O economista Nouriel Roubini, professor emérito da Universidade de Nova York e CEO da consultoria Roubini Macro Associates, afirmou nesta terça-feira (7) que os problemas no crédito privado dos Estados Unidos são “idiossincráticos, e não sistêmicos”, e não têm potencial de causar crise financeira ou recessão.
Segundo ele, as pessoas estão preocupadas com uma possível bolha e uma repetição da crise financeira global de 2008, que o próprio Roubini, apelidado de “Dr. Catástrofe”, previu. “Acho que desta vez é diferente, porque a dimensão da bolha imobiliária subprime foi muito maior e afetou milhões de famílias”, afirmou durante apresentação no 12º Brazil Investment Forum, promovido pelo Bradesco BBI em São Paulo.
Além disso, o economista acredita que problemas de balanço com endividamento elevado não causam crise, a menos que haja um choque na receita. “No início desta década, havia preocupação com o excesso de imóveis comerciais nos EUA, que poderia levar a uma crise financeira. Isso não aconteceu porque o crescimento econômico continuou”, comparou.
Para Roubini, portanto, enquanto as famílias tiverem renda e a maioria das empresas gerar receita e lucro, mesmo que as taxas de juros e os índices de endividamento estejam mais altos, uma recessão grave só acontece se houver um choque no balanço ou na receita.
O professor da Universidade de Nova York também comentou que há temor atualmente de uma recuperação em forma de K nos EUA. “Os ricos gastam mais, eles têm renda. Aqueles que estão nos 50% mais pobres têm renda menor, vivem de salário e enfrentam taxas de juros mais altas em seus financiamentos de automóveis, cartões de crédito, hipotecas e assim por diante.”
Além disso, prosseguiu ele, as pessoas se preocupam com a fragilidade do mercado de trabalho, que tem se mostrado mais fraco, mas o economista ressaltou que o último relatório de emprego foi positivo e que a redução no crescimento do emprego não é impulsionada por uma redução na demanda por mão de obra, mas sim por uma redução na oferta de trabalhadores.
Isso acontece por dois fatores, explica. “Primeiro, o envelhecimento e a demografia. Segundo, Donald Trump, certa ou erradamente, reprimiu a imigração e está de fato deportando pessoas. Portanto, trata-se de uma restrição na oferta de mão de obra, não na demanda. Logo, o fato de o mercado de trabalho estar fraco não demonstra uma fragilidade da economia.”
Sobre inteligência artificial, Roubini afirmou que a IA e o aumento da produtividade que ela pode trazer podem impulsionar o crescimento, reduzir a inflação e dar impulso aos mercados. Ele ressalta que Estados Unidos e China lideram essa corrida tecnológica.
“Não é um jogo de soma zero. Os EUA vão se sair bem, a China vai se sair bem. E, aliás, os outros líderes em inovação e tecnologia são todos amigos e aliados dos EUA: Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Índia, Israel e alguns núcleos de excelência na Europa.”
No entanto, continuou ele, quem são os aliados da China? “Irã, Coreia do Norte, Rússia, que, com exceção da tecnologia de defesa, não estão realmente inovando em nada.”
Para ele, a inovação tecnológica eleva o crescimento potencial dos EUA de 2% nos últimos 20 anos para 4%. “Não só a tecnologia supera as tarifas, mas também a disciplina de mercado e a tecnologia superam os acessos de raiva de Trump. Isso significa que Trump pode ser impulsivo e reagir de forma exagerada a uma série de coisas, não apenas em relação ao comércio, não apenas em relação à guerra, mas ele é limitado pela disciplina de mercado e a tecnologia será prioridade.”
Ele relembrou uma piada que fez no ano passado que chamou a atenção do público: “O Mickey Mouse poderia ser presidente dos Estados Unidos e os EUA cresceriam absurdamente, porque o dinamismo do setor privado e a inovação são tantos que, de certa forma, não importa quem esteja no poder, seja Biden, Trump ou o Mickey Mouse. É um pouco exagerado, mas isso ilustra bem o ponto.”
Roubini vai além e prevê, até 2040, crescimento potencial de 6% e, até 2050, quando o mundo estiver na superinteligência, de 10%. “Então teremos crescimento exponencial explosivo em vez de crescimento logarítmico.” No entanto, diz ele, “quando atingirmos 10% de crescimento, a taxa de desemprego será pelo menos 80%, porque os robôs e eles vão fazer todo o trabalho e a maioria das pessoas não terá emprego”.
Ao mesmo tempo, ele acredita que poderá haver uma distribuição dessa renda obtida com esse ganho de produtividade. “Você quer crescer 10% quando o bolo econômico dobra a cada cinco anos e pode taxar os vencedores, redistribuir para todos os outros e melhorar a situação de todos. Isso significa renda básica universal.”