Não bastassem as dificuldades conhecidas para avançar na melhoria da qualidade do ensino brasileiro, têm proliferado casos de intimidação a professores por alunos e familiares. Há evidências de que a polarização política entrou nas salas de aula para dificultar ainda mais a vida de quem ensina. São preocupantes os resultados da pesquisa realizada pelo Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras/es (ONVE), da Universidade Federal Fluminense (UFF), junto a 3.012 profissionais da educação básica e ensino superior das redes pública e privada.
As respostas revelam crescimento das agressões a partir de 2010, picos em 2016 — ano do impeachment de Dilma Rousseff —, 2018 e 2022, anos de eleições gerais. Dentre os entrevistados, 10% declararam ter sofrido agressão física. Quase todos (94%) foram vítimas ou testemunharam casos de perseguição, censura, intimidação, agressão verbal ou física a colegas. A maior incidência desses problemas ocorre no Sul, onde apenas 4% dos entrevistados disseram desconhecer ocorrência do tipo, ante 10% no Norte.
Entre os agentes da intimidação, aparecem com destaque estudantes e seus familiares. Em reflexo do ambiente polarizado, 73% dos professores afirmaram ser questionados por temas políticos, 53% por questões de gênero e sexualidade, 48% por assuntos relacionados à religião e 41% por negacionismo científico, em especial na época da pandemia. Alguns enfrentaram dificuldades múltiplas.
Para 47% dos professores brasileiros, a intimidação ou o abuso verbal de alunos é responsável por seu nível de estresse, de acordo com a última Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem, de 2024, coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Barulho excessivo e desordem na sala de aula têm aumentado em todos os países desde 2018. Em 2024, porém, mais de 50% dos professores brasileiros reclamavam do problema, ante aproximadamente 33% em Portugal, Chile, Finlândia e África do Sul — e menos de 5% no Japão e na China.
Tal situação ajuda a desestimular vocações para o ensino. De acordo com as projeções do Instituto Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), faltarão até 235 mil professores para as redes públicas de educação básica até 2040. No momento, já há necessidade de 57% a mais de professores com formação específica em matemática para lecionar a disciplina, segundo o MEC. Políticas de proteção a quem ensina podem ajudar a reduzir o risco real de um apagão mais grave no magistério.