dos rendimentos do seu próprio trabalho, a diferença entre a máxima histórica e o atual patamar do ICV está em quase 20%.
O informal, por sua vez, teve recuperação, mais célere – está em 2,1x, perto da média história de 2,3x. Ainda assim, “tal recuperação não vem de ganhos de produtividade ou valorização da hora trabalhada, mas, sim, de uma possível extensão da jornada de trabalho, especialmente na ‘gig economy’. A ideia é que o trabalhador informal vem ajustando o seu maior custo de vida a partir de um maior número de horas trabalhadas”, avaliam.
Outro recorte feito é da população que recebe até 3 salários mínimos – grupo beneficiado pela isenção do imposto de renda até 5 salários mínimos. O ICV-Alimentos desse grupo rodou o período pré-pandemia perto de 5,1x, mas atualmente segue estagnado ao redor de 4,3x.
“Diferente da base da pirâmide, que recebeu reforços robustos no Bolsa Família, ou do topo, que absorve a inflação sem mudar seus hábitos, a Classe C vive uma asfixia. Com uma renda de R$ 5.000,00, o indivíduo não é considerado vulnerável, mas vê sua “gordura” orçamentária ser corroída pelo elevado custo de vida, seja do supermercado ou de seus compromissos financeiros. Para esse eleitor, a isenção do IR é percebida como um alívio insuficiente diante de uma carestia que se tornou estrutura”, diz o trabalho.
“A estagnação do ICV da Classe C no patamar de 4,3x explica a dissociação observada nas pesquisas de opinião, onde o eleitor reconhece que a economia melhorou, mas sente que o governo não “entregou” a prosperidade prometida. As medidas fiscais, como a isenção do IR, focam em aumentar o rendimento nominal (numerador do índice), mas são anuladas pelo aumento do comprometimento de renda e pela manutenção dos preços de alimentos em níveis elevados.”
O beneficiário do INSS, por sua vez, é dono do pior recorte entre os propostos, uma vez que sua elasticidade de renda é zero. Após 15 anos de relativa estabilidade, oscilando em torno de 2.6x cestas básicas, o poder de compra despencou e estagnou abaixo de 2x.
Como a renda do aposentado não cresceu junto com a política de valorização do salário mínimo? Os autores chamam atenção para a chamada “ilusão do reajuste”: embora o salário-mínimo para quem ganha o piso tenha crescido nos últimos anos, a inflação de alimentos tem subido mais.
Os autores rodaram um exercício econométrico relacionando a avaliação presidencial entre 2005 e 2025 e a capacidade do rendimento em comprar uma cesta básica, e encontraram que o último explica quase 60% da variância do primeiro. Foi um resultado muito mais importante do que outras variáveis explicativas, como a inflação de serviços ou o nível de desemprego.
Mais especificamente, o exercício mostrou que, para cada 1% de perda no poder de compra de alimentos, a avaliação líquida ao longo de um trimestre sofre uma queda consolidada de aproximadamente 0,40 ponto porcentual.
“Isso quer dizer que o fato de “estar ocupado” e fora das estatísticas de desemprego não gera capital político se o dinheiro não alcança os preços do supermercado. Da mesma forma, o eleitor absorve aumentos nos serviços gerais, mas não a inflação de subsistência”, sintetiza o estudo.
“O governante é avaliado não somente pela manchete de geração de empregos ou pela inflação controlada. O termômetro da popularidade do governo é a solvência do orçamento doméstico.”