Como não sou muito chegado a animes serializados, minha trajetória até Rooster Fighter foi quase aleatória, com pitadas de nostalgia. Deparei-me com a série em serviço de streaming e uma história sobre um galo lutando contra monstros me fez clicar para conferir alguns minutos, o que me levou a ver o galo branco protagonista espancar um kijuu – uma variação específica do termo kaiju para a série – e, em seguida, transar com uma galinha, somente para abandoná-la friamente em seguida. Desliguei, lembrei que havia lido há pouco tempo a HQ filipina Sa Wala: Tudo por Nada, sobre um galo de briga psicopata e, mais ainda, lembrei-me de uma época mais simples em que, por incrível que pareça, tive, quando criança, um galo branco enorme que cresceu a partir de um pintinho que meu pai comprara para mim e que viveu por muitos e muitos anos, com um caminhão de histórias bacanas que um galo em um prédio pode gerar, inclusive a falta que meus vizinhos sentiram de seu canto às 5 da manhã todos os dias quando nós finalmente o levamos para viver em uma granja.
Com isso, procurei saber de onde veio a ideia para o anime e, sem muita surpresa, descobri de imediato que ele é uma adaptação do mangá homônimo escrito e desenhado por Shū Sakuratani e que vem sendo publicado no Brasil. Li os dois primeiros volumes, achei curioso e resolvi, então, retornar ao anime para ver se eu conseguia aguentar os cacoetes das animações japonesas, mesmo que essa em particular seja uma produção sino americana. O inusitado da premissa acabou funcionando para mim, com Keiji (Kenta Miyake – eu assisti com vozes em japonês por achar que combina mais com esse tipo de doideira), o galo branco do título capaz de um “cocoricó” (ou, mais especificamente, “kokekokko”) sônico que consegue derrotar os tais kijuus, sendo enquadrado como uma espécie de ronin que caminha pelo Japão para vingar-se do monstro que matara sua irmã Sara (Hikaru Tōno, com a personagem aparecendo em flashbacks), algo que é enfatizado pelo trabalho de voz Miyake que emula o estilo de Toshiro Mifune e outros célebres atores japoneses que viveram samurais.
Como de grão em grão é que a galinha enche o papo, o solitário protagonista não demora a atrair seguidores que, na série, começam com uma dedicada pintinha com tatuagem no dorso cortesia de seu “pai” humano e que acha que está apaixonada por Keiji, sendo batizada de Piyoko (Shiori Izawa) que, como na tradução do mangá, significa simplesmente Pintinha… A segunda seguidora é Elizabeth (Mariko Honda), uma galinha preta que fora abandonada por Keiji depois de uma rapidinha e que quer se vingar dele por causa disso. Piyoko é, como é de esperar, uma chata de galochas, mas Elizabeth, que compensa a falta de poderes com o uso de tecnologia, o que inclui um bastão que dá choques elétricos de 10 milhões de volts e o uso do celular para fazer pesquisas e falar com humanos, é a companheira ideal e complementar o sempre empombado Keiji, que canta de galo o tempo todo e que demora a perceber que há muito pelo em ovo nessa história, mas com os roteiros não tendo pena alguma em enquadrá-lo como um babaca.
A estrutura clássica de mangás e animes faz-se presente ao longo dos 12 episódios, com a trinca central ganhando mais companheiros de naturezas diferentes, mas com objetivos iguais e com os poderes sempre ganhado evoluções, algo que também acontece do lado dos kijuus. Falando nos kijuus, aliás, o conceito criado pelo mangaká Shū Sakuratani é fascinante, pois os monstros são, na verdade, humanos profundamente traumatizados e angustiados, como uma manifestação física dos problemas que enfrentamos no cotidiano. Esse aspecto casado com a pegada paródica da série, que claramente existe para fazer troça de animes de ação, faz a primeira metade da temporada funcionar muito bem, com um bom desenvolvimento de personagens. No entanto, como não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos, quando a série aborda mais seriamente a mitologia dos kijuus, de forma a expandi-la para evitar repetições, algo se perde na história. Ela deixa de ser apenas uma paródia descompromissada em que os heróis a que estamos acostumados são trocados por galináceos e se torna algo mais e, ao mesmo tempo, algo de menos, com um plano maquiavélico mais amplo e uma espécie de “origem” para Keiji que tira a espontaneidade surreal da narrativa.
Enquanto Keiji é enquadrado como o galo machão tarado e misógino que acha que pode afogar o ganso quando quer e que é alvo ao mesmo tempo de raiva de Elizabeth e idolatria de Pintinha (o que é, sem dúvida, bastante perturbador), com momentos hilários como quando ele descobre iguarias culinárias, especialmente o ouriço-do-mar fresquinho que ele experimenta, volta e meia espancando um kijuu, tudo é muito prazeroso e hilário. Quando, porém, a narrativa tenta não colocar todos os ovos na mesma cesta, indo além para criar uma história macro unificada, algo que era de esperar, eu sei, o anime perde a força e se vale demais de tropos do gênero, notadamente as demonstrações crescentes de poderes que não demoram a ficar cansativas, com algumas batalhas demorando um episódio inteiro para acabar. E, como se isso não bastasse, esses poderes crescentes são, apenas e tão somente, variações da mesma coisa, variações essas que, também como parece ser regra em animes e mangás, precisam ser detalhadamente esmiuçadas ou com explicações verbais didáticas ou com flashbacks que quebram por completo a cadência narrativa.
Mesmo assim, a produção merece elogios e não só pela premissa, pois a animação em si, reunindo animação 2D e 3D, é improvavelmente muito bonita, com as sequências de ação esbanjando cinética a ponto de ser até desnorteante em determinados momentos. A arte, que consegue transpor e melhorar as criações do mangaká para as telinhas também merece aplausos, assim como o trabalho de edição e mixagem de som que vai do som das patinhas dos galináceos em superfícies duras como concreto e asfalto, passando pelo cacarejar e, claro, das rajadas sônicas ensurdecedoras. Da mesma forma, a trilha sonora composta principalmente por Tetsuya Takahashi tem um caráter épico que ao mesmo tempo não combina e combina com galos e galinhas lutando contra monstros variados, o que contribui para uma atmosfera de surpresas e de deslumbramento pelo mero fato de vermos e ouvirmos o que estamos vendo e ouvindo.
Como cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém, talvez fosse o caso de Rooster Fighter tentar evitar abraçar o mundo e criar novidades e cada dois episódios. Seguir o mangá não é fórmula infalível para animes e, aqui, era necessário um comedimento maior para evitar que a história se perca. Afinal, temos que lembrar que galo que acompanha pato morre afogado… Mesmo assim, Keiji me fez relembrar de meu galo branco urbano que, com certeza, mesmo sem cocoricó sônico, seria capaz de destruir um kijuu só com seus esporões dos infernos e sua bicada mortal.
Rooster Fighter – 1ª Temporada (Idem – EUA/Japão – 15 de março a 31 de maio de 2026)
Desenvolvimento: Daisuke Suzuki, Joseph Chou (com base em manga de Shū Sakuratani)
Direção: Hajime Yamanokuchi, Takumi Miyata, Motomu Endo, Daiki Uchida, Daisuke Suzuki
Roteiro: Daisuke Suzuki, Shōko Hayashi, Motomu Endo, Kenta Sasaki, Kayoko Ezoe
Elenco japonês de voz: Kenta Miyake, Mariko Honda, Shiori Izawa, Akio Ōtsuka, Jun Kasama, Natsumi Fujiwara. Hikaru Tōno, Yūko Kaida, Tomohiro Ōno
Duração: 300 min. (12 episódios)