Missão Impossível (“tradução” preguiçosa do título original Bite Your Elbow) é, ao mesmo tempo, uma masterclass de convergência narrativa e uma demonstração de preguiça de roteiro, o que até pode parecer uma contradição em termos, mas que, na verdade, não é. A avaliação final do episódio, portanto, dependerá muito do quanto a questão do roteiro pode ser glosada como algo aceitável, mesmo que longe de perfeito, especialmente diante do que o texto de Gursimran Sandhu faz para criar uma sensacional unicidade para as várias linhas narrativas que vinham sendo trabalhadas como todo o rigor nos quatro primeiros capítulos desse surpreendentemente sensacional sidequel de For All Mankind.
Conduzindo a “orquestra”, a diretora polonesa Kasia Adamik parte exatamente do cliffhanger de Floresta Sombria, com a dedução “perfumada” de Irina sobre a identidade do espião no seio da Cidade das Estrelas. Poder-se-ia argumentar que sua conclusão é baseada única e exclusivamente em provas circunstanciais, isso se tanto, já que tudo depende exclusivamente da “mola” que cabe exatamente no frasco de perfume francês no banheiro do casal Mironov e a confissão, por parte de Irina, de que ela vira seu marido Valya conversando um tanto quanto intimamente demais com uma mulher misteriosa no lobby do teatro moscovita em que os dois foram assistir um concerto de piano, mas, em um ambiente altamente vigiado, com os burocratas que comandam o país prontos para fazer o que for necessário para eliminar qualquer desafeto (vide o que ocorreu com Yana Akhmatova), essas duas informações são mais do que suficientes para condenar qualquer um. E são as providências que Irina toma em seguida que levam aos desdobramentos de todo o episódio.
No lugar de guardar as informações para depurá-las com calma, a ainda jovem, mas sempre ambiciosa Irina percebe que tem mais a ganhar se levar tudo ao conhecimento da Coronel Raskova, por ela estar sedenta para tampar o enorme buraco de segurança que ocorrera na missão Luna 17 e que ameaça sua posição perante o Politburo. No entanto, da mesma forma que Irina tem certeza da culpa de Valya, ela também sabe que Tanya não tem nada a ver com a situação, o que a faz arriscar sua vida para tornar possível a fuga da amiga para Moscou, mostrando que há muita decência e moralidade naquilo que a aspirante a diretora da KGB faz. Com isso, ela não só consegue acabar com as suspeitas de sua desafeta invejosa Vika Yegorova, como eleva sua posição perante Raskova que, ato contínuo, deflagra uma caçada a Valya. Entre Tanya correndo para confrontar seu marido, revelando que ele está na mira da KGB e Pavel chegando para conversar com ele, plantando a ideia na cabeça do cosmonauta traidor de que sua única saída é literalmente sair da Terra, tudo flui naturalmente para a missão secreta para Vênus, com um Projetista-Chefe capaz de aceitar qualquer coisa e qualquer explicação para a troca de último segundo que ocorre e que leva Valya a Baikonur – não sem antes um simbólico “rato morto” aparecer no caminhão – para fazer um bate e volta venusiano de nove meses, na versão da série para o Programa Venera de sondas soviéticas para o planeta, que durou de 1961 a 1983.
Entremeando essa história macro, o começo do que poderia ser – e talvez ainda possa ser , não sei – uma história de amor entre Anastasia e Sasha é um momento acridoce, com o segundo contando para a primeira sobre sua “reclusão na Sibéria” por nove meses no dia seguinte em que eles passaram a noite juntos aparentemente pela primeira vez, notícia que ela naturalmente recebe com raiva e dor. O bonito dessa linha narrativa é finalmente vermos um momento em que Anastasia está realmente feliz, mesmo que brevemente, depois que ela retorna da Lua. O sofrimento de meses sendo equilibrado por uma noite genuína que, mesmo sendo interrompida na manhã seguinte, resulta em uma bela carta de Sasha para sua esposa em que ele põe um belo sorriso no rosto de Anastasia, com Alice Englert novamente entregando uma performance sensível.
Deixei o elefante na sala para o final, de forma a mostrar que ele, apesar de bem presente, não teve, para mim, o condão de fazer o episódio ruir sob seu peso. O tratamento que a missão para Vênus recebeu para torná-la possível em um ambiente forte e obsessivamente vigiado como a Cidade das Estrelas, foi conveniente demais, com o roteiro passando por cima das complicações todas, tornando o envio de três astronautas relevantes para uma missão não sancionada pelo Politburo algo tão simples quanto um passe de mágica ou um estalar de dedos. O grau de suspensão de descrença necessário para aceitar algo assim me pareceu alto demais para uma série que mantém os dois pés fincados no chão, mas temos que levar em consideração, por outro lado, que o Projetista-Chefe é, para todos os efeitos, a autoridade máxima por ali, acima até mesmo da Coronel Roskova como já ficou claro anteriormente e mesmo considerando o jogo maldoso e egoísta que ela faz usando Nikulov como peão. Ou seja, o que o Projetista-Chefe determina, acontece e é nisso que eu me agarrei para aceitar que a missão secreta seria realmente possível sem que fosse necessário que seus meandros fossem esmiuçados para o benefício dos espectadores. Mesmo assim, admito que fiz um esforço.
Mas foi um esforço que valeu a pena diante de todo o restante. Missão Impossível é, mesmo com as conveniências venusianas, um poderoso episódio que reposiciona Irina – além de abordar de leve seu passado aristocrático e sua relação, talvez parentesco com Leonid Brejnev – e leva a temporada a um momento-chave que me deixou extremamente curioso para ver como será abordado, pois estamos diante de um momento perfeito para os showrunners fazerem o que fazem tão bem: saltar no tempo para o retorno da missão para Vênus. Ou não, claro…
Cidade das Estrelas – 1X05: Missão Impossível (Star City – 1X05: Bite Your Elbow – EUA, 19 de junho de 2026)
Criação: Ben Nedivi, Matt Wolpert, Ronald D. Moore
Showrunners: Ben Nedivi, Matt Wolpert
Direção: Kasia Adamik
Roteiro: Gursimran Sandhu
Elenco: Rhys Ifans, Anna Maxwell Martin, Agnes O’Casey, Alice Englert, Solly McLeod, Adam Nagaitis, Ruby Ashbourne Serkis, Josef Davies, Ian Midlane as Mikhail, Hannah Steele, Eadie Johnson, Priya Kansara, Eliot Salt, Sam Strike
Duração: 58 min.