Em sua peregrinação para angariar votos, diminuir a rejeição e buscar apoio no Senado inclusive na oposição ao governo Lula, Jorge Messias se reuniu em dezembro do ano passado com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um dos maiores críticos à indicação do ministro da Advocacia-Geral da União ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Flávio já afirmou que a escolha de Lula foi “péssima” e que Messias possui um “perfil belicoso”, associado a “pautas da extrema-esquerda”. E mesmo agora, segundo o colunista Lauro Jardim, o filho 01 de Jair Bolsonaro tem dito no Senado que há 35 votos certos para rejeitar o ministro de Lula.
Mesmo assim, Flávio aceitou encontrar Messias num escritório de advocacia no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, como confirmaram quatro fontes ouvidas pelo blog em caráter reservado. No mesmo mês, ele anunciou a sua candidatura à Presidência da República.
Segundo relatos obtidos pelo blog, a conversa teria sido protocolar, já que Flávio e Messias não se conheciam pessoalmente ainda. Na ocasião, o senador questionou o ministro sobre a formalização da indicação, que ainda não tinha sido feita à época. E sugeriu que só decidiria seu posicionamento a respeito depois do envio do nome de Messias para apreciação do Senado – o que só foi feito no final de março.
Messias ainda pretende se reunir com outros parlamentares do bolsonarismo, como os senadores Sergio Moro (PL-PR) e Hamilton Mourão (Republicanos-RS), além do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Nenhum deles pretende votar no atual chefe da AGU, muito pelo contrário.
Em outubro do ano passado, Flávio havia dito ao blog que não pretendia se encontrar com Messias. “Eu não tenho por que recebê-lo, porque ele não vai me convencer de votar nele. Muito antes de ser evangélico, ele é um petista. É mais um que o Lula vai colocar lá no STF pra fazer o que ele mandar.”
Procurada pelo blog, a assessoria de Flávio não se manifestou até a publicação deste texto.
Para ter a indicação aprovada pelo plenário do Senado, Messias precisa de pelo menos 41 votos. A última vez que um indicado pelo presidente da República acabou barrado pela Casa foi em 1894, no governo Floriano Peixoto
Nas contas de Alcolumbre, que se opôs à candidatura do advogado-geral de Lula desde o início, Messias não teria mais do que 30 votos. É um número parecido com o que o próprio Flavio Bolsonaro vem trabalhando.
Já no mapeamento de votos de aliados do ministro, ele teria hoje 48 votos favoráveis — a conta inclui parlamentares evangélicos que não admitem publicamente, mas que não pretendem barrar as pretensões do chefe da AGU.
Messias é da Igreja Batista, e lideranças religiosas apostam que o ministro pode reforçar o “bloco conservador” do Supremo, barrando o avanço no tribunal da chamada “pauta de costumes”.
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA) tem garantido a interlocutores que o seu ex-chefe de gabinete tem os votos necessários para não ser derrotado no plenário.
Alcolumbre frustrou a tropa de choque bolsonarista ao destravar o andamento da sabatina de Messias, agendada para 29 de abril. É o que queriam aliados do ministro da AGU, que desejam resolver a questão o quanto antes, para afastar a contaminação eleitoral e os efeitos do escândalo do caso Master, que apavora a cúpula do Congresso e do Judiciário.
Entre aliados de Lula e ministros do Supremo, a avaliação é a de que quanto mais próxima a sabatina for das eleições, pior para Messias. “Mas talvez já haja contaminação eleitoral”, comentou um interlocutor de Messias.
Isso porque no pleito de outubro, ⅔ do Senado será renovado, com a expectativa de um aumento da bancada da direita, impulsionada pelo discurso anti-STF e pela bandeira do impeachment de ministros da Corte, o que pode respingar nas pretensões do chefe da Advocacia-Geral da União (AGU).
Integrantes da oposição, como Flávio Bolsonaro, por outro lado, pressionavam nos bastidores para empurrar a votação para depois das eleições, apostando numa derrota de Lula nas urnas e na possibilidade de reverter a indicação.
Em aceno aos bolsonaristas, Alcolumbre marcou para 30 de abril a sessão do Congresso que vai analisar se derruba o veto de Lula ao projeto da dosimetria, que poderia encurtar o tempo de Bolsonaro na prisão.