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domingo, abril 26, 2026

A investigação do NYT para descobrir quem é Satoshi Nakamoto, o criador do Bitcoin

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Numa noite do outono de 2024, minha esposa e eu estávamos presos no trânsito na Long Island Expressway quando, cansada de ouvir a estação de jazz‑funk que eu costumava colocar nas nossas viagens, ela mudou para um podcast.

Era o “Hard Fork”, o programa de tecnologia do New York Times, e os apresentadores discutiam um novo documentário da HBO que afirmava ter desmascarado o inventor pseudônimo do bitcoin, Satoshi Nakamoto.

Fiquei vidrado na hora. Eu sempre considerei a questão da verdadeira identidade de Satoshi um dos grandes enigmas da nossa época e já tinha mexido nesse assunto antes, sem sucesso. Dois anos antes, cheguei até a passar alguns meses pesquisando um livro sobre o tema. Mas logo percebi que estava fora da minha profundidade e, a contragosto, desisti.

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Ao ouvir que outra pessoa talvez finalmente tivesse identificado a figura sombria que revolucionara as finanças, criara uma indústria de 2,4 trilhões de dólares e acumulado, num único ato de genialidade estonteante, uma das maiores fortunas do mundo, senti uma mistura de admiração e inveja. Eu mal podia esperar para ver o filme. Assim que chegamos em casa naquela noite, entrei no app da HBO Max e dei play.

Leia também: NYT afirma ter descoberto o criador do Bitcoin após um ano de investigação

No fim das contas, achei a conclusão de “Money Electric: The Bitcoin Mystery” pouco convincente: a HBO apontou um desenvolvedor de software canadense com base em evidências que pareciam muito frágeis. Mas, enquanto assistia ao que era, de resto, uma incursão divertida pelo mundo das criptomoedas, uma cena chamou minha atenção.

Adam Back, um criptógrafo britânico e figura de ponta no movimento do bitcoin, estava sentado num banco de parque em Riga, na Letônia, com a camisa para fora da calça sob um casaco marrom. O cineasta foi recitando, de forma casual, os nomes de vários suspeitos de serem Satoshi. Ao ouvir o próprio nome, Back ficou tenso, negou veementemente ser Satoshi e pediu que a conversa ficasse em off.

Tendo lidado, ao longo da vida, com minha cota de mentirosos e desenvolvido certa habilidade em perceber seus sinais, o comportamento de Back — seus olhos inquietos, a risada forçada, o movimento brusco da mão esquerda — me pareceu suspeito. Quando começaram os créditos, eu já tinha voltado várias vezes àquela sequência na televisão.

Enquanto refletia sobre a reação de Back, outra ideia me ocorreu. Um impostor australiano havia sido processado por afirmar falsamente que era Satoshi. E se as provas apresentadas naquele processo, realizado em Londres poucos meses antes, pudessem me ajudar a desvendar o mistério?

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Como qualquer pessoa familiarizada com o folclore do bitcoin dirá, Satoshi era mestre na arte de manter o anonimato na internet, deixando pouquíssimas — se é que deixava alguma — pegadas digitais.

Mas Satoshi deixou para trás um corpus de textos [coleção vasta e estruturada de textos e documentos], incluindo um white paper de nove páginas descrevendo sua invenção e diversas postagens no fórum Bitcointalk, um quadro de mensagens on‑line em que usuários se reuniam para discutir o software, a economia e a filosofia da moeda digital. E esse corpus, descobri, tinha se expandido significativamente durante o processo civil contra o impostor, quando Martti Malmi, um programador finlandês que colaborou com Satoshi nos primeiros dias do bitcoin, divulgou centenas de e‑mails trocados entre os dois. E‑mails de Satoshi para outros pioneiros do bitcoin já haviam vindo à tona antes, mas nenhum chegava perto, em volume, do que Malmi revelou. Se Satoshi algum dia fosse encontrado, eu estava convencido de que a chave estaria em algum lugar nesses textos.

Por outro lado, outros deviam ter trilhado esse caminho antes de mim. Jornalistas, acadêmicos e detetives de internet tentam identificar Satoshi há 16 anos. Nesse período, mais de 100 nomes já foram sugeridos, incluindo os de um estudante irlandês de criptografia, um engenheiro nipo‑americano desempregado, um cérebro do crime sul‑africano e o matemático retratado no filme “Uma Mente Brilhante”.

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As teorias mais sedutoras se apoiavam em coincidências alinhadas ao pouco que se sabia sobre Satoshi: um estilo particular de escrita de código, um histórico profissional misterioso, domínio de conceitos técnicos cruciais do bitcoin, uma visão anti‑governo.

Mas todas esbarraram em um álibi ou em alguma outra evidência inconsistente ou contrária. Cada fracasso era recebido com alegria por muitos membros da comunidade do bitcoin. Como eles gostavam de dizer, somente Satoshi poderia provar sua identidade de forma definitiva movendo algumas de suas moedas. Qualquer evidência aquém disso seria circunstancial.

Parecia tolice achar que eu poderia resolver um caso que confundira tanta gente. Mas eu desejava o frio na barriga de uma grande história difícil. Então decidi tentar, mais uma vez, desmascarar o criador misterioso do bitcoin.

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I. Uma Série de Pistas

Duas Pistas Fracas

Comecei procurando maneiras de restringir o campo de suspeitos.

Uma coisa que saltava aos olhos nos e‑mails de Satoshi para Malmi e em seus outros escritos era a mistura de ortografia britânica e expressões americanas. Como muitos suspeitos de serem Satoshi são americanos, alguns especularam que ele estaria disfarçando sua prosa com britanismos. Mas nunca comprei essa teoria, por causa de uma pista que o próprio Satoshi deixou.

No primeiro bloco de transações do bitcoin, Satoshi embutiu o texto de uma manchete de jornal: “The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks.” A manchete em questão apareceu na edição impressa britânica do The Times de Londres. Aquilo me parecia um sinal de que Satoshi era, de fato, britânico.

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Também parecia muito provável que Satoshi fosse membro dos Cypherpunks, um grupo de anarquistas criado no início dos anos 1990 que queria usar criptografia — a arte de proteger comunicações por meio de códigos — para libertar indivíduos da vigilância e da censura governamentais. Os Cypherpunks interagiam principalmente por meio de uma mailing list da internet. Ancestrais dos fóruns modernos, as mailing lists eram grandes e‑mails em grupo, em fonte de máquina de escrever, que os assinantes recebiam em suas caixas de entrada. Para participar da conversa, bastava responder a todos.

É difícil visualizar isso na era do Venmo e do Apple Pay, mas uma das maiores preocupações dos Cypherpunks era a digitalização das transações financeiras. Quando você entrega uma nota de 20 dólares a alguém, ninguém sabe de onde ela veio. Mas quando paga algo com cheque ou cartão de crédito, os bancos mantêm registros em computador. Os Cypherpunks temiam que governos usassem esses registros para rastrear a vida das pessoas. Na mailing list, eles debatiam como criar “dinheiro eletrônico”: dinheiro digital que preservasse o anonimato da moeda física. Alguns chegaram a propor seus próprios sistemas de dinheiro eletrônico, mas nenhum vingou — até o bitcoin.

Além do interesse compartilhado em dinheiro digital, havia outras indicações de que Satoshi fazia parte do grupo. Ele anunciou seu white paper numa derivação da mailing list dos Cypherpunks, chamada Cryptography list, e parecia familiarizado com dois membros do grupo.

No auge, no fim dos anos 1990, os Cypherpunks chegaram a ter cerca de 2.000 seguidores, o que ainda deixava uma piscina ampla de candidatos.

Munido dessas pistas bem pouco robustas, mergulhei no corpo de textos de Satoshi, em especial os e‑mails divulgados por Malmi, e fiz uma lista de palavras e expressões que me chamaram a atenção. Parecia que eu tentava decifrar um dialeto estrangeiro. Mais de uma vez, me perguntei se não estava perdendo tempo.

Minha lista acabou passando de cem palavras e expressões, ocupando várias páginas do meu caderno. Entre as que me chamaram a atenção estavam: “dang”; “backup” usado como verbo em uma palavra só; “human friendly”; “on principle”; “burning the money”; “abandonware”; “hand tuned”; e “partial pre‑image”.

Uma expressão — “a menace to the network” (“uma ameaça à rede”) — parecia tirada de um filme de ficção científica. O restante sugeria uma mistura estranha de britânico de classe alta, caipira americano, nerd de computador e criptógrafo.

Usando a busca avançada da rede social X, fiz uma pesquisa preliminar para ver se alguma das dúzias de pessoas mais frequentemente apontadas como Satoshi usava os termos que eu havia destacado. Nem todos os suspeitos tinham conta no X, então isso não tinha nenhuma pretensão de ser científico. Mas, como eu esperava, uma pessoa se destacou por usar quase todas as minhas palavras e expressões: Back.

Olhando para uma coluna cheia de marcas de verificação anotadas sob o nome dele no meu caderno, senti uma descarga de adrenalina. Meu palpite agora parecia, ao menos parcialmente, fundamentado. O fato de Back empregar tantos dos mesmos termos que Satoshi talvez não provasse nada para uma comunidade obcecada há tantos anos com o assunto, mas eu duvidava que isso fosse mera coincidência.

À medida que examinava Back mais de perto, percebi que ele tinha vários atributos compatíveis com Satoshi. Para começar, ele era britânico e Cypherpunk. Mais importante, Back havia inventado o Hashcash, um sistema de quebra‑cabeças estatísticos que Satoshi aproveitou para o mecanismo de mineração de bitcoins. Satoshi citou Back e o Hashcash no white paper.

Mas Back apresentou, no julgamento do impostor australiano, e‑mails que mostravam que Satoshi o procurara em agosto de 2008, antes de publicar o white paper, para checar se estava citando corretamente o artigo de Back sobre o Hashcash. Aqueles e‑mails pareciam prova de que Back não poderia ser Satoshi.

Enquanto pensava nisso, porém, uma outra possibilidade me ocorreu: Back poderia muito bem ter enviado aqueles e‑mails para si mesmo, como uma história de cobertura.

“Descendo na Toca do Coelho da Criptografia”

Com seus óculos de aro de metal, cabelos grisalhos ralos e cavanhaque, Back, então com 55 anos, parece um matemático desleixado. Nos últimos doze anos, ele construiu um mini‑império de empresas relacionadas ao bitcoin e se tornou um dos membros mais influentes da comunidade.

Back há muito figura entre os principais candidatos a Satoshi. Mas, ao contrário de outros suspeitos de destaque, ele não foi alvo de uma investigação jornalística detalhada, exceto por um vídeo de 2020 feito por um youtuber anônimo conhecido como “Barely Sociable”.

Um ano antes, eu havia voado para Las Vegas para conhecê‑lo. Ele estava escalado para falar na conferência Bitcoin2025, no Venetian Resort. Eu não tinha certeza se estava diante do homem certo, então não pretendia confrontá‑lo ainda. Só queria conhecê‑lo e aprender mais sobre seu histórico. Se minhas apurações se confirmassem, eu imaginava encurralá‑lo com todas as minhas evidências depois, num confronto final dramático, como um detetive tentando arrancar a confissão de um suspeito de assassinato. Mas, por ora, eu queria deixá‑lo à vontade e criar uma relação de confiança.

Abordei Back depois de vê‑lo, num painel, prever com confiança que o bitcoin, então cotado em cerca de 108 mil dólares, chegaria a “um milhão, fácil” em cinco a dez anos. (De forma adequada, os organizadores da conferência batizaram o palco em que ele falou de “Nakamoto Stage”.) Ele pareceu um pouco surpreso, embora eu já tivesse combinado a entrevista com antecedência.

Disse apenas que eu trabalhava numa reportagem sobre a história do bitcoin, mas ele pode ter desconfiado das minhas reais intenções, já que eu já havia contatado seis ex‑colegas de três empresas pelas quais ele passara. Se desconfiou, não demonstrou. Foi paciente e cordial. Era difícil imaginar que aquele nerd de meia‑idade, de fala mansa, que não parecia tomar nenhuma precaução visível de segurança, pudesse ser uma das pessoas mais ricas do mundo. Segundo o folclore do bitcoin, Satoshi teria minerado 1,1 milhão de moedas nos primeiros dias da criptomoeda, um tesouro avaliado em 118 bilhões de dólares na época da conferência.

Notei que Back era falante quando o tema era bitcoin, mas se tornava mais reservado quando eu o levava a falar sobre a infância e a juventude. Com o tempo, arranquei dele o seguinte: ele nasceu em Londres em 1970. O pai era empreendedor, e a mãe, secretária jurídica. A família se mudava muito, e os parentes tinham opiniões fortes e não hesitavam em expressá‑las.

Back contou que aprendeu sozinho a programar aos 11 anos, num computador pessoal Timex Sinclair, e que, no ensino médio, se interessou por criptografia. Essa curiosidade virou paixão na Universidade de Exeter, quando um colega de curso apresentou a ele o PGP, um programa de criptografia gratuito usado por ativistas antinucleares e grupos de direitos humanos para proteger arquivos e e‑mails da vigilância governamental.

Back ficou tão fascinado com as muitas aplicações possíveis do PGP, sigla de Pretty Good Privacy, que, segundo ele, passou grande parte do doutorado “mergulhando na toca do coelho da criptografia”. Disse que se desviou tanto do tema que precisou condensar a tese nos últimos seis meses na universidade, comparando‑se a um piloto tentando pousar um avião em queda.

Eu já tinha aprendido o suficiente para saber que o PGP se baseia em criptografia de chave pública.

O mesmo vale para o bitcoin. Cada usuário tem duas chaves: uma chave pública, da qual se deriva um endereço que funciona como um cofre digital; e uma chave privada, que é a combinação secreta usada para abrir esse cofre e gastar as moedas ali guardadas.

Pensei ser bastante curioso que o hobby de pós‑graduação de Back envolvesse a mesma técnica criptográfica que Satoshi reaproveitou.

O tema da tese de Back, contou ele, eram sistemas distribuídos de computadores: programas que dependem de uma rede de máquinas independentes — os “nós”, no jargão da computação — que trabalham em conjunto para manter um software em funcionamento. Esse era outro pilar tecnológico do bitcoin.

E o projeto de tese de Back focava em C++ — a mesma linguagem de programação que Satoshi usou para codificar a primeira versão do software do bitcoin.

Depois de quase duas horas, Back deu a entender, educadamente, que tinha outros compromissos naquela noite, e nos despedimos cordialmente. Eu disse que voltaria a procurá‑lo se surgissem novas perguntas.

Tornar‑se um Cypherpunk

Antes da minha viagem a Las Vegas, eu já havia começado a mergulhar nos arquivos da mailing list dos Cypherpunks para entender melhor o estranho mundo subterrâneo que produziu Satoshi. Quando voltei a Nova York, me aprofundei ainda mais.

Ao contrário de uma plataforma de mídia social como o Facebook, a lista dos Cypherpunks era um fórum de comunicação descentralizado. Cripto‑nerds obcecados por privacidade se reuniam ali para debater ideias subversivas sem medo de censura. No processo, plantaram as sementes de inovações que mudariam os rumos da história financeira.

As mensagens foram preservadas para a posteridade em diversos sites obscuros. Um deles me recebeu com um logo de caveira com ossos cruzados e o slogan: “Levantem‑se, nada tendes a perder senão vossas cercas de arame farpado!” Eu me vi diante de milhares de e‑mails densos de “criptofalatório” que eu mal compreendia.

Back entrou na lista no verão de 1995, perto do final da pós‑graduação. Rapidamente se tornou um participante ativo, publicando posts sobre temas que iam da privacidade digital aos seus hábitos frugais de consumo.

Num dos primeiros posts, ele resolveu um desafio criptográfico — um tipo de quebra‑cabeça matemático — proposto por Hal Finney, um Cypherpunk da Califórnia que trabalhara no PGP. Isso marcou o início de uma amizade on‑line: décadas depois, Back tuitaria que ele e Finney haviam interagido diversas vezes dentro e fora da lista, e que admirava a concentração e a habilidade de programação do colega.

Satoshi também era próximo de Finney. Quando Satoshi divulgou o white paper, Finney o elogiou. Mais tarde, Finney se voluntariou para receber alguns bitcoins na transação que se tornaria a primeira da história da criptomoeda. Não havia prova de que Finney soubesse quem Satoshi era, mas uma interação entre ambos sugeria familiaridade.

Em dezembro de 2010, Finney escreveu um post no Bitcointalk elogiando o código do bitcoin. Duas horas depois, Satoshi respondeu: “Isso significa muito vindo de você, Hal.”
Havia algo mais que me fazia pensar que Satoshi e Finney compartilhavam um histórico.

Num dos e‑mails enviados a Malmi, Satoshi fez referência a um sistema de dinheiro eletrônico criado por Finney, chamado Reusable Proofs of Work (RPOW).

Assim como o bitcoin, o RPOW incorporava o Hashcash em seu desenho. Mas, ao contrário do bitcoin, praticamente não atraíra interesse da comunidade criptográfica. Apenas algumas poucas pessoas comentaram o sistema nas listas dos Cypherpunks e da Cryptography.

Back foi uma delas.

Um Pepita de Ouro

Nos Cypherpunks, Back encontrou almas gêmeas ideológicas. Eu o imaginava em casa, em Londres, conectando‑se à internet com um modem discado depois do trabalho e passando a noite debatendo filosoficamente com outros membros do grupo, espalhados pelo mundo.

Como muitos dos novos correspondentes, Back abraçou a “cripto‑anarquia”, uma ideologia que, em essência, defendia o uso da criptografia para proteger a vida dos indivíduos contra o avanço do Estado.

Como libertário, Back ficou furioso quando o governo Clinton abriu uma investigação criminal contra o criador do PGP. Na época, Washington considerava programas de criptografia vitais para a segurança nacional e entendia que publicar o código‑fonte do PGP on‑line equivalia a exportar munição proibida.

Em protesto, Back mandou fazer camisetas com um algoritmo de criptografia forte impresso nelas e as enviou pelo correio para Cypherpunks em outros países. A ideia era mostrar que a proibição americana à exportação de criptografia sensível violava a liberdade de expressão e era, na prática, impossível de aplicar.

Enquanto eu me deleitava com a esperteza da provocação de Back, me dei conta de que Satoshi também usara código para transmitir mensagens políticas. Muito provavelmente, Satoshi inseriu aquela manchete do Times de Londres no primeiro bloco de transações, em parte, como crítica aos resgates bancários promovidos pelo governo britânico durante a crise financeira, que estava em pleno andamento na época.

Satoshi plantou outra mensagem política em um site popular entre fãs de tecnologias descentralizadas. Ele afirmou que sua data de nascimento era 5 de abril de 1975. Em 5 de abril de 1933, o presidente Franklin D. Roosevelt havia proibido a posse privada de ouro, para permitir ao governo desvalorizar o dólar durante a Grande Depressão; já 1975 foi o ano em que essa proibição acabou.

O comentarista financeiro Dominic Frisby havia enxergado esse “easter egg” mais de uma década atrás e percebido seu significado: o bitcoin era uma versão digital do ouro que o Estado não poderia nem proibir nem desvalorizar.

Mas ninguém parecia ter notado este curto post de Back em 2002: “Só por curiosidade, qual foi a justificativa sob a qual a posse privada de ouro foi tornada ilegal nos EUA? Isso deixa a mente perplexa…”

Spam na Cabeça

Enquanto eu mastigava essa coincidência estranha, notei outra coisa que Satoshi e Back tinham em comum: uma obsessão curiosa com spam.

Entre os hobbies de Back como Cypherpunk, estava administrar um remailer, um serviço que permitia aos usuários se comunicarem anonimamente ao remover dados de identificação de e‑mails antes de encaminhá‑los ao destino. Para sua grande irritação, spammers se aproveitaram do sistema para bombardear pessoas com lixo.

Back inventou o Hashcash em março de 1997 como forma de reagir. A ideia era impor uma espécie de “porte pago” a cada e‑mail enviado por meio de seu remailer. Esse porte era pago em Hashcash, que os usuários geravam resolvendo pequenos problemas matemáticos que exigiam muitas tentativas de cálculo. Esses problemas levavam apenas alguns segundos para o computador resolver, mas impunham um custo significativo de processamento para spammers que enviavam centenas de milhares de mensagens de uma vez.

Ao reler o corpus de Satoshi uma segunda e depois uma terceira vez, comecei a ver a palavra “spam” em toda parte. Pela minha contagem, Satoshi a mencionou 24 vezes, e frequentemente expressava ideias idênticas às de Back.

Cinco meses após apresentar o Hashcash, Back sugeriu, na lista dos Cypherpunks, que sua invenção poderia ser útil para celebridades como forma de filtrar e‑mails. Em um post de janeiro de 2009 na Cryptography list, Satoshi propôs um uso parecido para o bitcoin.

Não era um caso óbvio de uso para o novo dinheiro eletrônico de Satoshi, a menos que a filtragem de spam estivesse na sua cabeça, como esteve na de Back por mais de uma década.

Satoshi também acreditava que o bitcoin poderia levar a uma redução geral de spam. Dias depois de lançar o white paper, ele argumentou que sua criação poderia dar um novo propósito aos exércitos de computadores “zumbis” comandados por hackers para entupir caixas de entrada de e‑mail: “em vez disso, gerar bitcoins”.

O argumento não pegou, e o spam continuou a proliferar. Mas Back faria o mesmo ponto no Bitcointalk quatro anos depois: “Talvez o spam até diminua se a mineração de Hashcash por CPU/GPU for um mercado mais lucrativo do que o spam. Para mim, é altamente provável que sim”, escreveu.

Senhor Mediano

Eu estava tendo menos sorte para encontrar rachaduras na “capa” de Satoshi que me levassem a uma prova cabal. A sabedoria convencional dizia que ele havia cometido dois erros. O primeiro envolvia um endereço IP vazado que o situaria no sul da Califórnia quando lançou o software do bitcoin. O outro dizia respeito ao hackeamento de um de seus e‑mails. Depois de semanas perseguindo ambas as pistas, concluí que não apenas eram becos sem saída, como provavelmente nem sequer eram erros para começo de conversa. Como eu iria encontrar alguém tão bom em esconder seus rastros?

Enquanto lutava com essa questão, me ocorreu que Back, também, era hábil em operar anonimamente na internet. Profundamente paranoico com monitoramento governamental, ele vivia imaginando formas de escapá‑lo. Na verdade, assim como Satoshi, Back era grande fã do uso de pseudônimos.

“Você deve ficar abaixo da faixa de radar, deve ser essencialmente invisível para o governo; o dossiê dos espiões sobre você deve dizer ‘Sr. Mediano’ e ser inteiramente inofensivo. Aí você deve ter uma ou mais alter egos para seus interesses reais”, escreveu em janeiro de 1998.

O alter ego escolhido por Satoshi era japonês. Coincidentemente ou não, Back havia demonstrado interesse pelo país em 1997, quando um Cypherpunk japonês publicou na lista sobre a criação do primeiro remailer do Japão.

“Parabéns por iniciar um remailer numa nova jurisdição!”, respondeu Back. “Fazer ‘shopping’ de jurisdições é bom também — fico imaginando o que o Japão oferece como oportunidade de jurisdição — há coisas que são legais no Japão e não são na Europa ou nos EUA?”

O Cypherpunk japonês não respondeu. Mas isso não teria impedido Back de mais tarde fazer uma pesquisa por conta própria. Se ele a fez, pode ter esbarrado numa empresa com endereço em Tóquio chamada Anonymousspeech LLC, que oferecia e‑mail e hospedagem de sites anônimos. Satoshi usou os serviços da empresa para registrar o site bitcoin.org e criar duas contas de e‑mail sem rastros.

Em 1999, Back se mudou para Montreal para trabalhar numa startup especializada em softwares de privacidade. Lá, ajudou a construir um sistema chamado Freedom Network, que permitia aos usuários navegar na internet anonimamente. Era um precursor da Onion Router, rede mais conhecida pela sigla Tor, que anonimiza o tráfego na internet. Há um consenso amplo na comunidade do bitcoin de que Satoshi usou o Tor para esconder suas pegadas.

Assim como o bitcoin, a Freedom Network era um sistema distribuído de computadores. Back e colegas tentaram torná‑la imune ao monitoramento de governos e corporações.

Essa era outra característica que ele tinha em comum com Satoshi, cujos posts no Bitcointalk revelam profundo conhecimento de segurança de redes e de como blindar sistemas contra vulnerabilidades. A rede do bitcoin é amplamente admirada pela capacidade de resistir a tentativas de invasão.

Napster vs. Gnutella

Depois de vários meses nos abismos dos arquivos dos Cypherpunks, às vezes eu perdia a noção de onde estava na minha pesquisa e seguia pistas falsas por becos estranhos. Ao responder a uma das primeiras críticas ao seu white paper na Cryptography list, Satoshi escreveu: “Na verdade, eu não fui tão forte quanto poderia nessa afirmação.” Achei que já tinha visto essa frase antes e passei diversas noites vasculhando centenas de posts dos anos 1990 que já havia lido. Logo ficou claro que eu tinha imaginado a semelhança.

Mas a releitura não foi totalmente em vão. Outras semelhanças entre Back e Satoshi começaram a se tornar evidentes. Por exemplo, ambos compartilhavam um desgosto por copyright.

“Acabem com patentes e copyright”, escreveu Back em setembro de 1997.

Fiel a essa crença, Back tornou o software do Hashcash contra spam de código aberto.

Satoshi fez algo parecido. Ele publicou o software do bitcoin sob a licença de código aberto do Massachusetts Institute of Technology (MIT), o que permitia a qualquer pessoa usar, modificar e distribuir o código sem restrições.

No espírito de construir algo em domínio público, Back e Satoshi também criaram mailing lists específicas para suas criações — a lista Hashcash e a lista bitcoin‑dev — onde publicavam atualizações de software listando novos recursos e correções de bugs em formato e estilo surpreendentemente semelhantes.

O viés anti‑copyright de Satoshi, muito ao estilo de Back, apareceu também em outras ocasiões. Ele renunciou explicitamente ao copyright quando compartilhou imagens de um logotipo do bitcoin que desenhara no Bitcointalk e incentivou qualquer um que quisesse aprimorá‑lo a “tornar seus gráficos de domínio público”.

No início dos anos 2000, a aplicação das leis de copyright virou assunto de destaque quando o popular serviço de compartilhamento de arquivos Napster foi fechado após ser processado pelas grandes gravadoras. O Napster era um software peer‑to‑peer, no qual usuários compartilhavam conteúdo diretamente entre si sem necessidade de um intermediário corporativo.

Back ficou indignado. Compartilhou na lista dos Cypherpunks um artigo escrito por um advogado especializado em propriedade intelectual, que detalhava todas as ameaças legais enfrentadas pelos criadores de softwares peer‑to‑peer.

“Minha conclusão depois de ler isso”, escreveu Back, “é que a coisa mais simples e segura a fazer é publicar esse tipo de software anonimamente.”

O bitcoin, como o Napster, era um software peer‑to‑peer. Substitua o governo pelas gravadoras e o cenário seria similar. Se a identidade do criador fosse revelada, os procuradores saberiam a quem processar. Se permanecesse oculta, não haveria ninguém a ser acionado na Justiça. Se Back e Satoshi fossem a mesma pessoa, isso ajudaria a explicar por que Satoshi optou por se esconder.

As gravadoras estavam apenas defendendo seus interesses comerciais. O governo teria uma agenda diferente — proteger seu monopólio sobre o dinheiro.

Assim como Back, Satoshi via o fim do Napster como um alerta.

Satoshi Nakamoto: “Governos são bons em cortar a cabeça de redes centralizadas como o Napster, mas redes puramente peer‑to‑peer como Gnutella e Tor parecem se sustentar.”

Ele aludia ao fato de que, embora os usuários trocassem músicas diretamente, o Napster ainda usava um servidor central para manter a lista do que estava disponível e quem tinha o quê. Já o Gnutella, outro serviço de compartilhamento de arquivos, rodava sobre uma rede de computadores independentes espalhados pelo planeta, assim como o bitcoin.

Isso levava a outra coincidência fascinante. Em um post de maio de 2000, Back havia feito exatamente a mesma comparação entre Napster e Gnutella:

Adam Back: “O Gnutella tem muito mais chances de sucesso porque os servidores do Napster, por serem centrais, podem ser fechados. O Gnutella basicamente não pode ser derrubado.”

Back não fez essa comparação apenas uma vez. Fez três vezes na lista dos Cypherpunks.

II. Roteiro Enterrado

Esboçando o Bitcoin Uma Década Antes do Bitcoin

Todas essas semelhanças eram intrigantes, mas eu ainda não tinha nada que ligasse diretamente Back à criação do bitcoin. Isso mudou quando descobri um conjunto de posts que Back escreveu na lista dos Cypherpunks entre 1997 e 1999, uma década antes do lançamento da criptomoeda.

Em 30 de abril de 1997, ele sugeriu criar um sistema de dinheiro eletrônico “totalmente desconectado” da rede bancária moderna, que teria quatro características essenciais: preservaria a privacidade tanto do pagador quanto do recebedor; seria distribuído por uma rede de computadores para torná‑lo difícil de derrubar; teria escassez embutida para evitar inflação excessiva; e não exigiria confiança em nenhuma pessoa ou banco. Para conseguir isso, sugeriu, dois dias depois, um quinto componente: um protocolo publicamente verificável.

Todos esses cinco elementos se tornariam centrais para o bitcoin.

Quatro meses depois, Back voltou ao tema do dinheiro eletrônico, introduzindo uma nova característica baseada em teoria dos jogos.

“Uma aplicação na qual tenho pensado um pouco é a ideia de criar um sistema bancário distribuído”, escreveu. “Idealmente, é um sistema em que todos os nós são equivalentes e k de n desses nós precisam agir em conluio para comprometer a operação do banco.”

Back fazia referência ao Problema dos Generais Bizantinos, um desafio clássico da ciência da computação que atormenta sistemas descentralizados. Na analogia, “n” generais cercam uma cidade inimiga; para um ataque bem-sucedido, todos precisam combinar de atacar ao mesmo tempo, mas um subconjunto “k” de generais pode ser traidor e sabotar o plano. O mesmo se aplica a redes distribuídas: elas podem ser sabotadas por participantes maliciosos, ou nós, dentro da própria rede.

Back queria criar uma rede de dinheiro eletrônico com tantos nós, em tantos lugares diferentes, que ninguém com intenção de sabotagem conseguiria reunir conspiradores suficientes.

Isso soava muito parecido com o sistema que Satoshi descreveu em seu white paper onze anos depois: o bitcoin funcionaria, escreveu Satoshi, “desde que a maior parte do poder de CPU seja controlada por nós que não estejam cooperando para atacar a rede”.

No post de 1997 na lista dos Cypherpunks, Back escreveu sobre nós que poderiam “entrar e sair” sem afetar a operação da rede. No white paper, Satoshi escreveu que os nós podiam “deixar e retornar à rede à vontade”.

A formulação era um pouco diferente, mas não era preciso ser um criptógrafo brilhante para ver que Back e Satoshi propuseram conceitos praticamente idênticos.

Em 6 de dezembro de 1998, Back voltou ao tema do dinheiro eletrônico depois que outro Cypherpunk, Wei Dai, apresentou uma ideia própria, chamada b‑money. Como o youtuber Barely Sociable observou em seu vídeo de 2020, Back se concentrou na proposta de Dai.

O b‑money usava criptografia de chave pública para anonimizar as contas dos usuários, preservando a privacidade de pagadores e recebedores — exatamente o que Back imaginara. E tinha outra característica de que Back gostou.

Um problema para qualquer um tentando criar uma moeda digital é decidir como cunhar novas moedas. Dai propôs um sistema no qual usuários que resolvessem um problema computacional seriam recompensados com b‑money recém‑emitido.

O Hashcash de Back fazia algo muito parecido: recompensava usuários que resolvessem problemas computacionais com permissão para enviar e‑mails. Back sugeriu reaproveitar o Hashcash como mecanismo para cunhar as moedas de Dai.

Isso era significativo porque Satoshi citou Dai no white paper e depois descreveu o bitcoin como “uma implementação da proposta de b‑money de Wei Dai”.

Quando parei para pensar, isso era impressionante: exatamente como Back propôs em 1998, Satoshi combinou os conceitos de Hashcash e b‑money para criar o bitcoin. Quais eram as chances?

Não parou aí. Nos comentários que fez sobre o b‑money em dezembro de 1998, Back antecipou a solução de Satoshi para a inflação.

Qualquer moeda eletrônica cunhada por meio de problemas computacionais teria tendência a sofrer inflação descontrolada, porque, conforme chips de computador ficassem mais poderosos, seria cada vez mais fácil resolver os problemas e emitir novas moedas. Para contornar isso, Back sugeriu que a cunhagem de uma moeda de b‑money deveria “exigir mais esforço computacional com o passar do tempo”.

Foi exatamente assim que Satoshi desenhou o software do bitcoin. Ele o programou para que cada novo bloco de transações levasse, em média, 10 minutos para ser minerado, e criou um algoritmo que aumentava a dificuldade dos problemas quando chips mais rápidos começassem a reduzir esse intervalo.

Como se todas essas intuições precoces não bastassem, Back propôs outro conceito crucial em abril de 1999. Para que um sistema de dinheiro eletrônico distribuído funcionasse, era preciso haver um registro público e imutável de todas as transações no tempo. Do contrário, um usuário poderia gastar a mesma moeda duas vezes, mergulhando o sistema no caos.

A solução de Back envolvia o uso de “árvores de hash” — estruturas que condensam grandes quantidades de dados em uma única “impressão digital” — e a publicação dessas impressões digitais em anúncios classificados do New York Times.

Satoshi usou a mesma ideia no bitcoin, mas substituiu o componente dos classificados por Hashcash: a prova de trabalho que registra o momento do bloco ao tornar as operações de empacotamento de transações em blocos tempo‑consumidoras e custosas demais para serem falsificadas.

Back chegou até a antecipar a reação de Satoshi a uma das principais críticas ao bitcoin: seu elevado consumo de energia elétrica.

Ele argumentou, em 1998 e 1999, que a energia consumida pela combinação de Hashcash e b‑money provavelmente seria menor do que a consumida pelo sistema bancário tradicional. Quando um dos primeiros leitores do white paper levantou a mesma questão uma década depois, Satoshi respondeu de forma semelhante.

Em resumo: Back havia imaginado quase todos os aspectos do bitcoin — e usado a mesma justificativa que Satoshi para relativizar seu maior defeito — dez anos antes da criação da criptomoeda.

Silêncio no Rádio

Um mês depois do nosso encontro em Vegas, enviei um e‑mail a Back com algumas perguntas sobre seu histórico profissional e sobre o motivo de ele ter se mudado para Malta em 2009. Não disse por que perguntava aquilo, mas alguns membros da comunidade do bitcoin já haviam apontado que o paraíso fiscal europeu seria o lugar ideal para Satoshi e seu tesouro de bitcoins.
Back respondeu no dia seguinte — educadamente, mas demonstrando ter plena noção das implicações do meu questionamento. Disse que se mudara para Malta por diversos motivos, incluindo custo de vida, clima e, sim, impostos. “Bitcoiners adoram investigar, mas coincidências acontecem e não necessariamente significam algo”, escreveu.
Ele claramente sabia o que eu estava tentando fazer. Era hora de ir um pouco mais fundo, abordando algo que vinha me incomodando.
Satoshi havia citado tanto o Hashcash quanto o b‑money em seu white paper. Mas os e‑mails que Back apresentou no julgamento de Craig Wright, o impostor australiano, sugeriam que Satoshi ainda não conhecia o b‑money em agosto de 2008, quando o procurou para conferir se citava corretamente o artigo do Hashcash. Só depois de Back apontar o site de Dai, segundo os e‑mails, é que Satoshi teria incluído a referência ao b‑money no white paper.
Aquilo não fazia sentido para mim. O artigo de Back sobre o Hashcash discutia explicitamente o b‑money como aplicação possível da sua invenção. Presumindo que Satoshi tivesse lido o artigo que pretendia citar, ele teria necessariamente tomado conhecimento do b‑money.
Back reconheceu essa contradição em 2020. Depois de sugerir, no X, que Satoshi poderia ser um Cypherpunk anônimo que postara sobre dinheiro eletrônico, outro usuário questionou sua teoria, observando que o Cypherpunk anônimo havia mencionado o b‑money e que Satoshi só soube do b‑money muitos anos depois, a partir do próprio Back.
Sim, respondeu Back, mas Satoshi poderia ter mentido para ele e fingido que não conhecia o b‑money. “Se o Satoshi conhecesse uma citação muito obscura (página da web postada nos Cypherpunks em discussão de ecash), talvez ele preferisse não citá‑la para evitar triangulação?”, escreveu.
Alguém como Back, que era um dos apenas seis usuários identificados que haviam discutido o b‑money nas listas dos Cypherpunks e da Cryptography — e que mencionara o termo pelo menos 60 vezes — talvez tivesse interesse especial em evitar esse tipo de triangulação.
Quanto mais eu pensava nisso, mais suspeito ficava de que Back teria escrito os e‑mails “Satoshi‑para‑Back” a si mesmo, num esquema elaborado para desviar suspeitas.
Decidi, então, pedir a Back os metadados desses e‑mails. Metadados são para um e‑mail o que um envelope, um carimbo e um lacre são para uma carta física: mostram de onde ela veio, quando foi enviada e se foi alterada. As cópias das trocas entre Back e Satoshi divulgadas no julgamento de Wright não incluíam essas informações.
Eu não tinha grandes esperanças de que os metadados revelassem algo útil, porque Satoshi usou um serviço de e‑mail anônimo registrado em Tóquio, que mascararia seu endereço IP. Além disso, provavelmente havia acessado o serviço via Tor, adicionando uma camada extra de proteção. Ainda assim, eu queria ver os metadados, na remota hipótese de encontrar algum indício.
Mas, quando mandei o pedido, Back não respondeu. Eu não sabia se estava sendo ignorado ou se ele simplesmente estava ocupado, e não queria assustá‑lo mandando um e‑mail de acompanhamento imediatamente. Esperei oito dias para escrever de novo. De novo, silêncio.
Eu claramente tinha tocado em um nervo exposto. Mas por quê? Com as precauções que Satoshi tomara, o que haveria para esconder? A menos que Satoshi tivesse cometido algum tipo de erro?
Satoshi Aparece, Back Desaparece
Depois de revelar o bitcoin no Halloween de 2008, Satoshi passou os dois anos e meio seguintes aprimorando o sistema com a ajuda de um punhado de entusiastas, que contribuíam com sua expertise em engenharia de software. Satoshi se coordenava regularmente com esse grupo, que ficaria conhecido como os desenvolvedores do Bitcoin Core, no Bitcointalk e por e‑mail. Então, como se sabe, ele desapareceu em 26 de abril de 2011.
Back, ao que tudo indicava, seguiu o mesmo padrão — mas ao contrário.
Por mais de uma década, sempre que o assunto era dinheiro eletrônico nas listas Cypherpunks ou Cryptography, Back quase sempre entrava na conversa, muitas vezes com posts longos e detalhados. Mas, quando o bitcoin — a manifestação mais próxima da visão que ele próprio havia traçado — surgiu, Back estava inexplicavelmente ausente.
Anos depois, em dezembro de 2013, ele contou uma história bem diferente no podcast “Let’s Talk Bitcoin”. Back disse ao apresentador que ficara “muito interessado tecnicamente” no bitcoin quando ele apareceu e que havia “participado” da discussão que o white paper provocara na Cryptography list.
Vasculhei as mensagens da lista em busca de qualquer vestígio dessa participação no fim de 2008 e início de 2009 e não encontrei nada. Na verdade, Back continuou ignorando completamente o bitcoin até junho de 2011, quando fez seu primeiro comentário público sobre o assunto — seis semanas após o sumiço de Satoshi.
Esse defensor eloquente do dinheiro eletrônico, que havia proposto ideias quase idênticas às do bitcoin, demonstrava pouco ou nenhum interesse pela criptomoeda por anos.
Mas, quando finalmente mergulhou de cabeça, coincidiu com um novo desenvolvimento que certamente chamaria a atenção de Satoshi. Em 17 de abril de 2013, o criptógrafo argentino Sergio Demian Lerner publicou um texto de blog revelando a fortuna atribuída a Satoshi. Naquele mesmo dia, Back entrou no Bitcointalk.
Depois que Lerner publicou um segundo post uma semana mais tarde, Back comentou: “Acho que, se você sentir que está chegando perto demais, talvez seja melhor parar, no interesse do Nakamoto…”
Subitamente, “All In”
De repente, Back estava totalmente envolvido. Em poucas horas após se apresentar no Bitcointalk, já sugeria melhorias sofisticadas no sistema. Em duas semanas, exigia que a Wikipédia restaurasse a página independente de Satoshi Nakamoto, que havia sido apagada e mesclada à entrada do bitcoin. Em dezoito meses, fundaria a startup Blockstream, para construir ferramentas que tornassem a rede do bitcoin mais fácil de usar, mais rápida e mais privada.
Era o início de uma era em que Back acumulou rapidamente influência e se tornou uma espécie de líder de fato na comunidade ainda pequena do bitcoin. Para montar a Blockstream, ele tirou os principais desenvolvedores do Bitcoin Core de seus empregos em empresas como Google e Mozilla, conquistando enorme poder sobre a criptomoeda. Também ficou muito rico: ao longo dos doze anos seguintes, a Blockstream e afiliadas levantariam 1 bilhão de dólares em financiamento, e a empresa chegaria a um valuation de 3,2 bilhões.
Tudo isso parecia compatível com o que Satoshi poderia fazer se decidisse reaparecer sob seu nome verdadeiro, reassumindo o controle da sua criação.
No outono de 2014, Back e colegas da Blockstream publicaram um white paper sobre uma inovação concebida por ele, chamada “sidechains com paridade fixa” (pegged sidechains).
O artigo, no qual Back era o autor principal, mencionava a DigiCash. Fundada pelo criptógrafo David Chaum no fim dos anos 1980, a DigiCash criou uma moeda eletrônica pioneira que, ao contrário do bitcoin, dependia de um servidor central de propriedade da empresa. Quando a DigiCash faliu, em 1998, a moeda desapareceu junto com ela.
“Essa exigência de um servidor central tornou‑se o calcanhar de Aquiles da DigiCash”, dizia a introdução do paper.
Era exatamente assim que Satoshi havia descrito as falhas da DigiCash cinco anos antes: “É claro que a maior diferença é a ausência de um servidor central. Esse era o calcanhar de Aquiles dos sistemas de Chaum”, escreveu.
No ano seguinte, em 2015, a comunidade do bitcoin se dividiu em torno de uma proposta para aumentar o tamanho dos blocos. Um grupo liderado pelos desenvolvedores Gavin Andresen e Mike Hearn queria blocos muito maiores, capazes de sustentar mais transações. Mas isso era controverso porque blocos maiores exigiriam que os usuários que rodam nós da rede tivessem hardware mais potente e conexão de internet mais rápida. Se o custo de manter um nó ficasse alto demais, os usuários seriam forçados a desligá‑los, deixando o controle da rede nas mãos de alguns grandes data centers. Isso ameaçaria a segurança do sistema, pois os data centers poderiam conspirar para assumir o controle do livro‑razão.
Back se opôs com veemência ao aumento do tamanho dos blocos. Numa série de posts na lista bitcoin‑dev, alertou contra a proposta de Andresen e Hearn em tom cada vez mais duro.
Então, do nada, Satoshi reapareceu na lista com um e‑mail que se alinhava perfeitamente à posição de Back. Era a primeira vez que se ouvia falar de Satoshi em mais de quatro anos, exceto por um post de cinco palavras no ano anterior, em que ele negava uma reportagem da Newsweek que afirmava tê‑lo desmascarado.
Muita gente na comunidade questionou a autenticidade do novo e‑mail, já que uma outra conta de Satoshi havia sido hackeada. Mas Back defendeu que a mensagem parecia verdadeira. Em uma sequência de tuítes, chamou as observações de Satoshi de “perfeitas” e “compatíveis com a visão de Satoshi, na minha opinião” e passou a citar trechos do texto.
Back provavelmente tinha razão: até hoje, não há evidência de que o e‑mail seja falso, e nenhuma outra mensagem suspeita saiu daquela conta.
O e‑mail de Satoshi soava muito parecido com os posts de Back, mas ninguém notou. Assim como Back, Satoshi argumentava que a crescente centralização da rede comprometia a segurança. Chamava a proposta de blocos grandes de “muito perigosa” — a mesma palavra que Back repetira. Também usava outros termos e expressões familiares em Back: “consenso amplo”, “regras de consenso”, “técnico”, “trivial” e “robusto”.
Ao fim do e‑mail, Satoshi denunciava Andresen e Hearn como dois desenvolvedores imprudentes tentando sequestrar o bitcoin com táticas populistas, e acrescentou: “Tem sido muito decepcionante ver essa situação se desenrolar.”
Quatro dias depois, em meio a um post na mesma thread, Back escreveu: “Muito decepcionante, Gavin e Mike.”

III. Apertando o Cerco
Teorias Alternativas
Eu precisava testar minha teoria até o limite. Tarde da noite, na cama, ou no banho, logo cedo, tentava pensar em motivos que pudessem provar que eu estava errado. Um argumento apresentado no livro “The Mysterious Mr. Nakamoto”, sobre a busca longa e inconclusiva do jornalista Benjamin Wallace por Satoshi, era que Back seria um absolutista da privacidade, enquanto os recursos de privacidade do bitcoin eram fracos.
À primeira vista, isso parecia convincente. Mas, em vez de descartar o bitcoin, como fizeram outros Cypherpunks obcecados por privacidade, Back passou a última década na Blockstream desenvolvendo inovações para reforçar justamente a privacidade do bitcoin, o que, a meu ver, enfraquecia esse argumento.
No X, Back levantou outro argumento para negar ser Satoshi: disse que fez muitas perguntas “idiotas” no canal #bitcoin‑wizards, no IRC, quando entrou pela primeira vez na comunidade.
O canal #bitcoin‑wizards era uma sala de bate‑papo na internet onde os desenvolvedores do Bitcoin Core — os “magos” — discutiam correções de bugs e melhorias no software.
Li os registros do canal e encontrei pouca evidência de um iniciante perdido. Pelo contrário: fiquei impressionado com o quão afinado Back parecia estar com as vulnerabilidades do bitcoin e com a rapidez com que sugeria formas de reforçar o sistema, poucas semanas depois de se envolver mais a fundo. Algumas de suas ideias para aprimorar o protocolo eram tão sofisticadas que passavam por cima da compreensão de outros “magos”.
Notei também que Back era mordaz ao falar de outras criptomoedas, chegando a escrever que queria “matar todas elas”.
E quanto a outros suspeitos frequentes de serem Satoshi? Havia alguém que se encaixasse no perfil melhor do que Back? Uma matéria de 2015 neste jornal defendeu a tese de que Satoshi seria Nick Szabo, cientista da computação americano de ascendência húngara que, em 1998, propôs uma ideia semelhante ao bitcoin, chamada “bit gold”. Szabo permaneceu durante anos no topo da lista de muitos, mas um debate acalorado no X sobre uma atualização proposta para o software Bitcoin Core expôs, recentemente, sua ignorância sobre aspectos técnicos básicos da criptomoeda.
Hal Finney e Len Sassaman, engenheiro de software e ativista da privacidade, eram outros dois suspeitos recorrentes.
Um problema com a hipótese de Finney, porém, era que ele foi fotografado correndo uma prova de 10 milhas em abril de 2009, no exato momento em que Satoshi enviava e‑mails e bitcoins para outra pessoa. Um problema ainda maior: Finney e Sassaman estavam mortos quando Satoshi fez sua última aparição, em agosto de 2015. Finney morreu de ELA em 2014; Sassaman morreu por suicídio em 2011.
Quanto ao escolhido da HBO, Peter Todd, o cerne da evidência no documentário era um tópico do Bitcointalk, de 2010, em que Todd corrigia Satoshi num ponto técnico. O filme especulava que o post de Todd seria, na verdade, Satoshi terminando seu próprio raciocínio. Isso exigiria acreditar que Satoshi, mestre em segurança operacional na internet, teria cometido o erro mais básico possível: logar por engano com seu nome verdadeiro.
Também havia o fato de que Todd teria apenas 23 anos quando o white paper do bitcoin foi publicado — muito jovem para resolver um desafio que resistira a mentes mais velhas e experientes em criptografia. Além disso, após a exibição do documentário, Todd mostrou à revista Wired fotos dele esquiando ou fazendo exploração em cavernas justamente em dias e horários em que Satoshi escrevia no Bitcointalk.
Alguns especularam que o bitcoin não teria sido criado por uma pessoa, mas por um grupo. Também não comprava essa teoria. Quanto mais gente sabe de um segredo, mais provável é que ele vaze. E o segredo de Satoshi permaneceu hermético por 17 anos.
“Melhor com Código do que com Palavras”
Back ainda me parecia o candidato mais provável. Mas, nesse ponto, isso já não me bastava. Fui à caça de evidências mais forenses.
Navegando pelos arquivos dos Cypherpunks um dia, notei uma semelhança que quase me fez saltar da cadeira.
Quando Satoshi sugeriu a Finney que libertários abraçariam o bitcoin se conseguissem explicá‑lo direito, acrescentou: I’m better with code than with words though (“Sou melhor com código do que com palavras, no entanto”).
Back expressou o mesmo sentimento, com linguagem semelhante, ao debater com outro Cypherpunk sobre anonimato e liberdade de expressão: Personally I think I’m better at coding, than constructing convincing arguments (“Pessoalmente, acho que sou melhor em programar do que em construir argumentos convincentes”).
Quanto mais eu examinava, mais semelhanças de escrita surgiam.
Assim como Satoshi, Back usava dois espaços entre frases, um hábito datilográfico antigo que sugere alguém com mais de 50 anos. Back tem 55.
Satoshi usou, famosamente, a blasfêmia britânica “bloody” ao reclamar, no Bitcointalk, de como era difícil explicar sua invenção para o público geral. Em vários posts no X, em outubro de 2023, Back insistiu que nunca usara esse termo: “tente no Google e veja você mesmo, não é uma palavra que eu use.”
Mas encontrei um post de 1998 na lista dos Cypherpunks em que Back usou “bloody” para expressar irritação com os banners de propaganda na internet: “está ficando ridículo, a maior parte da banda do meu fiel modem de 28,8k é de bloody banners hoje em dia!”
Por que negar de forma tão categórica o uso de uma palavra que, de fato, havia usado, se não tivesse nada a esconder?
A maneira mais confiável de identificar autores é por meio da estilometria, que mede a frequência e a distância entre palavras funcionais como “the”, “and”, “of” e “to”, para estabelecer uma “impressão digital” estilística.
Em 2022, Florian Cafiero, linguista computacional da École nationale des chartes, na França, usou essa técnica para ajudar o New York Times a identificar os dois responsáveis pelo movimento QAnon. Mas Cafiero já havia tentado, sem sucesso, identificar Satoshi para o livro de Wallace.
Achando que ele pudesse ter deixado algo escapar, pedi que tentasse de novo, e ele topou.
Back estava entre os suspeitos considerados na primeira tentativa. Mas a análise ficara prejudicada pelo fato de que a maioria dos artigos acadêmicos de Back era assinada em coautoria com outros criptógrafos, o que tornava difícil saber quem realmente escrevera o quê. Desta vez, Cafiero descartou os artigos em coautoria e selecionou apenas o paper do Hashcash e a tese de doutorado de Back. Em seguida, adicionou esses textos a um conjunto de artigos acadêmicos de 11 outros suspeitos — entre eles Finney, Szabo, Sassaman e Todd.
Cafiero estava ocupado com suas aulas e outros projetos, então levou cerca de seis semanas para ter uma resposta. A cada poucos dias, eu mandava uma mensagem pelo Signal para saber se havia algum progresso. Tentava controlar minhas expectativas, mas a animação só crescia.
O veredito chegou por texto numa manhã de fim de julho: depois de comparar os textos dos 12 suspeitos com o white paper do bitcoin, o programa de estilometria de Cafiero indicou Back como o mais próximo de Satoshi. Mas não era um encaixe perfeito, e Finney aparecia em segundo lugar, muito próximo. Na verdade, a diferença entre os dois mal se distinguia, disse ele, e o resultado geral precisava ser considerado inconclusivo.
Fiquei olhando para a tela do celular, incrédulo. Era como se alguém tivesse colocado um mousse de chocolate na minha frente e o puxado de volta antes que eu pudesse provar.
Percebendo minha frustração, Cafiero alterou a forma de calcular a “distância” entre os textos dos 12 suspeitos e o white paper. O resultado foi o oposto do que eu esperava: outros candidatos ultrapassaram Back. Cafiero disse que também considerava esses novos resultados inconclusivos.
Depois de oito meses de apuração e incontáveis horas obcecado com a identidade de Satoshi, eu achava que estava perto de resolver o mistério. Agora, ele parecia escapar novamente.
Ortografia e Gramática
Apesar de tudo, eu tinha uma boa ideia de qual era o problema. Cafiero me dissera várias vezes que, se Satoshi compreendesse bem a estilometria, seria fácil alterar o estilo de escrita para se proteger dela.
Não passou despercebido que, num tuíte de 2020, Back descreveu o texto de Satoshi como “conciso e focado” e sugeriu que ele teria minimizado “excessos emocionais, adjetivos desnecessários e conversas paralelas” para reduzir o risco de ser identificado por análise estilométrica. Satoshi e Back claramente sabiam alguma coisa sobre o assunto.
De fato, Back passou bastante tempo pensando em como driblar a análise de escrita.
“Tenho pensado nesse problema de tempos em tempos”, escreveu, no outono de 1998, observando que escritores que usam pseudônimos são particularmente vulneráveis se já publicaram muito sob o nome real. Sugeriu criar um construtor de frases de múltipla escolha, com um menu suspenso de substantivos, verbos e adjetivos, que tornaria mais difícil detectar idiossincrasias de estilo.
Com isso em mente, resolvi tentar uma abordagem diferente, focada em ortografia e gramática. Back cometia muitos erros de digitação e escrevia de maneira prolixa nas listas, enquanto a prosa de Satoshi era enxuta e em grande parte livre de erros. Ainda assim, depois de ler todo o corpus conhecido de Satoshi diversas vezes e de enfrentar mais de mil posts de Back nas mailing lists, percebi alguns tiques em comum.
Back confundia com frequência “it’s” e “its”, e tinha o hábito de colocar “also” no fim das frases. Encontrei cinco ocorrências de cada tique nos textos de Satoshi.
Ambos também pareciam incapazes de usar hífens corretamente. Assim como Back, Satoshi tendia a acrescentar hífens onde eles não eram necessários e a omiti‑los quando eram. Por exemplo: escrevia o substantivo composto “double‑spending” com hífen, mas os adjetivos compostos “hand tuned”, “full blown”, “would be” e “file sharing” sem hífen — exatamente como Back.
Satoshi e Back não costumavam hifenizar adjetivos compostos formados por um substantivo ligado a “based”, como nesta frase de Satoshi: “No modelo mint based, a casa da moeda tinha conhecimento de todas as transações…”
Os dois também às vezes hifenizavam certas palavras e expressões, e às vezes não. Por exemplo, alternavam entre “e‑mail” e “email”, “built‑in” e “built in”, “off‑line” e “offline”, “pre‑compiled” e “precompiled”, “to‑do list” e “to do list”. Ambos escreviam ora “electronic cash” por extenso, ora “e‑cash” abreviado.
Assim como Back, Satoshi alternava “cheque” e “check” na grafia inglesa/americana e também as formas inglesa e americana da palavra “optimize/optimise”. Ambos às vezes escreviam “backup” e “bugfix” como uma palavra só (usando “backup” também como verbo) e, em outros casos, “half way” e “down side” como duas palavras, em vez de “halfway” e “downside”.
Quando apresentei esses padrões a Robert Leonard, especialista em linguística forense da Hofstra University, ele disse que eram exatamente o tipo de coisa em que prestava atenção ao tentar identificar um autor. Chamou esses padrões de “marcadores de variação sociolinguística” — impressões digitais linguísticas que ajudam a apontar a origem social, geográfica ou a formação profissional de quem escreve. Os mais reveladores são aqueles que só aparecem em um grupo pequeno de indivíduos ou são únicos de um autor. Encontrei pelo menos três no corpus de Satoshi que se encaixavam nessa descrição.
Os dois primeiros eram conceitos criptográficos que Satoshi escreveu de uma forma específica. Um deles era “proof of work”, termo cunhado por dois criptógrafos em um artigo de 1999 para descrever protocolos de quebra‑cabeça computacional como o Hashcash. Seguindo a gramática correta, os autores não hifenizaram a expressão, já que se tratava de um substantivo composto.
Mas Satoshi hifenizou. No white paper, ele escreveu repetidamente “proof‑of‑work” com hífens. Até então, apenas oito pessoas haviam usado o termo com hífens como substantivo composto nas listas dos Cypherpunks ou da Cryptography.
Para reduzir esse grupo, lembrei que Satoshi mencionara uma moeda virtual russa obscura, chamada WebMoney, em um e‑mail para Malmi. Depois de alguma investigação, descobri que apenas quatro pessoas haviam mencionado o WebMoney nas listas.
Comparei então esses quatro nomes com os oito que hifenizaram “proof‑of‑work”. Havia apenas uma interseção: Back.
Um número ainda menor de pessoas havia usado a expressão “partial pre‑image” antes de Satoshi empregá‑la na Cryptography list para explicar como funcionava a parte “Hashcash‑like” da mineração de bitcoins. As únicas duas que encontrei foram Finney e Back, também em relação ao Hashcash, com uma diferença crucial: Finney escrevia “preimage” numa palavra só, enquanto Back tendia a hifenizá‑la — exatamente como Satoshi.
O terceiro marcador linguístico em que me concentrei foi a expressão “burning the money”, usada por Satoshi ao discutir um recurso de escrow (depósito de garantia). Ele a empregou para se referir à destruição de bitcoins. Antes de Satoshi, apenas uma pessoa havia falado em “queimar” uma moeda eletrônica nas listas Cypherpunks ou Cryptography: Back, em abril de 1999.
De 34.000 a Um
Eu queria um método mais sistemático para analisar a escrita de Satoshi, então pedi ajuda a Dylan Freedman, jornalista da equipe de inteligência artificial do New York Times com experiência em análise computacional de textos.
Eu tinha convicção de que Satoshi fazia parte da comunidade criptográfica que se reunia nas listas dos Cypherpunks, Cryptography e Hashcash. Ele conhecia vários Cypherpunks, apresentou o white paper na Cryptography list e incorporou o Hashcash ao bitcoin. Decidimos reunir os arquivos das três listas e fundi‑los num grande banco de dados pesquisável.
Entre 1992 e 30 de outubro de 2008 — a véspera da primeira aparição de Satoshi — mais de 34 mil usuários postaram nas três listas. Como muitos eram spammers ou gente que só havia postado uma ou duas vezes, eliminamos todos com menos de 10 posts. O campo de candidatos caiu para 1.615.
Excluímos também usuários que nunca haviam discutido dinheiro digital. Isso nos deixou com 620 candidatos. Ao todo, essas 620 pessoas escreveram 134.308 posts.
Num mundo ideal, analisaríamos esse conjunto sem risco de viés nos resultados. A área de estilometria se orgulha dessa neutralidade, como Cafiero frequentemente lembrava. Mas a estilometria já tinha falhado conosco.
Um método alternativo era identificar todas as palavras do corpus de Satoshi que não tinham sinônimos e medir quais dos 620 suspeitos mais compartilhavam essas palavras. Palavras sem sinônimos tendiam a ser termos técnicos, o que eliminaria as mais comuns. Esse método ainda ajudaria a frustrar qualquer construtor de sentenças de múltipla escolha, como o sugerido por Back, já que termos sem sinônimos não podem ser substituídos facilmente.
Testamos a abordagem. Back saiu no topo da lista, com 521 palavras sem sinônimos em comum com Satoshi. Alguns outros Cypherpunks ficaram logo atrás, mas todos haviam escrito muito mais posts do que Back, o que o fazia sobressair ainda mais.
Em busca de evidências mais conclusivas, elaboramos outras duas abordagens baseadas no que eu havia apurado.
Primeiro, aprofundamos a análise dos erros de hifenização de Satoshi.
Para fins deste estudo, tomamos o manual de estilo do New York Times como referência de hifenização correta e alimentamos a seção de hífens num modelo de IA. Em seguida, pedimos ao modelo que escaneasse o corpus de Satoshi. Com a ajuda dele, identificamos 325 erros distintos de uso de hífen.
Ao comparar esses erros com os textos dos milhares de suspeitos, Back despontou como caso extremo. Ele compartilhava 67 erros de hifenização exatos com Satoshi. A segunda pessoa com mais coincidências tinha 38.
Voltando ao grupo dos 620 suspeitos, eu queria saber quantos deles apresentavam os outros tiques de escrita que eu havia notado nos textos de Satoshi.
Primeiro, filtramos os usuários que às vezes colocavam dois espaços entre frases, como Satoshi fazia. Isso eliminou 58 pessoas e deixou 562 candidatos.
(Nota: o trecho original continua em grandes detalhes metodológicos sobre como o conjunto é afunilado. O ponto central é que, sucessivamente, a combinação de termos raros, erros de hifenização, padrões de espaçamento, vocabulário técnico e “marcadores sociolinguísticos” vai afunilando o universo até deixar Back como o candidato com mais coincidências únicas.)

IV. Confronto
El Salvador
Eu ainda não tinha uma prova definitiva da identidade de Satoshi. Só ele poderia fornecê‑la, usando uma chave privada ligada a um dos primeiros blocos do bitcoin. Mas agora eu tinha um volume considerável de evidências.
Em meados de novembro, escrevi novamente para Back pedindo mais uma entrevista. Desta vez, fui direto: disse que havia concluído que ele era Satoshi e queria mostrar tudo o que tinha descoberto, dando a ele a chance de responder. Cheguei a me oferecer para voar até Malta. Mais uma vez, ele não respondeu.
Decidi então abordá‑lo pessoalmente em uma conferência de bitcoin na qual ele estava escalado para falar, em El Salvador, dois meses mais tarde.
Pousei na quente San Salvador no fim de janeiro com um plano. O painel de Back estava marcado para o segundo dia da conferência. Eu o abordaria então. Mas, no final da tarde do primeiro dia, vi que ele havia postado fotos suas no palco do evento em seu feed no X. Confuso e preocupado por ter perdido a chance, corri até o lounge dos palestrantes, achando que poderia encontrá‑lo lá. Os seguranças barraram a entrada, então me plantei perto da porta, olhando fixamente.
Meia hora depois, Back saiu. Fui até ele, me reapresentei e expliquei por que tinha ido. Ele pareceu um pouco desconcertado, mas, para minha surpresa, concordou em se encontrar comigo na manhã seguinte, no saguão do hotel em que estava hospedado — o mesmo local da conferência.
Quando cheguei ao horário combinado, Back estava ladeado por dois executivos de uma nova empresa de “tesouraria de bitcoin” que ele cofundara. Explicou que a companhia estava em processo de abertura de capital, o que o obrigava a ter mais cuidado com a imprensa.
Eu não fazia ideia desse novo desdobramento. Empresas de tesouraria de bitcoin tomam dinheiro emprestado para acumular bitcoins, dando aos investidores uma forma mais alavancada de apostar na criptomoeda. Back havia fundado a sua no verão anterior e estava prestes a fundi‑la com uma empresa de capital aberto criada pela Cantor Fitzgerald, firma de Wall Street antes liderada por Howard Lutnick, atual secretário de Comércio. Como CEO da companhia resultante, Back era obrigado, pela legislação de valores mobiliários dos EUA, a divulgar qualquer informação relevante para os acionistas. Uma reserva secreta de 1,1 milhão de bitcoins, com potencial de despencar o mercado caso fosse vendida de uma vez, certamente seria considerada relevante.
Enquanto eu absorvia esse complicador, nós quatro subimos para o quarto de hotel de Back. Ele parecia bronzeado e tranquilo, de camiseta preta e calça social preta.
Nas duas horas seguintes, apresentei minha evidência peça por peça. Num sotaque britânico suave, Back insistiu que não era Satoshi e atribuiu tudo a uma série de coincidências. Mas, em alguns momentos, sua linguagem corporal contava outra história. O rosto ficou vermelho, e ele se remexia desconfortável na cadeira diante dos pontos mais difíceis de explicar.
Por exemplo, Back não tinha uma boa resposta para o fato de ter desaparecido da Cryptography list justamente no período em que Satoshi estava ativo, além de dizer que estava ocupado com trabalho. Também não conseguiu explicar direito por que afirmara no podcast “Let’s Talk Bitcoin” que havia participado da discussão desencadeada pelo white paper em 2008, quando claramente não participou. Quando apertei em ambos os pontos, ele ficou na defensiva.
“Em última análise, isso não prova nada. E vou tranquilizá‑lo: realmente não sou eu”, disse em tom mais ríspido.
Quando apresentei os resultados das nossas análises de escrita, Back tentou encontrar uma justificativa, mas não conseguiu.
“Não sei”, disse. “Não sou eu, mas eu entendo o que você está dizendo, que é isso que a IA mostrou com esses dados. Mas ainda assim não sou eu.”
Back argumentou que era difícil provar um negativo. Ofereceu, porém, uma espécie de prova de que não poderia ser Satoshi: o fato de ter sido tão ignorante sobre o funcionamento do bitcoin quando entrou no canal #bitcoin‑wizards, no IRC, a ponto de achar que um endereço de bitcoin funcionava como um saldo de conta bancária, flutuante. (Na verdade, um endereço se assemelha mais a uma carteira física com cédulas; o troco de uma transação é composto por moedas digitais novas.)
O problema é que não havia qualquer registro desse mal‑entendido nos logs do canal. Quando apontei isso, Back fez pouco caso: “Seria hilário se eu tivesse alucinado isso.” (Mais tarde, por e‑mail, disse que a confusão poderia ter ocorrido em outro canal de IRC não registrado.)
Back negou ser Satoshi mais de meia dúzia de vezes, mas uma das formulações soou reveladora, depois que destaquei o fato de ele ter esboçado praticamente todos os aspectos do bitcoin anos antes da criação da moeda: “Claramente, eu não sou o Satoshi, essa é a minha posição.”
Aquilo soava mais como uma postura retórica do que como uma afirmação baseada em fato. Mas ele rapidamente se corrigiu: “E também é verdade, para o que isso vale.”
Back concordou comigo em alguns pontos. Reconheceu que tinha o histórico e o conjunto de habilidades certos para ser Satoshi. E admitiu que Satoshi provavelmente era britânico, tinha mais de 50 anos e provavelmente vinha dos Cypherpunks. Também aceitou a inconsistência que eu havia notado nos e‑mails que Satoshi teria mandado a ele: Satoshi teria necessariamente conhecido o b‑money se tivesse lido o artigo de Back sobre o Hashcash, concordou.
Mas negou que os e‑mails fossem um estratagema para desviar suspeitas. Isso seria mais convincente se ele tivesse concordado em mostrar os metadados das mensagens. No entanto, continuou ignorando o pedido.
Eu ainda tinha mais alguns pontos a confrontar, mas seus auxiliares disseram que ele tinha outros compromissos marcados. Descemos juntos de elevador até o saguão e apertamos as mãos como dois enxadristas após uma partida disputada.
Enquanto o via desaparecer no meio da multidão alegre da conferência, algo me incomodava. Por um instante, achei ter ouvido Back escorregar e dizer algo como se fosse o próprio Satoshi. Mas não conseguia lembrar exatamente o quê.
Quando voltei para Nova York, fui ouvir a gravação da entrevista. O momento veio à tona quando eu o guiava pelas semelhanças entre passagens escritas por ele e por Satoshi. Eu mencionei uma frase específica, e, antes que pudesse explicar por que a citava, Back me interrompeu.
Eu: Há uma frase que mencionei antes em que o Satoshi diz: “Sou melhor com código do que com palavras.”
Back: Eu, no entanto, falei bastante para alguém, quero dizer… Digo, não estou dizendo que sou bom com palavras, mas certamente falei pra caramba nessas listas, na verdade.
Aos meus ouvidos, soou como se ele estivesse dizendo que, para alguém que preferia código a palavras, ele realmente havia produzido muitas palavras. Implícito nisso estava o reconhecimento de que ele mesmo escrevera a frase. Em outras palavras, por alguns segundos, Back deixou a máscara cair e se tornou Satoshi.
Dias depois, enviei um e‑mail para confrontá‑lo com esse trecho. Ele negou que tivesse sido um deslize. “Eu só estava respondendo, de forma conversacional, a uma observação geral sobre como pessoas técnicas muitas vezes se sentem mais à vontade expressando ideias em código do que em prosa”, escreveu.
Mas eu havia sido claro: estava perguntando sobre uma citação específica de Satoshi, e suspeito que Back sabia disso.
Lembrei que, dez anos antes, Satoshi saíra do anonimato para ajudar Back a vencer a guerra sobre o tamanho dos blocos. E aqui estava Satoshi novamente, num hotel de luxo em El Salvador. Só que, desta vez, não ajudou tanto: ao falar em primeira pessoa, reforçou, para mim, a convicção de que eu havia encontrado o homem certo.

c.2026 The New York Times Company

[Fonte Original]

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