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quinta-feira, junho 18, 2026

Crítica | Batman: Gárgula de Gotham – Plano Crítico

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Rafael Grampá definitivamente demorou, com suas quatro edições de Batman: Gárgula de Gotham sendo publicadas ao lentíssimo passo de uma por ano em média, mas o resultado final de seu trabalho de reimaginação do Batman consegue não só ser um destaque dentre as infinitas reimaginações do personagem ao longo das décadas, como também é, para mim, tudo aquilo que Absolute Batman deveria ser, mas que, infelizmente, está longe de alcançar. O roteirista e desenhista brasileiro não se limita a fazer um Homem Morcego brutamontes e violento; ele vai muito além, costurando a nova origem que ele empresta ao herói à própria essência de Gotham City e do mal que a cidade é capaz de gerar, com direito a uma abordagem inteligente e sobretudo crítica do poder amealhado por aqueles poucos que realmente controlam nossas vidas e que estão acima de governos.

Se a arte de Grampá não precisa de introduções, com ele próprio já tendo trabalhado com o Batman anteriormente, vide Cavaleiro das Trevas: A Criança Dourada, criando um uniforme magnífico para o personagem que ele repete e melhora aqui, mas sem receio algum de ir ao limite do que seu conceito permite, inclusive criando um batmóvel “cego” que é perfeitamente lógico. Suas liberdades anatômicas são igualmente não só parte de sua assinatura visual, como algo que funciona bem demais para a recriação visual e quase orgânica de uma cidade inteira e de seus habitantes, sejam eles os visíveis ou os invisíveis de todas as naturezas. O detalhamento de quadros chega a ser assustador, aproximando-se do nível enlouquecedor de James Stokoe, que simplesmente exige que o leitor, depois de ler seu épico, retorne com calma para o começo somente para observar com toda a serenidade possível tudo o que ele é capaz de colocar nas páginas, com a versão noir dessa graphic novel, só com o lápis e a tinta de Grampá, ajudando nesse mergulho para quem tiver interesse.

Por outro lado, apesar de a primeira obra do autor – Mesmo Delivery – contar tanto com sua arte quanto com seu roteiro, a carreira dele foi muito mais focada na arte no que no roteiro, pelo que a pergunta que não quer calar é justamente se seu trabalho como roteirista funciona em uma história dessa envergadura. Se a resposta a essa pergunta não fico clara já em meu primeiro parágrafo, deixe-me esmiuçá-la: Grampá, desde as primeiras páginas da primeira edição, comanda o espetáculo tanto do ponto de vista visual quanto do narrativo, com seu Batman enfrentando uma ameaça nova interessantíssima que usa mão de obra escrava de pessoas desamparadas pelo sistema, expondo toda a crueldade que vivemos – e preferimos não ver, se quisermos ser sinceros – diariamente ao nosso redor. Mas essa primeira edição, que é quase autocontida, é apenas a proverbial ponta do iceberg, pois há muito mais a ser descortinado nas posteriores que funcionam para efetivamente integrar o Batman ao DNA de tudo o que vemos ser construído.

Grampá trabalha Batman/Bruce Wayne como um homem em eterna luta consigo mesmo, com sua personalidade uniformizada querendo literalmente apagar a persona playboy,  para horror do mordomo e faz-tudo Alfred. Da mesma forma, sua origem é subvertida por completa, criando algo com uma assustadora pegada psicológica que é, então, costurada nos alicerces da cidade e do desenrolar da trama que contém elementos que trafegam pelo sobrenatural ou, pelo menos, pela “ciência estranha e experimental” a ponto de parecer algo sobrenatural. Como se isso não bastasse, Grampá não se vale somente de recriações de personagens importantes da mitologia do Batman. Alguns estão lá, claro, ganhando novas, fascinantes e ousadas roupagens que são até tabu por mexer com crianças, mas boa parte do que ele estabelece e desenvolve em Gárgula de Gotham é criação própria, mesmo que por vezes retirando do fundo do baú dos quadrinhos, mas completamente transformado para algo específico para a minissérie.

Considerando tudo o que Grampá consegue fazer nessas quatro edições e todos os desafios que ele se impôs, o tempo de produção dessa obra-prima é mais do que justificado. O Batman, aqui, é muito mais complexo do que um homem que luta contra o crime em razão de uma promessa depois do assassinato de seus pais; esse novo Batman é a encarnação das sombras que, ao longo da história, adquire a consciência do que ele realmente é e luta consigo mesmo para encontrar um norte que o eleve a mais do que um Cruzado Encapuçado. O Batman de Grampá é a dor sentida e causada por todos nós, é um herói que está muito próximo de ser exatamente aquilo que ele jurou combater. Não é todo mundo que consegue recriar com tanta força e relevância um personagem que tem quase 90 anos de publicações ininterruptas e em quantidades colossais, e eu fico feliz em constatar que Rafael Grampá é um desses autores que pode bater no peito, orgulhoso, dizendo que conseguiu.

Batman: Gárgula de Gotham (Batman: Gargoyle of Gotham – EUA, 2023/26)
Contendo: Batman: Gargoyle of Gotham #1 a 4
Roteiro: Rafael Grampá
Arte: Rafael Grampá
Cores: Matheus Lopes (#1 a 4), Valentina Napolitano (#4), Rafael Grampá (#4)
Letras: John Workman
Editoria: Andrea Shea, Chris Conroy
Editora: DC Comics (DC Black Label)
Datas originais de publicação: 16 de setembro de 2023, 12 de dezembro de 2023, 26 de dezembro de 2024 e 10 de junho de 2026
Editora no Brasil: Editora Panini
Datas de publicação no Brasil: setembro de 2023 (#1), fevereiro de 2024 (#2), abril de 2025 (#2), quarta edição não publicada na data da presente crítica
Páginas: 248



[Fonte Original]

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