O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, propôs nesta quinta-feira um encontro presencial com Vladimir Putin em uma rara carta aberta ao líder russo, afirmando também estar pronto para um “cessar-fogo total”.
“A Ucrânia propõe o fim desta guerra por meio de um diálogo direto entre nós e você. Proponho um encontro”, disse Zelensky na carta. “A Ucrânia está pronta para um cessar-fogo total durante o período de negociações”.
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Em declarações a um grupo de jornalistas estrangeiros em sua cidade natal, Putin afirmou nesta quinta-feira estar sempre disposto a negociar com Kiev uma saída para a guerra, com base no que foi discutido “durante o encontro com o presidente [americano Donald] Trump” em Anchorage, em agosto de 2025.
Moscou exige de Kiev concessões políticas e territoriais, em particular uma retirada completa da região de Donetsk, que faz parte do Donbass. O governo ucraniano se recusa a aceitar essas condições por considerá-las uma capitulação.
Um acordo não excluiria, segundo Putin, que Moscou controle completamente o Donbass, bacia mineradora no leste da Ucrânia que atualmente está parcialmente sob controle russo.
— Uma coisa não exclui a outra — afirmou aos jornalistas.
O chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, afirmou na quarta-feira que “nenhuma das duas partes esteve disposta a fazer as concessões necessárias para restabelecer a paz, particularmente do lado russo”.
Donald Trump voltou à Casa Branca afirmando que encerraria a guerra rapidamente, mas desde a eclosão de um conflito no Oriente Médio após um ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, passou a ter outra frente de crise aberta.
— Está claro que a administração americana se vê obrigada a concentrar sua atenção nesse assunto e a tratá-lo antes de qualquer outro — avaliou Putin nesta quinta-feira.
No terreno, os combates continuam. O líder russo assegurou que as tropas de Moscou avançam “em toda a linha de frente”.
Uma análise da AFP dos dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) mostra, no entanto, que a Ucrânia recuperou dos russos cerca de 282 km² em maio, reduzindo pelo segundo mês consecutivo a área de seu território controlada por Moscou.
Do fim de 2023 até alguns meses atrás, os russos vinham ganhando terreno. Ainda assim, apesar do recuo das Forças russas, há militares russos infiltrados na maioria das áreas onde a Ucrânia recuperou território.
Mediação americana
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, compareceu esta semana diante de quatro diferentes comissões parlamentares para discutir o papel de Washington em vários conflitos ao redor do mundo, mas o tema da guerra na Ucrânia mal foi mencionado. Com o governo do presidente Donald Trump consumido pela crise no Irã, a Ucrânia saiu em grande parte do radar da administração americana, apesar do aumento dos ataques letais contra o país.
Na quarta-feira, um dia depois de ataques russos terem deixado 23 mortos em todo o território ucraniano, Zelensky lamentou que os EUA tenham reduzido sua atenção a esse conflito.
— Hoje não estamos no foco — afirmou Zelensky durante uma visita a Kiev do chefe da Otan, Mark Rutte. x — O Irã é o assunto número um para os Estados Unidos, e depois vem a questão da Ucrânia. Infelizmente, estamos no fim da fila dessas guerras.
Em uma entrevista na semana passada, o presidente ucraniano disse que a Ucrânia necessita urgentemente de sistemas de defesa aérea americanos contra os mísseis russos e de uma postura mais firme diante do líder russo Vladimir Putin.
— Precisamos de mais sanções. Acho que precisamos de mais pressão — declarou o presidente ucraniano à emissora CBS.
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Sem saída militar
Trump fez campanha com a promessa de encerrar rapidamente a guerra na Ucrânia e dedicou meses à diplomacia, pressionando Kiev a fazer concessões e aproximando-se de Putin na tentativa de alcançar um acordo de paz. Mas esse esforço resultou apenas em uma série de cessar-fogos passageiros e trocas de prisioneiros, enquanto Moscou e Kiev continuam distantes em questões territoriais, garantias de segurança e suspensão de sanções.
Em seu depoimento diante de um painel parlamentar, Rubio admitiu que as negociações lideradas pelos Estados Unidos entre Moscou e Kiev estavam em um impasse.
— Infelizmente… nenhuma das partes esteve disposta a fazer concessões, especialmente o lado russo — declarou Rubio ao Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. — Acreditamos que a guerra na Ucrânia, uma guerra devastadora, não tem solução militar; ela só pode ser resolvida pela via diplomática, e isso tem sido infrutífero.”
Com a situação estagnada no campo de batalha, Moscou intensificou seus ataques com mísseis e drones contra cidades ucranianas, enquanto Kiev aumenta seus ataques contra instalações militares e infraestrutura dentro da Rússia.
Rubio afirmou que o sucesso da Ucrânia ao atingir alvos em território russo provavelmente será respondido com mais agressividade.
— O risco de uma escalada é real, mais real do que há dois anos — declarou diante do Comitê de Apropriações do Senado.
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Mais ação da Europa?
Elina Beketova, pesquisadora do Centro para Análise de Políticas Europeias, sediado em Washington, afirmou que o Kremlin tem pouco interesse genuíno em negociar.
— Os ataques recentes contra a Ucrânia indicam que a Rússia não está pronta para uma desescalada — pontuou Beketova. — Uma janela para negociações poderá se abrir apenas se a situação no campo de batalha mudar: se a Ucrânia fortalecer sua posição como um resiliente “Estado-fortaleza” e a Rússia ficar significativamente desgastada tanto militar quanto economicamente.
Zelensky tem pedido à Europa que se envolva de forma mais ativa, inclusive por meio da diplomacia com Moscou, algo que os líderes europeus têm evitado, concentrando-se em isolar a Rússia por meio de sanções.
“Ambos concordamos que a Europa deve participar das negociações”, escreveu Zelensky no Facebook no mês passado após uma conversa com o presidente do Conselho Europeu, António Costa. “É importante que ela tenha uma voz e uma presença fortes nesse processo.”
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