O abastecimento de um veículo representa o momento final do trabalho de uma cadeia complexa e integrada. O produto lançado sobre o tanque é resultado de um grande esforço entre diferentes players, muitos deles atuando a milhares de quilômetros do posto. Segundo uma análise realizada pela LCA Consultoria a partir dos dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), de cada 100 reais cobrados do motorista, R$ 61 cobrem os custos de produção e importação. Outros R$ 16, em média, são resultado do recolhimento de tributos, enquanto a mistura obrigatória de biocombustíveis responde por R$ 10. Distribuição e revenda somam os R$13 restantes. Dentro desta parcela, a fatia das distribuidoras é inferior à metade e alcança aproximadamente 5%.
O que significa que a maior parte do preço dos combustíveis está concentrada na etapa de produção e na cobrança de tributos. Os elos finais da cadeia, aqueles que o consumidor visualiza, têm uma participação muito menor, como explica Gustavo Madi, diretor da LCA Consultoria. “A parcela que fica com os distribuidores é relativamente pequena. Estas empresas operam com margens estreitas e precisam gerenciar diariamente o fato de que a produção é concentrada, mas o consumo é capilarizado. Com o que recebem, precisam acomodar todos os custos que suportam diariamente, tais como transporte, armazenamento, logística de abastecimento, manutenção de infraestrutura e capital de giro”.
Entre os muitos fatores que afetam o preço final está o cenário geopolítico. Em momentos de instabilidade internacional, como se vê neste momento, com o conflito no Irã, os preços tendem a subir e pressionar o valor final na bomba. Para o Brasil, que importa aproximadamente 30% do diesel que consome, o noticiário se torna fonte de preocupação. Afinal, além de impactar a composição dos valores cobrados nas bombas, dificuldades logísticas em pontos estratégicos, como o estreito de Ormuz, podem, no limite, colocar em risco o abastecimento do país.
O setor de distribuição atua de forma consistente para evitar este cenário extremo, segundo David Zylbersztajn, presidente do conselho de administração do Sindicom e ex-diretor-geral da ANP. “O setor de combustíveis é caracterizado pela interdependência profunda entre os diferentes atores, e choques externos repercutem com rapidez sobre toda a cadeia. A distribuição é o elo que exerce a função estratégica de conectar refinarias e importadores ao consumidor final, garantindo que a energia motora do país flua sem interrupções”, afirma. “O combustível mais caro é sempre aquele que falta. E o setor trabalha diariamente para que isso não aconteça”.
A complexidade para manter o abastecimento em um país de dimensões continentais exige um grande esforço logístico multimodal, que combina dutos, ferrovias, navios e caminhões. Manter essa engrenagem ativa 24 horas por dia demanda planejamento constante para superar gargalos e gerir estoques, como lembra Márcio Lago, professor de estratégia e precificação, pesquisador da FGV Energia e ex-Superintendente de Estudos Econômicos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas. “A logística envolve uma camada extra de complexidade, já que os principais produtores de combustíveis renováveis estão concentrados longe das maiores fontes fósseis. É preciso garantir as misturas obrigatórias, com rigor técnico e controle de qualidade permanente. Dado o tamanho do desafio, o setor é muito eficiente”.
Ao longo de mais de um século, o setor de distribuição no Brasil construiu experiência e capacidade para enfrentar períodos de grande complexidade e transformação. A atividade teve início no Brasil em 1912, para acompanhar o crescimento da frota de automóveis nas principais cidades. Surgido em 1941, o Sindicom acompanha a evolução do setor e lhe dá suporte em seus momentos mais desafiadores, incluindo a Segunda Guerra Mundial, a crise do petróleo da década de 1970, a hiperinflação brasileira dos anos 80, a crise econômica global de 2008 – e o momento atual, caracterizado pela incerteza.
As empresas distribuidoras de combustíveis e lubrificantes movimentam o equivalente a 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do comércio brasileiro — o que representa cerca de R$ 881 milhões — além de gerarem 447 mil empregos diretos e indiretos e uma arrecadação tributária que atingiu R$ 232 bilhões em 2025. Com essa força econômica, o setor alcança todos os 5.569 municípios do país e abastece aproximadamente 200 mil veículos por hora, totalizando 137 bilhões de litros por ano. As distribuidoras e os postos representam uma parcela pequena dos custos, e ao mesmo tempo exercem uma grande responsabilidade para garantir o abastecimento do país. São elas, inclusive, que atualmente garantem a importação do diesel necessário. Embora a Petrobrás concentre quase toda a oferta interna, a estatal não tem participado desse esforço de importação devido à alta do petróleo e ao conflito no Oriente Médio.
Na prática, o consumidor paga por uma soma de etapas que envolvem desde o refino ou importação até a chegada ao posto, com impactos relevantes também do câmbio e do preço do petróleo no exterior, como explica Zylbersztajn. Para o executivo, o fortalecimento de uma estabilidade nas regras de mercado é o que garante ao país a resiliência necessária para absorver choques internacionais. “Para compreender o impacto da crise no bolso do brasileiro, é fundamental analisar o mercado não como evento isolado no posto, mas como uma cadeia integrada. Compreender seu funcionamento é essencial para qualificar o debate público, evitar interpretações equivocadas e fortalecer a transparência e a previsibilidade no setor de combustíveis no Brasil”.