O paranaense Grupo GTFoods chegou a 2025 com faturamento acima de R$ 4 bilhões. Para mostrar seus planos daqui para a frente, na noite desta quinta-feira (21), no Hotel Rosewood, em São Paulo, a companhia reuniu cerca de 150 clientes, entre eles grandes empresas do setor do agro, como Assaí, Sodexo e Pluma Genética, para dois anúncios: o rebranding com a divisão dos negócios em duas marcas e a contratação do jogador Neymar como garoto-propaganda de sua marca maior, Canção, para a Copa do Mundo. Por trás dos lançamentos, uma meta que ambiciona dobra o faturamento atual da companhia para R$ 10 bilhões até 2035.
“O trabalho de marca não acontece em pouco tempo. Não é de um ano para cá que vamos conseguir virar 100% essa chave.Mas tudo vem acompanhado de muito investimento nas indústrias, no campo e na logística”, disse Rafael Tortola, CEO do grupo desde 2018,, assumindo o cargo em 2018, aos 24 anos, sucedendo tio avô e o pai, o fundador Ciliomar Tortola. Em 2024, Rafael fez parte da lista Forbes Under30, que mostra talentos de vários setores da economia, artes, negócios, tecnologias, entre outros.
O alvo de crescimento da companhia sediada em Maringá (PR) é a demanda crescente por proteínas acessíveis. O executivo considera esse cenário o combustível para o salto, apostando que o mercado vai substituir progressivamente os ultraprocessados por produtos de origem animal mais baratos e práticos.
O mercado que a GTF quer dobrar em faturamento tem vento a favor. Segundo a Perspectiva Agrícola OCDE-FAO 2025-2034, o consumo global de frango deve crescer 21% até 2034, o maior índice entre todas as proteínas animais, chegando a 173 milhões de toneladas, e responderá por 62% de todo o volume adicional de carnes consumido no mundo no período.
O Brasil aparece nominalmente entre os países com maior crescimento projetado no consumo. No mercado doméstico, a estimativa per capita é sair de 46,8 quilos em 2025 para 47,3 quilos em 2026, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). No longo prazo, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o período 2023/24 a 2033/34 aponta crescimento de 26,9% no consumo doméstico da proteína, totalizando 12,8 milhões de toneladas em 2034, enquanto as exportações brasileiras devem avançar 29,7%, atingindo 6,6 milhões de toneladas no mesmo horizonte.
O que é a GTF e de onde veio
A estrutura atual da GTF inclui de 29 unidades produtivas, cinco filiais de venda e exportação para mais de 100 países. Para chegar aos R$ 10 bilhões, o grupo precisará mais do que dobrar a capacidade de abate: a operação processa hoje cerca de 650 mil aves por dia, e a meta para 2035 é chegar a 1,2 bilhão de aves processadas.
A companhia nasceu em 1992, em Indianópolis, no interior do Paraná, fundada por Ciliomar Tortola, hoje presidente do Conselho de Administração, e pelo sócio Rogério Gonçalves.
“Nós matávamos mil aves por dia quando começamos. Era muito simples, não havia nada de tecnologia”, recordou Ciliomar no evento.
O reposicionamento das marcas, agora divide o negócio em duas frentes. Tudo que é alimento passou a operar sob a marca Canção. Os ingredientes, amidos modificados e derivados ficaram com a Lorenz, marca centenária incorporada ao grupo em 2015. O objetivo é deixar de ser percebido como produtor de commodity de frango para se posicionar como empresa de soluções alimentares. O crescimento virá também da Lorenz, que Vinícius Gonçalves, vice-presidente e primo de Rafael Tortola, descreveu como “um dos negócios que mais cresce dentro do grupo”.
“O mercado de proteína é um mercado que vemos cada vez mais substituindo ultraprocessados. As novas gerações buscam proteínas mais baratas e mais saudáveis”, disse Gonçalves. “Queremos surfar essa onda e estamos preparados para isso.
Nos últimos dois anos, desde 2024, o grupo destinou R$ 160 milhões a comunicação, promotores, equipe interna e pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. A campanha “Cada Momento Uma História” alcançou mais de 50 milhões de pessoas e mais de 13 milhões nas redes sociais. O reconhecimento de marketing, segundo a companhia, dobrou no período.
Para a Copa do Mundo, a GTF escala Neymar como garoto-propaganda da Canção, com campanhas voltadas ao consumo doméstico e ao varejo durante o período de jogos. A companhia não diz qual o valor do contrato com o jogador. A companhia, por meio da marca Canção Alimentos, é patrocinadora oficial do Santos Futebol Clube desde o início de 2024, time de Neymar. A aposta integra uma estratégia mais ampla de produtos práticos para consumo rápido, com foco em empanados, food wings e itens direcionados ao consumo em casa durante as partidas.
Outro vetor de crescimento identificado pela empresa é a tilápia. Gonçalves descreveu o peixe como “o frango da água”, com apelos nutricionais similares ao frango e amplo potencial para aumento do consumo no Brasil. A ambição de mais que dobrar o faturamento em uma década coloca a GTFoods no grupo de agroindústrias brasileiras que combinam crescimento operacional com investimento intenso em marca. O desafio, como o próprio Gonçalves reconheceu, é que a mudança de percepção no mercado leva tempo. Rafael Tortola preferiu o tom sintético ao encerrar sua fala diante dos clientes reunidos no Rosewood: “Esperem de nós muita simplicidade, muita humildade e principalmente muita transparência.”