Em apenas 10 minutos de uso da IA, os participantes passaram a desistir mais facilmente das tarefas e tiveram desempenho significativamente pior quando a ferramenta foi retirada, em comparação com quem não usou a IA. E o efeito persistiu em diferentes tipos de atividades, do raciocínio matemático à compreensão de leitura.
Um outro estudo, de pesquisadores da Universidade de Corvinus, estimou que o uso irrestrito de IA pode reduzir em 20 a 40 pontos percentuais o conhecimento real dos estudantes. No experimento, os alunos usaram IA em provas e exercícios de resolução de problemas ao longo do semestre, mas quando foram avaliados sem a tecnologia em um teste básico de verdadeiro ou falso, o desempenho ficou próximo ao acaso.
Há, porém, uma nuance importante. O impacto não foi o mesmo para todos. Quem usou a IA para obter respostas diretas se saiu pior, mas quem a utilizou para pedir dicas ou explicações não demonstrou a mesma deterioração. Isso nos ajuda a entender que o problema não está na IA em si, mas no atalho que queremos pegar.
A tecnologia sempre moldou nossos comportamentos, atitudes e percepções. E um dos impactos mais interessantes está justamente na forma como as inovações alteram nossa percepção sobre o tempo e o esforço que demanda para realizar uma tarefa. O quanto a chegada do Uber em uma cidade muda o que consideramos razoável esperar por um carro? O quanto o Google reduziu nossa tolerância para encontrar uma informação? Em todos esses casos, a tecnologia acelerou processos externos, tanto do mundo físico quanto do informacional.
Mas a IA é diferente. Pela primeira vez, a tecnologia está acelerando o nosso próprio processo de pensar. E não sabemos medir bem o descompasso que surge quando a nossa capacidade de produção passa a superar a nossa capacidade cognitiva real. Do ponto de vista econômico e da lógica de produtividade, isso parece um ótimo ganho. Mas do ponto de vista do cérebro, a pergunta ainda não tem resposta.
Aqui a ciência cognitiva tem algo importante a dizer. Robert Bjork, professor de psicologia da UCLA, passou décadas estudando o que ele chamou de “dificuldades desejáveis”. É o nome dado para o esforço que parece trazer ineficiência no começo de uma tarefa, mas que é justamente o fator que consolida o aprendizado no longo prazo.